Xôti Falá
    Início
    Diálogo
    Nossa Cidade
    Planeta
    Cena
    Gente
    Prosa
    Sobre nós
    Home/Nossa Cidade
    virada culturalbelo horizonte

    A Virada Cultural ainda representa a música de Belo Horizonte?

    Em 2026, foram mais de 200 atrações gratuitas distribuídas por 18 espaços do Hipercentro.

    Fersi

    Fersi

    Colunista

    9 min31 de agosto de 2026
    A Virada Cultural ainda representa a música de Belo Horizonte?

    Foto: @kev.santana

    Compartilhar

    A Virada Cultural de Belo Horizonte nasceu de uma ideia aparentemente simples: durante 24 horas, o Hipercentro da cidade se transforma em palco. Ruas, praças, equipamentos públicos e espaços culturais são ocupados por artistas, coletivos e pessoas que, durante um fim de semana, experimentam uma cidade diferente daquela que conhecem no cotidiano.

    Em 2026, foram mais de 200 atrações gratuitas distribuídas por 18 espaços do Hipercentro. A Prefeitura apresentou a 11ª edição como uma experiência que combina cultura, mobilidade, convivência e novos usos do espaço público. É uma proposta bonita e necessária.

    Mas existe uma pergunta que talvez precise ser feita justamente quando a festa termina: que Belo Horizonte estamos vendo quando olhamos para a programação musical da Virada?

    Antes de qualquer crítica, é preciso reconhecer uma coisa: trazer grandes artistas para um evento gratuito é, sim, uma política de acesso à cultura. Ver Alceu Valença, Jorge Aragão, Rashid ou outros nomes de relevância nacional sem precisar pagar um ingresso é uma experiência que dificilmente pode ser diminuída. A Virada tem também esse papel: permitir que pessoas que talvez nunca comprassem um ingresso para um grande show possam estar diante desses artistas.

    Mas uma Virada Cultural não é apenas um grande festival gratuito, ela é, sobretudo, uma oportunidade para a cidade olhar para si mesma. E talvez seja justamente aí que a curadoria mereça ser questionada.

    Quem a cidade escolhe para ouvir?

    A programação de 2026 mostra uma diversidade musical importante. Há funk, rap, samba, forró, congado, artistas independentes e atrações de diferentes regiões do país. No Palco Sesc, por exemplo, o domingo atravessa MC Anjim, MC Laranjinha, uma apresentação de música eletrônica com Felipp Reyz, Funk You e Jorge Aragão. No Palco Festas, aparecem MCs, festas, DJs, os coletivos de música eletrônica Untraxx e Banquete Coletivo, e o Projeto Subúrbio - Favela Pride.

    Portanto, não seria correto dizer que determinados gêneros simplesmente desapareceram.

    A questão é outra.

    Quais cenas da cidade estão sendo representadas e de que maneira?

    A música eletrônica é um bom exemplo.

    Essa pergunta ganha força quando olhamos para as edições anteriores.

    Em 2022, o Masterplano Showcase ocupou o Palco Estação com uma programação dedicada à música eletrônica, enquanto a @bsurda vinha logo depois, levando sua própria pluralidade para o mesmo espaço. Em 2023 e 2024, o Trembase ocupou o palco principal da Praça da Estação, chegando a comandar, em 2024, o Trem da Virada. Na mesma edição, Piranhas Controladoras levou o Baile das Piranhas ao Palco Festas, enquanto a 101Ø também integrou a programação. Em 2025, Masterplano, Baile Room e 101Ø voltaram a aparecer no evento.

    Não estamos falando, portanto, de uma cena que acabou de descobrir a Virada. Estamos falando de coletivos que, em diferentes momentos, foram reconhecidos pelo próprio evento como parte da cultura que Belo Horizonte produz. Em 2026, alguns desses nomes ficaram de fora.

    A Masterplano, por exemplo, afirmou publicamente via seu perfil no X (ex-twitter), que não foi convidada nem aprovada para participar desta edição. O coletivo também questionou a redução do espaço destinado à música eletrônica, mencionando a presença da Untraxx na programação.

