Até quando? Minas Gerais é o estado brasileiro que mais mata pessoas trans e travestis
Enquanto essa matéria estava na fila para ser publicada, mais uma mulher trans foi assassinada em Minas Gerais.

Alícia Lanna
Jornalista

Foto: Alícia Lanna
Mais uma mulher trans foi assassinada em Minas Gerais. A vítima mais recente foi Wal, de 45 anos, morta com pelo menos 25 facadas dentro da própria casa, em Contagem, na Região Metropolitana de Belo Horizonte, durante a manhã de sábado (4). O assassino confessou e disse ainda que tentou incendiar o corpo antes de deixar o local.
O caso de Wal está longe de ser isolado. Em junho deste ano, Bianca Narrara de Morais, de 32 anos, foi morta a facadas em um bar de Piracema, no Centro-Oeste mineiro. O crime se soma a uma sequência de assassinatos que evidencia um problema muito grave: a violência contra pessoas trans continua fazendo vítimas enquanto respostas efetivas do poder público seguem insuficientes.
Em março deste ano, Flávia Gonçalves, de 41 anos, foi assassinada a tiros dentro do apartamento onde morava, em Divinópolis. O principal suspeito é um primo.
Também vem à memória o caso de Alice Martins Alves, de 33 anos, espancada até a morte na região da Savassi, em Belo Horizonte, em novembro do ano passado.
Um mês antes, em outubro, Christina Maciel Oliveira, de 45 anos, foi espancada até a morte pelo companheiro na região de Venda Nova, em Belo Horizonte. A agressão aconteceu durante o dia e foi registrada por câmeras de segurança, que mostraram a vítima sendo atacada em via pública.
Embora tenham ocorrido em cidades diferentes e em contextos distintos, esses crimes revelam um padrão que se repete: violência extrema, brutalidade, grande exposição pública e uma sensação persistente de impunidade.
Segundo o dossiê da Associação Nacional de Travestis e Transexuais (Antra), Minas Gerais foi o estado com mais assassinatos de pessoas trans e travestis em 2025. O cenário mineiro acompanha uma realidade nacional alarmante: o Brasil permanece, pelo 17º ano consecutivo, como o país que mais mata pessoas trans no mundo. Foram registrados 80 assassinatos, dos quais 77 tiveram como vítimas travestis e mulheres trans.
A Antra alerta, porém, que esses números provavelmente são maiores, já que o país não possui um sistema oficial de monitoramento e muitos casos sequer são registrados como crimes contra pessoas trans. Mas a violência não começa no momento do assassinato. Ela se manifesta muito antes, quando pessoas trans e travestis são expulsas de casa ainda na adolescência, abandonam a escola por causa da discriminação, encontram enormes dificuldades para acessar o mercado de trabalho formal e convivem diariamente com a exclusão social. Não por acaso, a expectativa de vida da população trans no Brasil continua em torno de apenas 35 anos, menos da metade da média nacional.
A exclusão também aparece no acesso à saúde. Mesmo com a Política Nacional de Saúde Integral LGBTQIA+ e o Processo Transexualizador ofertado pelo SUS, pessoas trans ainda enfrentam dificuldades para conseguir atendimento especializado, terapias hormonais e acompanhamento psicológico. Além da escassez de serviços, muitas relatam desrespeito ao nome social, preconceito e despreparo de profissionais de saúde. O resultado é que grande parte evita procurar atendimento médico por medo de sofrer discriminação, agravando problemas físicos e de saúde mental.
Se pessoas trans continuam sendo assassinadas em plena luz do dia, em espaços públicos e até dentro de casa, as políticas de proteção não têm sido efetivas. O enfrentamento à transfobia exige mais do que ações pontuais: demanda investimento contínuo, políticas públicas estruturadas e prioridade por parte do Estado. Minas Gerais ainda não tem um orçamento específico destinado à proteção da população LGBTQIA+, o que limita a capacidade de prevenção e enfrentamento da violência.
O debate não se restringe aos homicídios. A transfobia está na raiz dessa violência e se manifesta muito antes: na exclusão escolar, na dificuldade de acesso ao mercado de trabalho, na discriminação nos serviços de saúde, na rejeição familiar e na falta de oportunidades. Enquanto essas desigualdades persistirem e as políticas públicas permanecerem insuficientes, novas vítimas virarão estatística.
Diante da sucessão de assassinatos de pessoas trans e travestis, a pergunta que fica é: quando o combate à transfobia deixará de ocupar um espaço secundário na agenda pública?
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