Água à venda? Governo avança na privatização da Copasa com apoio de municípios
Projeto de Romeu Zema vai tirar do Estado o papel de cuidar de um dos serviços públicos essenciais: a água.

Jô Andrade
Repórter

Processo de privatização da Copasa avança em Minas Gerais. Foto: Divulgação
Minas Gerais está a poucos passos de concretizar de vez a privatização da água. Chegamos a um ponto da emboscada do neoliberalismo que nem um serviço essencial à população é poupado na lógica da compra e venda.
A Companhia de Saneamento (Copasa), que abastece 75% das cidades mineiras, foi mais uma das vítimas da política de venda do governador Romeu Zema (Novo), que com apoio de deputados da base de seu governo, aprovou com folga a desestatização da Companhia em dezembro de 2025.
Para se entender melhor, atualmente, o governo de Minas é o acionista majoritário, com cerca de 50% das ações, e pretende vender parte ou a maior parte dessa participação para um investidor de fora, que assumiria o controle da companhia. Em ritmo acelerado, a Companhia já até divulgou, na noite de quinta-feira (23) as regras para quem quiser disputar o controle da empresa. A seleção de investidores ainda exige uma carta de fiança de pelo menos R$7 bilhões para quem quiser entrar na disputa.
Segundo a lei que autoriza a desestatização da Companhia, haverá a entrega de 30% dos 50,05% que o Estado detém. Outros 15% serão cedidos para disputa do mercado.
Prova dessa “pressa” em vender o serviço de água e esgoto de Minas Gerais, na tarde desta quinta-feira (23), o governo de Minas e a Associação Mineira de Municípios (AMM) fecharam um acordo com as cidades mineiras para repassar cerca de R$350 milhões aos municípios para que o Estado consiga avançar com a renovação de contratos de concessão de água e esgoto. Essa renovação é uma das etapas mais importantes nesse processo.
Esses valores previstos no acordo são de recursos que a Copasa já repassaria mensalmente aos fundos municipais de saneamento entre setembro de 2026 e dezembro de 2028, mas que poderão ser pagos antes. Ou seja, as prefeituras receberão dinheiro antecipado se aceitarem trocar os contratos atuais pelo novo modelo de concessão, que estende a duração dos acordos até 2073. É um verdadeiro topa-tudo pela venda da água.
E para quem ainda acredita que toda privatização de serviço público pode melhorar a vida do cidadão, vale lembrar que o dinheiro que virá da venda das ações da Copasa não, necessariamente, será revertido para políticas públicas - como moradia, lazer, saúde -, mas sim para pagar a dívida bilionária que Zema não pagou ao Brasil. Minas deve mais de 170 bilhões à União, valor que não foi quitado pelo governador em oito anos de mandato.
A deputada estadual Bella Gonçalves (Psol), organizou uma audiência pública na quarta-feira (15) para debater alguns pontos um tanto quanto suspeitos sobre o processo de desestatização, como por exemplo, a relação do governo de Minas com o banco BTG Pactual e a Aegea, empresa privada que atua no setor de saneamento e responsável por um esquema de pagamento de propina. Para a deputada, a venda da Copasa vem sendo usada como pagamento de “promessas” em ano de eleição.
“Promessas com o dinheiro vêm sendo feitas em um momento pré-eleitoral. Enquanto isso, há pouco cuidado com o nosso saneamento e com a situação do abastecimento de água dos municípios, e pipocam escândalos de corrupção envolvendo a Aegea, uma das empresas cotadas para comprar a Copasa. Para discutir tudo isso, nós vamos fazer uma audiência pública que vai ouvir trabalhadores, usuários e gestores”, disse a deputada, em uma das audiências na Assembleia Legislativa.
Segundo reportagem da Itatiaia, o banco BTG Pactual é sócio da gestora Perfin, que vem comprando ações da Copasa e já tem mais de 15% da empresa, sendo a segunda maior acionista, atrás apenas do Governo de Minas. A participação começou a crescer em 2025, justamente quando avançaram as discussões sobre a venda da Copasa.
A reportagem também aponta que André Esteves, do BTG, se reuniu com Romeu Zema no fim de 2025 para tratar do assunto. Além disso, a Perfin já atuou com a Aegea em outras privatizações e negócios de infraestrutura. Outro ponto citado, com base no UOL, envolve um ex-dirigente da Copasa que fechou acordo de delação em 2025 e admitiu participação em um esquema de propina ligado à Aegea, entre 2010 e 2018. Ele deixou o cargo na Copasa em 2026, após a divulgação do caso.
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