    A fala de um coletivo, sozinha, não explica uma curadoria inteira. Mas ela levanta uma questão legítima: O que mudou?

    A cena não está menor. Então por que ela parece menor?

    Belo Horizonte não deixou de produzir música eletrônica.

    Muito pelo contrário.

    A cidade continua tendo festas, DJs, produtores e coletivos que criam novas experiências de ocupação, dança e convivência. Existe um público para isso. Existe uma produção consistente. Existe uma história. Por isso, quando alguns desses nomes deixam de aparecer na Virada, a discussão não deveria ser reduzida a "gostei" ou "não gostei" da programação. É sobre representação.

    Porque uma cena musical não é formada apenas pelos artistas que já alcançaram o grande público. Ela também existe nos coletivos que organizam festas, nos DJs que apresentam artistas novos, nos produtores que criam espaços de encontro e nas comunidades que sustentam esses movimentos antes que eles se tornem reconhecidos.

    Uma festa também pode ser uma instituição cultural.

    E, em Belo Horizonte, algumas delas cumprem esse papel há anos.

    E as festas LGBTQIAPN+?

    Essa discussão fica ainda mais sensível quando olhamos para a presença das festas LGBTQIAPN+. A @bsurda se tornou uma das festas mais festas do estado de MG e um importante espaço de encontro, expressão e celebração da comunidade LGBTQIAPN+. Durante anos, a festa também esteve presente na programação da Virada.

    Em 2026, ela não aparece.

    Assim como não aparecem outros nomes que já fizeram parte da construção da noite belo-horizontina.

    Não é possível afirmar, a partir disso, que exista uma decisão deliberada de silenciar essas festas. Seria uma conclusão maior do que os dados permitem.

    Mas também não acho que devamos ignorar a sensação de apagamento que pode surgir quando determinados grupos e manifestações deixam de ocupar um espaço que historicamente também era deles.

    Talvez o papel do público não seja acusar. Seja perguntar.

    A virada cultural é pública. Ela é gratuita. Ela ocupa a cidade.

    E, em 2026, o transporte público também foi pensado como parte dessa experiência. O Catraca Livre permitiu a gratuidade nos ônibus municipais durante parte do evento, enquanto linhas tiveram operação especial durante a madrugada e o metrô ampliou sua operação.

    Isso é muito mais importante do que parece.

    Porque acesso à cultura não é apenas conseguir entrar em um show sem pagar.

    É conseguir chegar até ele.

    É poder voltar para casa.

    É não precisar escolher entre pagar uma passagem e assistir a uma apresentação.

    É permitir que alguém que mora longe do Centro atravesse a cidade para descobrir um artista que nunca ouviu.

    O transporte público, nesse sentido, funciona como um catalisador cultural.

    Quanto mais democrática é a porta de entrada, maior deveria ser também a diversidade da experiência encontrada do outro lado.

    E é aí que o público também precisa assumir sua responsabilidade.

    Porque talvez seja confortável reclamar quando um artista de que gostamos fica de fora.

    Mais difícil é olhar para uma programação e perguntar por que ela não contempla uma parte da cidade que não nos representa diretamente.

    Por que deveria ter música eletrônica se eu não escuto música eletrônica?

    Por que deveria ter uma festa LGBTQIAPN+ se aquele não é o meu circuito?

    Por que deveria ter funk se eu não gosto de funk?

    Porque cultura pública não existe apenas para confirmar aquilo que já gostamos.

    Ela também existe para nos apresentar aquilo que não conhecemos.

    A curadoria precisa provocar

    Nenhum festival consegue representar uma cidade inteira em um único fim de semana.

    E talvez seja justamente por isso que não devemos esperar que a Virada tenha "um pouco de tudo", como se uma boa programação fosse apenas uma lista de gêneros.

    O trabalho da curadoria é mais complexo.

    É olhar para a cidade.

    Reconhecer os movimentos que estão produzindo cultura.

    Perceber quais artistas estão criando novas linguagens.

    Entender quais coletivos estão formando público.

