Há uma pergunta que os artistas tentam responder desde que o mundo é mundo: para que serve a arte? As respostas variam dos pensamentos mais filosóficos aos mais simples, mas a resposta mais aceita no senso comum é que a arte serve para provocar, fazer sentir. E, se ela serve para provocar, o artista pode se posicionar politicamente ou fingir que não tem nada a ver com isso?
Quem nunca se sentiu tocado intimamente por um filme, uma música ou um livro? Acontece que o artista tem acesso a um espaço lúdico para imaginar uma nova realidade. Muitos cantores de funk cantam sobre carros de luxo ainda que não tenham acesso a eles. Esse é o desejo de consumo e a afirmação social de quem foi excluído dele, ou seja, já é político. A vida tem dessas: nem todo roteiro de série na Netflix se faz de fatos concretos, ao mesmo tempo em que ouvimos, através das canetas dos Racionais MC's, a realidade de quem sobreviveu ao inferno todos os dias.
É desse espaço lúdico, real e sensível que se faz a presença e o trabalho de um artista. Existe um universo criativo que é moldado pelas estruturas que o artista tem ou pela falta delas. Se a obra nasce de um lugar social, ela carrega esse lugar, querendo ou não. Partindo desse princípio, não há entidade artística que esteja isenta de posicionamento político. Ainda mais no mundo pós-globalizado, onde tudo é coletivo, tudo impacta o outro.
Uma guerra do outro lado do globo fez subir o preço do petróleo, que fez subir o preço da gasolina, ainda que o Brasil nem tenha sido chamado para a conversa. Nós literalmente pagamos pelas escolhas políticas de outros países. Imagina pelas do nosso?
Artistas precisam declarar seu posicionamento político?
É importante perceber que a neutralidade não existe. Ela é minuciosamente calculada para passar ao público a sensação de controle da própria narrativa. Não se engane: até quem nada fala está se posicionando de alguma forma. Meio óbvio, né?
E o cálculo tem motivo. Em período eleitoral, o silêncio vira estratégia de negócio. Marcas não querem ver seu nome ligado a nenhum lado, e o medo de perder contratos de publicidade pesa na hora de abrir a boca. Tem também o medo de perder público: todo fã é também um eleitor, e dizer em quem se vota pode custar seguidores, ingressos, audiência. Então o artista se protege, fala de amor, de verão, de superação e deixa o resto de lado. Só que proteger a imagem não é não ter posição. É ter uma posição a favor do próprio conforto. E, se tratando de política, tudo é polêmico!
Dizem que Martin Luther King Jr. afirmou que o problema não é o barulho dos maus, mas o silêncio dos bons.
A pergunta que me faço é justamente essa: a quem interessa que assuntos políticos passem por debaixo dos panos, espreitando-se entre discursos não feitos? Quem se beneficia do silêncio dos bons? Quando quem tem alcance se cala, o debate fica nas mãos de quem grita mais alto.
Aliás, como saber quem é, de fato, bom? Essa resposta só o público consegue oferecer, e o que é bom para uns nem sempre é para outros. Somos uma soma de experiências pessoais e coletivas, não dá para medir uma nação inteira com uma régua só. Mas é justamente por isso que o artista precisa falar: o público só consegue julgar quem se mostra. Posicionar-se é dar ao fã a chance de concordar, discordar ou se afastar com informação, e não com suposição. É por essa pluralidade que vamos todos às urnas no dia 4 de outubro.
Todo signo é político
Existe ainda uma razão mais profunda, e ela vem da linguagem. Para a semiótica, tudo o que um artista produz é feito de signos: palavras, imagens, sons, gestos que carregam um sentido. E nenhum signo nasce do nada. Ele é herdado de uma cultura, de uma história, de uma disputa. O filósofo russo Bakhtin dizia que o signo é sempre ideológico, que a linguagem é um campo onde diferentes visões de mundo brigam por sentido.
Agora pense no Brasil. O samba, o funk, o Cinema Novo, a Tropicália: nenhum deles surgiu no vazio. Nasceram da escravidão, da ditadura, da desigualdade e da mistura. Um artista brasileiro já nasce falando uma língua carregada de história, e isso inclui até o silêncio.
Se a linguagem é política e o artista trabalha com linguagem, não existe obra fora da política. A escolha que sobra não é entre se posicionar ou não, mas entre fazer isso com consciência ou sem ela. No domingo, todo mundo vai às urnas. Quem tem microfone também.