“A cultura precisa estar no centro das nossas atenções”, diz Cida Falabella sobre identidade de BH
Em entrevista exclusiva ao quadro Cara a Cara, a Secretária de Cultura de Belo Horizonte, faz um balanço dos primeiros meses de gestão.
Gleidistone Silva
Colunista
7 min
Foto: Marcos Gomes/Teia de Criadores
Atriz, diretora, ex-vereadora e agora à frente da Secretaria Municipal de Cultura de Belo Horizonte, Cida Falabella carrega consigo uma longa trajetória de ativismo e atuação direta na cena artística da capital mineira. Há pouco mais de três meses no comando da pasta, ela recebeu a reportagem do Cara a Cara para uma conversa aberta sobre os desafios de gerir a cultura belo-horizontina, a democratização do fomento, o papel da periferia na ocupação da cidade e a expectativa para a próxima edição da Virada Cultural.
Abaixo, você confere a entrevista completa com a gestora:
Já faz pouco mais de três meses que você assumiu a pasta da Cultura. Para você, como tem sido essa experiência de transição entre o período no Legislativo e agora a gestão direta no Executivo? Qual balanço você faz desse início?
Cida Falabella — É, bom, primeiro, um desafio gigante, mas que eu acho que vem depois de um processo longo, até anterior à vereança, de participação na vida cultural da cidade, na vida pública: através do Conselho Municipal de Cultura, em 2011; de participar também de movimentos de teatro e dialogar com o Festival Internacional de Teatro; e também trabalhei em equipamentos da Prefeitura, na Biblioteca Pública Municipal Infantil e Juvenil, que foi uma experiência muito boa.
Como vereadora, sempre estive nesse espaço na construção de pontes entre o Legislativo e o Executivo. Construindo projetos de lei, fortalecendo o orçamento e, depois, através das emendas impositivas, sempre com um diálogo muito grande com a política cultural. Construímos a primeira Lei Cultura Viva — BH foi a primeira capital a ter uma lei dessas —, capoeira nas escolas, arte da saúde... Ou seja, a cultura articulada a outros setores.
“É um desafio gigante, mas parece que a gente, de alguma forma, estava fazendo um curso preparatório para poder entrar e ser secretária. Acho que é por isso que a gente aceita o desafio.”
Um dos desafios históricos de BH é a descentralização cultural, já que muitas vezes parece que as atrações se concentram na região Centro-Sul. Quais esforços a pasta tem feito para levar e valorizar a cultura nas outras regionais da cidade?
Cida Falabella — Belo Horizonte tem um perfil muito interessante, que ressoa muito em outros estados, que é exatamente a questão da descentralização. Na verdade, a descentralização é mais do que só espalhar para a periferia: é considerar que cada um desses espaços tem sua centralidade na região.
Nós temos 17 centros culturais espalhados pela cidade, muitos deles frutos diretos do Orçamento Participativo, o que denota a participação da população e o entendimento de que a cultura é um investimento fundamental, assim como a saúde e a educação. Hoje, nós somamos 350 pontos de cultura na cidade, sendo que 45 deles estão em vilas e favelas, distribuídos por todas as regionais, garantindo grande capilaridade. Temos projetos importantes como o Descontorno Cultural, mostra que acontece nos fins de semana em todos os centros culturais, e o Descentra, em que os artistas são selecionados para atuar fora da região central.
Sempre há o que aperfeiçoar, mas BH tem um olhar consolidado de que não vive só no hipercentro. E o próprio centro também acolhe a periferia, como vemos no Duelo de MCs embaixo do viaduto ou no corredor cultural da Praça da Estação. Essa ocupação que inverte a mão — trazendo a periferia para o coração da cidade — é igualmente importante.
Pensando em legado, o que você deseja deixar para a cidade, tanto para a classe artística quanto para a população em geral?
Cida Falabella — As políticas públicas de cultura de Belo Horizonte são muito bem estruturadas. Isso é algo muito positivo, pois elas atravessam governos distintos e de diferentes colorações partidárias; já existe uma estrutura enraizada e forte. O primeiro passo é manter e ampliar essa base. A demanda por recursos é sempre crescente, e nosso compromisso é seguir buscando mais orçamento para a área.