    E, principalmente, ter coragem para apostar naquilo que ainda não é óbvio.

    Uma grande atração nacional já chega com público, imprensa, repertório conhecido e capacidade de mobilização.

    Um coletivo independente, muitas vezes, chega apenas com sua comunidade.

    Dar espaço a ele é justamente uma das maneiras de fazer a Virada cumprir seu papel de plataforma cultural.

    A curadoria não deveria apenas reproduzir aquilo que já sabemos que funciona.

    Ela deveria também apresentar à cidade aquilo que talvez ainda não conheçamos.

    Mas e o funk?

    É interessante observar como essa discussão também passa pelo funk.

    Nos últimos anos, o gênero ganhou cada vez mais espaço e reconhecimento institucional, ocupando lugares importantes na programação cultural de Belo Horizonte. Em 2026, a presença do funk é novamente expressiva, com MCs, blocos e projetos ligados ao gênero espalhados pela programação.

    Isso é positivo.

    Não porque exista uma quantidade ideal de funk que uma Virada deveria ter, mas porque reconhecer uma manifestação cultural também significa reconhecer as pessoas que a produzem e os públicos que se identificam com ela.

    O ponto não é escolher entre funk e música eletrônica.

    Nem entre rap e samba.

    Nem entre grandes artistas e independentes.

    A pergunta é por que uma cidade tão diversa precisa, tantas vezes, escolher quais partes de si mesma serão vistas.

    Talvez o desafio da curadoria seja justamente não transformar diversidade em disputa por espaço.

    Afinal, de quem é a Virada?

    A pergunta talvez não seja se a Virada Cultural de Belo Horizonte deixou de valorizar a música local.

    A edição de 2026 mostra que há muitos artistas e projetos da cidade na programação.

    A pergunta mais incômoda é outra: que parte da música de Belo Horizonte estamos escolhendo chamar de "local"?

    Porque uma cidade não é representada apenas pelos artistas que chegaram aos grandes palcos.

    Ela também está nas pistas. Nos coletivos. Nas festas. Nos DJs. No funk. No rap.Na música eletrônica. Nas comunidades LGBTQIAPN+. Nos artistas independentes que ainda não chegaram ao grande público.

    A Virada Cultural talvez seja um dos poucos momentos do ano em que todas essas pessoas podem, potencialmente, ocupar o mesmo mapa.

    E é justamente por isso que a curadoria importa tanto.

    Não para agradar todo mundo. Mas para provocar a cidade.

    Para fazer alguém atravessar o Centro para assistir a um artista que nunca viu.

    Para colocar frente a frente públicos que normalmente não dividiriam a mesma pista.

    Para mostrar que cultura também é descobrir aquilo que ainda não sabíamos que queríamos ouvir.

    A Virada não precisa ser um retrato perfeito de Belo Horizonte.

    Mas talvez precise continuar sendo um espelho suficientemente grande para que a cidade consiga se reconhecer nele.

    E, quando algum pedaço desse reflexo desaparece, talvez o papel de quem está do outro lado não seja apenas reclamar da programação.

    É perguntar por quê.

    Compartilhar:

    Tags:

    virada culturalbelo horizonte

    Sobre o autor

    Fersi

    Fersi

    Colunista

    Comunicador, produtor cultural e mercadólogo. Escreve sobre música, arte e comportamento, investigando o que a cultura revela sobre o nosso tempo. Cofundador e apresentador do PodMadres Podcast, projeto que entrevistou os principais nomes da música e do entretenimento de Belo Horizonte e soma mais de 100.000 views no YouTube.

    Xotifala

    Jornalismo independente, acessível e comprometido com a verdade.

    Editorias

    • Diálogo
    • Nossa Cidade
    • Planeta
    • Cena
    • Gente
    • Prosa

    Institucional

    • Sobre nós
    • Política Editorial
    • Política de Privacidade
    • Termos de Uso
    • Teia de Criadores
    Xôtiscutá!

    Tem uma história importante? Queremos escutar você.

    Enviar email

    © 2026 Xotifala. Todos os direitos reservados.

    Feito por Buzz33