20 minutos pra sair: PM de Mateus Simões retira famílias de terreno ligado ao Banco Master em Uberlândia
Área de quase 97 hectares foi ocupada pelo MTL para reivindicar reforma agrária

Redação
Institucional

Foto: Reprodução/MTL
“Vocês têm 20 minutos para sair.” Foi com esse prazo que as famílias que ocupavam a Fazenda Bom Jardim, em Uberlândia, no Triângulo Mineiro, foram avisadas pela Polícia Militar de Minas Gerais de que teriam que deixar o terreno na tarde da última terça-feira (1º).
No vídeo que registra o momento, advogadas do Movimento Terra, Trabalho e Liberdade (MTL) perguntam aos policiais qual decisão judicial determinava a retirada. Um capitão da PM responde que não havia medida judicial e repete o prazo. Pouco depois, militares começaram a desmontar a delimitação do acampamento, mesmo sob questionamentos de que os 20 minutos ainda não haviam terminado.
A operação terminou com a saída das famílias de uma área de 96,76 hectares às margens da MGC-497. O episódio já seria suficiente para levantar dúvidas sobre a atuação do Estado em um conflito fundiário. Mas a história do terreno adiciona algumas cifras e personagens à discussão.
A Fazenda Bom Jardim pertence ao Fundo de Investimento Imobiliário Bacuri, administrado por gestoras que apareceram nas investigações relacionadas ao escândalo do Banco Master. Segundo informações do Intercept Brasil, meses antes da ocupação, a área também esteve no centro de outra polêmica: seu valor declarado saltou para R$ 76 milhões depois que o terreno foi escolhido para receber um data center de inteligência artificial de R$ 6 bilhões.
A ocupação começou no domingo (30), organizada pelo MTL. Os números variam conforme a fonte: o movimento afirmou inicialmente que cerca de 500 famílias participaram da mobilização, enquanto o Governo de Minas contabilizou aproximadamente 130 pessoas no local. Segundo o MTL, 301 famílias envolvidas já estavam cadastradas pelo Incra e parte delas vinha do Acampamento Bob Vive.
Entre as reivindicações estavam a permanência das famílias até a definição de um assentamento, a realização de vistorias pelo Incra e a identificação de imóveis que pudessem ser destinados à reforma agrária.
O governador Mateus Simões (PSD), que disputa a reeleição, alterou sua agenda de campanha e foi até Uberlândia acompanhar a ocupação. Em vídeo publicado nas redes sociais, afirmou que a PM havia cercado a propriedade para impedir a entrada de novas pessoas e, principalmente, de estruturas que permitissem ao grupo permanecer no terreno.
Segundo Simões, a estratégia era não permitir que chegassem materiais que dessem suporte à organização das famílias. O governador afirmou ainda que a ocupação não seria tolerada e destacou que a Polícia Militar estava sob seu comando.
Nos dias seguintes, o acesso à área ficou controlado pelas forças de segurança. Organizações que acompanharam a mobilização afirmam que houve restrição à entrada de alimentos, água e produtos de higiene, além de dificuldades para o acesso da imprensa. A Associação dos Docentes da Universidade Federal de Uberlândia (Adufu) e outras entidades classificaram posteriormente a retirada como ilegal por ter ocorrido sem ordem judicial.
Na terça, veio o ultimato.
O vídeo divulgado pelo próprio movimento mostra a advogada questionando diretamente o policial sobre a existência de uma decisão judicial. O capitão responde que não havia ordem e mantém a determinação para que o grupo deixasse o local em 20 minutos.
Para entender por que a ocupação ganhou repercussão para além do conflito por terra, é preciso voltar alguns meses.
A Fazenda Bom Jardim pertence ao Fundo de Investimento Imobiliário Bacuri. Segundo investigação publicada pelo Intercept Brasil em julho, o fundo foi administrado até meados de 2025 pela Reag Trust e posteriormente pela WNT Capital. As duas gestoras apareceram em investigações da Polícia Federal relacionadas ao caso Banco Master.
E é aí que os números começam a ficar curiosos:
Documentos obtidos pelo Intercept Brasil mostram que a certidão do imóvel apontava valor de R$ 1,78 milhão para fins fiscais. O fundo, por sua vez, informou que havia adquirido a propriedade em 2019 por R$ 14 milhões.
De acordo com as informações do Intercept, no balanço de 2025 o valor declarado do terreno já era de R$ 76 milhões.
A valorização aconteceu em meio ao anúncio de que a área receberia um enorme data center de inteligência artificial da RT-One.
O projeto foi apresentado com investimento de mais de R$ 6 bilhões e chegou a ser celebrado pela Prefeitura de Uberlândia como um empreendimento capaz de transformar a cidade em polo de infraestrutura tecnológica. O terreno possui aproximadamente 1 milhão de metros quadrados.
Mas havia outro número no contrato que chamava atenção: R$ 1 mil. Era esse o aluguel mensal previsto para a RT-One utilizar a área.
O acordo estabelecia o arrendamento de aproximadamente 96 hectares por R$ 1 mil ao mês durante 15 anos. Ou seja, um imóvel declarado no balanço do fundo como valendo R$ 76 milhões seria alugado por R$ 12 mil por ano.
Depois que a reportagem veio a público, a RT-One rompeu o contrato com o Fundo Bacuri. Ou seja: quando as famílias chegaram à Fazenda Bom Jardim em agosto, o data center que ajudou a colocar a propriedade no centro de uma negociação bilionária já não seria construído ali.
O MTL escolheu justamente essa propriedade para colocar outra discussão no centro da mesa: quem decide o que é uma terra produtiva e quando uma propriedade cumpre sua função social?
A Constituição brasileira protege o direito à propriedade, mas também determina que ela deve cumprir uma função social. No caso de imóveis rurais, isso envolve critérios como aproveitamento adequado, preservação ambiental, respeito às relações de trabalho e promoção do bem-estar de proprietários e trabalhadores. A desapropriação de imóveis rurais para reforma agrária, no entanto, é competência da União e precisa seguir processo próprio.
O prefeito de Uberlândia, Paulo Sérgio Ferreira, defendeu a retirada das famílias e afirmou que a Fazenda Bom Jardim é uma propriedade privada produtiva.
Para avaliar se aquela terra poderia ou não ter alguma destinação relacionada à reforma agrária, o movimento pedia a atuação dos órgãos públicos. Para retirar as famílias, o Estado não esperou uma decisão judicial.
A atuação de Simões também entrou na disputa eleitoral. Uma representação apresentada ao TRE-MG pela deputada Bella Gonçalves (PSOL-MG) questionou a mistura entre a agenda institucional do governador e sua campanha à reeleição, já que os vídeos sobre a operação foram publicados com elementos de campanha. O pedido liminar para retirada das publicações foi negado.
No fim, a Fazenda Bom Jardim ficou vazia novamente.
Para tirar as famílias, bastaram 20 minutos. Para responder as perguntas sobre todo esse escândalo, parece que o relógio corre em outra velocidade.
Com informações de Intercept Brasil e Estado de Minas.
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