Bets pesam no bolso dos mineiros: 1 em cada 5 apostadores já deixou de consumir para jogar
Levantamento aponta impacto das apostas no consumo e no endividamento; metade dos apostadores afirma já ter tido prejuízo financeiro

Ramon Chaia
Jornalista

(Foto: Reprodução)
Para parte dos mineiros, apostar já significa abrir mão de outros gastos do dia a dia. Pesquisa da Federação das Câmaras de Dirigentes Lojistas de Minas Gerais (FCDL-MG) mostra que 21,4% dos entrevistados que apostam ou já apostaram em bets deixaram de consumir produtos ou serviços, como alimentação, lazer e compras, para direcionar dinheiro às plataformas.
O levantamento também mostra outro impacto no bolso: 19% afirmaram já ter se endividado ou atrasado contas em razão das apostas.
Entre os consumidores ouvidos pela pesquisa, 16,7% disseram apostar ou já ter apostado. Nesse grupo, o gasto médio informado é de R$ 290,83 por mês. Metade afirma ter tido prejuízo financeiro, enquanto 28,6% dizem ter obtido lucro e 21,4% avaliam que o resultado foi indiferente.
A frequência também chama atenção. Entre aqueles que têm ou já tiveram contato com as plataformas, 21,4% disseram apostar ou ter apostado diariamente e 35,7%, mensalmente.
A dificuldade de interromper as apostas, mesmo diante de sucessivas perdas, também passa pelo funcionamento do cérebro. Segundo o neurologista Pedro Henrique Ferraz, a dinâmica das bets reúne características capazes de favorecer a repetição desse comportamento.
“A cada aposta, o cérebro não responde apenas à possibilidade de ganhar, mas também à incerteza sobre o resultado. Essa combinação entre expectativa e imprevisibilidade envolve os circuitos cerebrais relacionados à recompensa e à motivação”, explica.
Esse mecanismo faz com que o cérebro aprenda não apenas com o prêmio recebido, mas também com a expectativa de recebê-lo. Com a repetição, elementos associados às apostas, como a plataforma, a tela do celular e os estímulos que antecedem o resultado, podem ganhar relevância e aumentar a motivação para uma nova tentativa.
Nas bets, segundo Ferraz, esse ciclo pode ser potencializado pela facilidade de acesso. As plataformas ficam disponíveis permanentemente no celular e permitem que novas apostas sejam feitas em sequência. O comportamento pode, então, continuar mesmo quando as perdas começam a se acumular.
“Quando apostar passa a ser repetitivo e continuamente associado à expectativa de recompensa, o dinheiro deixa de ser apenas dinheiro: passa a alimentar um ciclo comportamental. É nesse ponto que podem surgir repercussões sobre outras escolhas, inclusive sobre os hábitos de consumo e o orçamento familiar”, afirma o neurologista.
O crescimento das apostas e os impactos financeiros e sociais provocados pela atividade também chegaram ao Congresso Nacional. Atualmente, há propostas em tramitação tanto para ampliar as restrições ao setor quanto para proibir completamente a exploração das bets no país.
No Senado, o PL 4.977/2026, apresentado em agosto, propõe proibir a exploração, operação, oferta, publicidade, patrocínio e intermediação de apostas, inclusive as de quota fixa, em meios físicos ou virtuais. Até o momento, porém, a proposta ainda aguarda avanço na tramitação.
Na Câmara dos Deputados também há projetos que defendem o fim das apostas. O PL 2.972/2026, por exemplo, prevê a proibição da exploração, oferta, publicidade e processamento de transações relacionadas às bets e propõe revogar a legislação que regulamentou o setor.
Enquanto as propostas de proibição total ainda tramitam, o Senado avançou neste mês em outra frente. A Comissão de Ciência e Tecnologia aprovou, em 2 de setembro, um projeto que amplia as restrições à publicidade e ao patrocínio das empresas de apostas. O texto proíbe, entre outros pontos, patrocínios de clubes, competições esportivas, eventos culturais, shows e influenciadores e recebeu pedido de urgência para análise no plenário.
Apesar das propostas em discussão, as bets continuam legalizadas e regulamentadas no Brasil.
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