Mas, principalmente, o objetivo é abraçar a pluralidade de vozes de Belo Horizonte: não podemos deixar ninguém de fora. Estamos estruturando uma Política Municipal das Artes, aderindo ao Plano Nacional das Artes lançado recentemente pelo Governo Federal, e, a partir dele, construir os planos setoriais de dança, teatro, artes visuais e cultura urbana.
“Temos uma missão fundamental: zelar pela manutenção, pelo respeito e pela continuidade dos povos e comunidades tradicionais, com seus saberes, seus espaços e seus modos de vida. Nosso compromisso é estruturar um programa contínuo de apoio, tanto nas suas festividades quanto no seu dia a dia.”
Existe um comentário frequente no meio artístico de que as verbas públicas e os editais de fomento acabam concentrados sempre nos mesmos nomes e grupos. Você concorda com essa crítica?
Cida Falabella — Não concordo. Inclusive, teremos em setembro um seminário dedicado justamente a analisar os dados do nosso fomento e das leis de incentivo, que hoje movimentam quase R$ 50 milhões na cidade. Nossos critérios de avaliação incluem marcadores sociais indispensáveis, como o recorte racial e o territorial — territórios em situação de maior vulnerabilidade recebem pontuações adicionais para garantir direitos e cidadania.
Temos visto cada vez mais proponentes inéditos sendo aprovados. O edital de premiação da Política Nacional Aldir Blanc (PNAB), com o Cultura Viva, tem reconhecido mestres da cultura popular e agentes culturais de forma totalmente descentralizada.
“O que a gente busca é dar conta de todo mundo: de quem tem uma trajetória consolidada e muita história para contar, mas também das novas gerações que estão chegando com muita sede e vontade de movimentar a cidade.”
Com a proximidade da Virada Cultural, surgem comparações inevitáveis com a edição de São Paulo, que aposta em grandes palcos e megashows nacionais, enquanto BH costuma priorizar a cena local. O que o público pode esperar do evento neste ano?
Cida Falabella — No ano passado, a Virada reuniu cerca de 500 mil pessoas circulando pelas ruas. É uma das nossas maiores celebrações, ao lado do Carnaval e do Arraial de Belo Horizonte. Não acredito que devamos criar uma falsa dicotomia entre atrações nacionais e a cena local. Existe um trabalho consciente para nacionalizar a produção artística de BH, dando visibilidade ao imenso talento dos nossos músicos, atores, dançarinos e artistas visuais. São Paulo possui um orçamento dez vezes maior, o que naturalmente gera um impacto em outra escala. Mas Belo Horizonte tem o seu próprio charme e a sua própria assinatura:
“Belo Horizonte faz a Virada do nosso jeito mineiro: com acolhimento, pensando nas mães com crianças pequenas, na acessibilidade para pessoas com deficiência e na representatividade. As pessoas querem estar na rua usufruindo do espaço público. A nossa Virada tem a cara de BH, e BH é nois.”
A programação contempla múltiplos públicos e horários: quem quer virar a madrugada tem atrações dedicadas, e as famílias contam com atividades integradas em parques e praças por meio de diversas iniciativas parceiras.
Para além do cargo de gestora, qual é o seu grande sonho para a cultura da capital enquanto cidadã de Belo Horizonte?
Cida Falabella — Eu sonho que a cultura ocupe, em definitivo, um lugar central no desenvolvimento de Belo Horizonte, sendo compreendida em suas três dimensões essenciais:
A dimensão simbólica que é vital para o ser humano. A vida não pode se resumir ao massacre da rotina em busca da sobrevivência; a arte abre horizontes, nos faz sonhar, voar e desejar outras realidades.
A dimensão cidadã que estabelece o direito de ocupar a cidade, de ter a consciência de que o espaço público nos pertence, garantindo o acesso, a fruição e a produção cultural por todos.
A dimensão econômica. O reconhecimento da cultura como uma matriz de desenvolvimento limpa, sustentável e agregadora, que caminha de mãos dadas com o turismo, a educação, a ciência e a pauta ambiental.
“Quero que a cultura esteja no centro — não no centro geográfico, mas no centro de todas as nossas atenções, pulsando como o grande coração da cidade.”
Confira a íntegra da entrevista no canal Clube do Rolê BH no Youtube: