Cadê a árvore que estava aqui? Planejamento urbano ignora periferia de BH
Dados do Arvorômetro de Belo Horizonte mostram que o direito ao clima ameno virou privilégio de classe na capital mineira.

Jô Andrade
Repórter

Como nas grandes capitais do Brasil, Belo Horizonte é uma das cidades que privilegia a população de classe média alta até na urbanização. Enquanto moradores do bairro Castelo e da região da Pampulha desfrutam de corredores verdes que amenizam as ondas de calor, a realidade nos bairros periféricos e aglomerados é de falta de arborização.
Dados oficiais do Arvorômetro mostram o tamanho do abismo ambiental: regiões como Barreiro e Venda Nova possuem índices de arborização drasticamente inferiores a bairros como o Lourdes ou Castelo, regiões de classe média alta da cidade. Em BH, a sombra virou privilégio de classe, deixando a população mais pobre exposta a ilhas de calor que elevam a temperatura.
Será que essa falta de planejamento é apenas um descuido paisagístico, ou uma falha de política pública que ignora o direito ao bem-estar e à saúde de quem vive nas bordas da cidade.

Uma pesquisa publicada na revista Landscape and Urban Planning, em 2024, com participação da UEMG e UFMG, investigou a relação entre a paisagem das ruas e a biodiversidade em Belo Horizonte.
Depois de analisar mais de 250 mil árvores, pesquisadores viram que onde a renda é menor, o verde também é menor. É o tipo de desigualdade que acontece no mundo todo: bairros de classe média alta costumam ser mais arborizados do que os bairros pobres.
Segundo o Arvorômetro, os bairros mais arborizados são: Castelo (20.332), Engenho Nogueira (15.005), Paquetá (8.516), Palmares (6.674) e Ouro Preto (5.721). Enquanto os menos arborizados são Vila Jardim Leblon, Vila Copacabana, Universitário, Penha e Vila Nossa Senhora Aparecida, todas com apenas uma árvore plantada, cada. Os números apontam os plantios realizados pela prefeitura de Belo Horizonte.

O mapa acima mostra a quantidade de árvores plantadas por região, que são:
Lembra de todas aquelas árvores que foram derrubadas em fevereiro de 2024 no entorno do Mineirão? Elas fizeram falta durante o desfile dos blocos na Avenida Abrahão Caram, inclusive de um dos mais esperados do ano, o Marinada, da cantora mineira Marina Sena.
Nessa época, o Conselho Municipal do Meio Ambiente (Comam) aprovou a supressão de 63 árvores para a realização de uma etapa do evento automobilístico Stock Car.
E apesar da região da Pampulha estar entre as mais arborizadas, no carnaval deste ano vimos foliões e tantos outros trabalhadores reclamando - com razão - do calor excessivo e falta de lugares para se esconder do sol justamente nos espaços onde as árvores foram suprimidas.
Outras mudas chegaram a ser plantadas em outras áreas da região, como forma de compensação da supressão, mas vale lembrar que uma árvore pode levar mais de 10 anos para chegar à vida adulta.

O problema da falta de arborização também atingiu um dos mais importantes blocos de resistência lésbica, bissexual e transexual. A Truck do Desejo saiu mais uma vez na Avenida Pastor Anselmo Silvestre, na região nordeste de BH.
A avenida, que faz parte da Via 710, foi construída e projetada para o ano da copa de 2014, mas as obras só foram completamente finalizadas em 2023. Apesar de sua boa estrutura e poucos anos de existência, a via não conta com árvores no trecho por onde os blocos passam.
"A gente já tinha feito o cortejo nessa avenida, sabíamos que não tinha árvores, é uma tristeza. Como alguém faz uma avenida e não pensa em arborização? Uma avenida jovem. É de uma burrice humana tão grande… mas eu acho que a gente também tem o poder de transformar o que não é bom, em bom. O sol se tornou nosso protagonista, vimos luzes das peles as pessoas, brilhando”, disse a artista e produtora da Truck do Desejo, Fernanda Polse.
No meio do sufoco, as meninas precisam criar formas de driblar a falta de sombra fresca.
"O plano B é jogar água na nuca das pessoas da ala de dança e bateria para refrescar, liberar o caminhão-pipa antes. Esse ano tivemos dois caminhões, ano que vem pensamos em 3. Muito sol realmente, quando passa debaixo do viaduto é um alívio, o que pra mim é ultrajante pensar que ganhamos sombra de concreto”, afirmou.
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