Aqui o trem tá feio! A conta que Romeu Zema deixou pra Minas pagar
Romeu Zema deixa Minas rumo a Brasília. Deixa contas, dívidas e um estado ainda mais tensionado do que encontrou.

Mariana Evaristo
Colunista

Foto: Reprodução/Redes Sociais
Em 2019, Romeu Zema chegou ao governo de Minas Gerais com uma promessa que cabia em uma frase: não sou político, sou gestor. A narrativa colou. Um empresário de fora do sistema que colocaria ordem na casa, resolveria as contas e entregaria um estado eficiente, sem os vícios da política tradicional. Para quem estava cansado da polarização, parecia a resposta pronta.
Muita gente comprou essa ideia.
O problema é que governar um estado nunca foi só sobre eficiência. E, ao longo dos anos, o que se viu foi menos ruptura e mais uma reorganização de prioridades, com consequências bem concretas para quem depende do estado.
O primeiro mandato foi marcado por cortes. Essa parte da promessa foi cumprida. Mas só um lado da balança foi afetado. O funcionalismo público passou quatro anos sem recomposição salarial consistente. Professores acumulando perdas. Forças de segurança em tensão constante. Servidores sem horizonte. Ao mesmo tempo, promessas estruturantes ficaram pelo caminho. Seis hospitais regionais anunciados para Conselheiro Lafaiete, Divinópolis, Juiz de Fora, Sete Lagoas, Teófilo Otoni e Governador Valadares seguem como retrato disso. Obras atrasadas, entregas parciais, cidades esperando o que já deveria estar funcionando há anos.
O Regime de Recuperação Fiscal foi vendido como saída inevitável, mas sempre foi uma escolha política sobre quem pagaria a conta. Zema não apenas defendeu — apostou nesse caminho: congelamento de salários, teto de gastos e privatização de estatais estratégicas como Codemig, Copasa e Cemig. O discurso era de responsabilidade fiscal. Na prática, significava reduzir direitos, pressionar o serviço público e transferir patrimônio do estado. O ajuste veio. O problema estrutural continuou crescendo. Ao fim do primeiro mandato, segundo levantamento do G1, apenas três das quatorze promessas de campanha tinham sido cumpridas.
Três.
A pandemia escancarou mais contradições. Zema começou alinhado a um discurso negacionista que minimizava a crise, em sintonia com Bolsonaro. Criticou medidas de isolamento, relativizou a gestão federal e demorou a ajustar a rota. Quando o sistema de saúde mineiro já estava pressionado, vieram os planos, as restrições, as respostas tardias.
Nesse intervalo, faltou insumo, faltou coordenação e sobrou incerteza.
Defendeu a economia quando devia defender a vida. Quando mudou de ideia, já tinha gente demais enterrada.
Mesmo assim, Zema foi reeleito em 2022. Com forte apoio no interior, respaldo do empresariado mineiro e uma narrativa política muito bem definida, baseada principalmente no antipetismo. Tudo é culpa do Lula. Tudo é culpa do PT. Esse capital político ajudou a sustentar o governo, mesmo com os conflitos acumulados.
Ao longo do segundo mandato, ficou cada vez mais visível um deslocamento. A gestão foi perdendo centralidade enquanto a presença nas redes e no debate nacional crescia. O governo passou a conviver com uma espécie de campanha permanente. As redes viraram espaço prioritário e, nelas, a construção de imagem ganhou mais consistência do que a entrega de políticas públicas.
Cenas que foram da ignorância sobre a obra da renomada escritora mineira Adélia Prado à comparação de pessoas em situação de rua a carros que deveriam ser "guinchados" mostraram como o homem que se dizia "outsider" enxergava os mais vulneráveis.
Para o povo, banana com casca e borra de café. Para ele, aumento salarial de 300%.
As enchentes revelaram o custo mais concreto dessas escolhas. Entre 2023 e 2025, os investimentos em prevenção de desastres caíram de R$ 135 milhões para R$ 6 milhões. Uma redução de 96%. Os efeitos apareceram rápido: mortes, cidades destruídas, famílias desabrigadas. Não foram fenômenos isolados. Foram o resultado acumulado de decisões que alguém tomou com papel e caneta.
Nesse último domingo, Zema deixou o governo para disputar a presidência. A saída acontece em meio a um estado com déficit de R$ 11,3 bilhões, dívida de R$ 187,1 bilhões e uma série de promessas que não se concretizaram. Durante os dois mandatos, a dívida com o governo federal cresceu 75%. Os números ajudam a entender o tamanho do problema que fica e que não vai embora com ele.
Romeu Zema deixa Minas rumo a Brasília. Deixa contas, dívidas e um estado ainda mais tensionado do que encontrou.
Aqui o trem prospera, disseram. Mas, para a grande maioria dos mineiros, a sensação é que ele sequer parou na estação.
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