A cidade é delas? 74% das ruas de BH que homenageiam pessoas levam nomes de homens
Em Belo Horizonte, mulheres são minoria nas homenagens urbanas e maioria nas estatísticas de violência. Esquecimento ou projeto?

Jô Andrade
Repórter

Ato político pela vida da mulher, em Belo Horizonte. Foto: Jô Andrade
Sabia que as ruas e avenidas de Belo Horizonte não são nem minimamente pensadas para homenagear mulheres? Enquanto nomes de homens dominam 74,3% das homenagens na cidade, para as mulheres são só 25,7%. O levantamento foi feito pelo Xôtifalá, com base nos Dados Abertos da Prefeitura de BH.
Subjugadas, mal pagas, silenciadas, deslegitimadas, interrompidas, mortas. O apagamento das mulheres na cidade não é aleatório, mas um projeto bem-sucedido.
E a gente não deveria estar acostumado com isso, já que o esquecimento de nomes de mulheres importantes para a cidade é sintoma de um problema grave que, em grande escala, tem feito vítimas todos os dias.
Para se ter uma ideia, BH tem 17.168 logradouros — nome técnico das ruas, avenidas, becos e alamedas — ativos atualmente, sendo que 4.517 têm nomes de pessoas. Mas olha a diferença gritante:
Se as mulheres não são lembradas nem na rua que pisam, como vamos construir um futuro pensando nelas? Muito se fala das inúmeras campanhas de combate à violência contra a mulher, mas ainda estamos engatinhando para permitir que elas vivam de forma plena e justa.
Depois de muitos anos de luta e pressão popular, o poder público tem dedicado parte das políticas de enfrentamento à violência de gênero, mas infelizmente essas medidas ainda são voltadas para o pós-violência.
Segundo informações do Painel de Violência contra a Mulher do Conselho Nacional de Justiça (CNJ), a Justiça brasileira julgou, em média, 42 casos de feminicídio por dia em 2025, um aumento de 17% em comparação ao ano anterior. Ao todo, foram 15.453 julgamentos de homens que foram presos por matar mulheres pelo simples fato de serem mulheres.

Ao que parece, falar de mulher te obriga a falar sobre a morte delas, e não sobre suas vidas.
Quando se fala em política pública para a defesa da mulher, estamos falando de ações reais que as coloquem em posição de tomada de decisão, de liberdade e proteção. E para isso acontecer, as mulheres precisam estar, primeiramente, vivas, e presentes no orçamento público.
A feminista e ativista Daniela Pereira explica que defender as mulheres está longe de presenteá-las no dia 8 de março, e que o apagamento das mulheres é um projeto que opera a partir de uma engrenagem complexa e que, no caso das cidades, vai desde a arquitetura e o urbanismo, até os nomes dados às vias públicas.
“Do ponto de vista da construção da cidade e de suas estruturas, a gente observa desde a iluminação pública e o traçado das ruas, que deveriam ser pensados para nossa segurança, até os prédios públicos, que não contemplam, por exemplo, estruturas para bebês e crianças. Outro exemplo pode ser a ausência de espaços para amamentação e fraldário, passando pela questão dos banheiros, que, ao contrário do que muita gente pensa, foram uma conquista histórica das mulheres, buscando sua proteção contra os homens”, explicou.
Ainda segundo a ativista, o pacto entre os homens, uma forma de solidariedade masculina, mantém estruturas de poder machistas e patriarcais, além de proteger seus próprios privilégios. E essa lógica do patriarcado atravessa toda a sociedade, organizando relações de poder em papéis de gênero, em todos eles, o homem ocupa o lugar central.
"No caso dos nomes das ruas, todos exaltando homens, ficam duas mensagens claras logo de início: a cidade é deles, e não nossa, e mulheres não fizeram nada de importante na história e por isso não merecem nenhuma homenagem, o que, obviamente, é falso. A partir daí é fácil concluir que estamos diante de um projeto para excluir as mulheres dos espaços públicos e também da memória, e ambos os processos de exclusão são violências silenciosas”, afirmou Daniela.
E pensar que a cidade onde nasceram figuras potentes como Lélia Gonzalez, Teuda Bara, Dona Valdete da Silva Cordeiro, Adriana Araújo, e tantas outras, é a mesma que registrou quase dois mil casos de violência doméstica só em janeiro deste ano, segundo dados da Secretaria de Estado de Justiça e Segurança Pública (Sejusp).
Enquanto o marcador social atrelado à mulher for violência e não memória dentro da cidade, todas elas continuarão esquecidas. Quando uma narrativa é criada com base em dar relevância ao que os homens constroem, as mortes e a ideia de que a cultura do machismo “sempre foi assim” nunca vai acabar. Ainda segundo Daniela Pereira, é como se o protagonismo dos homens fosse um dom natural e imutável.
“Ora, se “sempre foi assim”, nos resta o conformismo e a aceitação passiva da subordinação. Além disso, a falta de referências a serem seguidas faz com que cada mulher tenha que trilhar seu caminho sozinha, geração após geração, sempre começando do zero e sabendo que essa caminhada, além de solitária, é fadada ao fracasso e ao esquecimento. Memória também é poder e, o mais importante: é um poder transgeracional. Por isso não podemos abrir mão do nosso justo quinhão na construção das memórias coletivas do nosso país. Afinal, nós sempre estivemos aqui”.
E aí, Prefeitura e Câmara dos Vereadores, dá para incluir a gente na cidade, ou vamos ter que morrer de novo para ter o mínimo de lembrança da vida que um dia existiu?
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