A partida de Adriana Araújo nos mostra que o tempo não nos pertence
A morte repentina da sambista mineira dita a urgência de parar de adiar o que é essencial em nossas vidas

Lívia Teodoro
Colunista

Foto: Ronald Nascimento/Divulgação
A morte da sambista mineira Adriana Araújo convoca pessoas negras a uma missão inadiável: viver é uma urgência, não temos mais o tempo que nos foi roubado.
Nascida e criada na Pedreira Prado Lopes, um dos berços do samba em Belo Horizonte, Adriana se formou em oficinas de dança afro e teatro dadas na comunidade. Antes da carreira solo, iniciou sua jornada no samba da cidade cantando com o grupo Simplicidade do Samba, tradicional na capital, no conhecido e querido Bar do Cacá.
Sua carreira solo começou em 2020 e, no ano seguinte, veio seu primeiro álbum, “Minha Verdade”. No ano passado, lançou o segundo disco, “3 Jorges”, produzido ao vivo, com regravações em homenagem a três nomes conhecidos do samba: Jorge Aragão, Seu Jorge e Jorge Ben Jor.
Aos 49 anos, Adriana partiu no último dia 2 de março, deixando, além de um enorme buraco no coração dos fãs, a sensação de que a vida realmente é um sopro. Em Belo Horizonte, cidade onde o samba é reconhecido como patrimônio cultural imaterial desde 2024, ela construiu uma carreira linda, emocionante e de representatividade.
No sábado, 1º de março, a assessoria da cantora informou pelas redes sociais que Adriana encontrava-se internada no Hospital Odilon Behrens, em estado gravíssimo, após um episódio de desmaio em casa.
A nota que me deixou com um nó na garganta, dizia:
“Informamos que, na noite de ontem, Adriana Araújo passou mal em sua residência, sofreu um desmaio e foi prontamente levada à UPA, sendo posteriormente transferida para o Hospital Odilon Behrens. Após a realização de exames, foi constatado um aneurisma cerebral, que provocou uma hemorragia de grande extensão. Desde então, Adriana encontra-se internada em coma, entubada e sob cuidados intensivos da equipe médica. Os médicos nos informaram que o quadro é gravíssimo e irreversível. Neste momento, a equipe segue acompanhando a evolução clínica. Apesar do diagnóstico médico, seguimos em oração, acreditando que a resposta final é de Deus. Pedimos respeito, sensibilidade e orações. A família e a equipe agradecem profundamente todo o carinho e apoio que temos recebido. Seguiremos informando pelos canais oficiais.”
No mesmo dia, as redes sociais foram inundadas de manifestações de carinho e orações que pediam pela recuperação de Adriana. Fãs, familiares e amigos se mostraram chocados com a notícia, totalmente repentina. A morte, no entanto, foi anunciada no domingo.
Na nota de falecimento, pudemos ler e concordar: “Adriana foi muito mais do que uma grande voz do samba. Foi abraço largo, sorriso fácil, coração generoso e uma alegria de viver que iluminava todos ao seu redor. O samba sentirá profundamente sua ausência, mas não apenas ele. Sentirão falta todos que um dia receberam seu carinho, sua escuta atenta e seu caloroso abraço.”
O acontecimento repentino, além de provocar uma tristeza profunda, também me move a outra questão: a vida de pessoas negras é uma urgência.
Desde o anúncio da internação de Adriana, suas redes sociais ganharam mais de 20 mil seguidores, que acompanharam as horas de angústia aguardando notícias positivas da cantora, o que infelizmente não se confirmou. Esse fato me fez refletir sobre algo ainda maior: devemos celebrar nossas estrelas em vida.
Adriana Araújo era uma mulher radiante, disponível, carinhosa com os fãs, me incluo, e estava sempre pronta para receber as tietes com um abraço sincero e muito agradecimento por acompanharem o seu trabalho. Quantas dessas 20 mil pessoas, no entanto, não manifestaram esse amor e admiração à própria Adriana enquanto ela estava em casas tradicionais do samba em BH, como o Bar do Cacá e o 3Pretos, pronta para receber esse afeto?

Não há dúvidas de que Adriana foi extremamente amada e ovacionada na cidade. Um incontável número de postagens manifestou, no dia da sua morte e até hoje, todo o apego que Belo Horizonte tinha pela cantora. E isso só mostra a urgência de amar e demonstrar amor ainda em vida para os nossos afetos.
Em entrevista à Itatiaia, o neurologista Guilherme Cunha M. Santos explicou que, geralmente, em casos de desmaio súbito em casa, como foi relatado, a hemorragia cerebral extensa e o coma profundo são uma evolução possível nos casos de ruptura de aneurisma (dilatação anormal na parede de uma artéria no cérebro que forma uma pequena bolha cheia de sangue). Embora cientificamente possível, este definitivamente não era o final que nós desejávamos.
Quando pessoas jovens partem de maneira repentina, sem preparação ou algo que o entendimento humano e leigo possa compreender como lógico, tendemos a questionar o porquê de coisas assim acontecerem. Mas não há justificativa aceitável para a partida de alguém tão importante para a cultura do país e, mais ainda, para os seus entes queridos, seu marido Evaldo e seu filho Daniel.
Ao mesmo tempo, quando nos deparamos com episódios como esse, o sentimento de urgência em viver explode no peito. Quantos shows de Adriana Araújo eu poderia ter ido e não fui? Quantos abraços eu poderia ter dado a mais, e não dei? Quantas mais vezes eu poderia tê-la tietado, e não o fiz? Quantas outras vezes eu poderia ter deixado que ela soubesse do amor, da admiração e da força que transmitia, mas faltou presença?
Não me lembrarei de Adriana Araújo com remorso. Pelo contrário. Tantas vezes quanto pude encontrá-la e abraçá-la, eu o fiz. Mas, ainda assim, essa perda me deixou com esse sentimento gritando: é preciso viver com urgência máxima, aproveitar a vida, abraçar os amigos.
Em nossas casas, sempre haverá uma tarefa doméstica nos esperando. Sujeira esperando para ser varrida, louça esperando para ser lavada, roupas esperando para serem recolhidas. Mas nada é tão urgente no nosso tempo quanto a necessidade de estar presente para aqueles e aquelas que amamos e admiramos.
Façamos dos nossos afetos a maior urgência, o nosso compromisso mais inadiável. Façamos da nossa presença a maior maneira de demonstrar que o outro importa. Afinal, como diria a Rainha Adriana, em seus versos da música “Meu Refrão”:
“Que saudade deixou a versão principal. Hoje eu quero te ver, vamos juntos sambar. Nada mais a dizer: amar!”
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