Carnaval em disputa: blocos de BH denunciam apropriação
Manifesto com 66 blocos critica o Governo de Minas, cobra transparência nos recursos públicos e defende um Carnaval político, popular e democrático.

Jô Andrade
Repórter

Foto: Marcos Gomes
O Carnaval de Belo Horizonte, que deve atrair mais de 6 milhões de pessoas em 2026, é conhecido por reunir diferentes lutas sociais, seja de classe, gênero, em prol da comunidade LGBT+ e, mais recentemente, a mobilização contra um certo “ladrão de carnaval”. Em janeiro de 2024, mês que antecedeu a folia, 66 blocos da capital assinaram um manifesto contra ações consideradas arbitrárias do Governo de Minas, especialmente do governador Romeu Zema.
Entre os principais pontos, os blocos defenderam que os recursos públicos destinados ao Carnaval fossem distribuídos de forma transparente e democrática, respeitando a diversidade cultural da cidade. O movimento também chamou a atenção do Ministério Público para apuração de possíveis irregularidades no uso de verbas da Lei de Incentivo à Cultura e de empresas estatais.
O texto ainda defendia a criação de canais efetivos de diálogo entre o poder público e a sociedade civil para definir os rumos da festa, além de cobrar que os setores privados que mais lucram com o Carnaval invistam diretamente nos blocos e na infraestrutura da cidade.
Outro ponto duramente criticado pelos foliões foi o uso da força policial durante a folia, tema que também integrou o manifesto. Na divulgação do manifesto, houve o pedido para que a Defensoria Pública e o Ministério Público atuassem de forma preventiva, a fim de evitar abusos e arbitrariedades policiais ao longo do período carnavalesco.
“Sem susto, assistimos desde o ano passado a um movimento de mão dupla ligado ao financiamento do Carnaval da capital: de um lado, a negativa da iniciativa privada em investir recursos diretos na festa; de outro, o governo estadual, inicialmente contrário à sua realização, tentando capturar a imagem de grande fomentador. O investimento estadual no Carnaval de BH é uma demanda histórica negligenciada pelo Governo Zema, ainda que a propaganda oficial tente divulgar o contrário. Essa negligência não impediu, no entanto, que o Carnaval surja mais um ano com força. Nesse contexto, o governo estadual vem atuando para alimentar disputas eleitorais a partir da festa, adotando uma série de condutas questionáveis”, diz um trecho do manifesto divulgado em 2024.

Entre 2023 e 2025, o Governo de Minas tentou emplacar a marca “Carnaval de Minas”, na pretensão de se promover em cima da festa que resistiu e cresceu em Belo Horizonte ao longo dos últimos 16 anos. As campanhas da gestão Romeu Zema para divulgar o tal Carnaval de Minas, com slogans que vendem a folia como produto turístico, seguro e “5 estrelas”, passaram a ser alvo de críticas por priorizarem uma lógica de compra e venda, o que passa bem longe do caráter popular, comunitário e democrático do Carnaval belo-horizontino.
Para blocos e agentes culturais, ao investir pesado nessa linha institucional, o governo estadual buscou se apropriar da festa sem estabelecer um diálogo consistente com quem a constrói diariamente nas ruas. Não demorou para que os principais e mais numerosos blocos da cidade se mobilizassem contra a descaracterização do Carnaval.
A artista e idealizadora do Bloco da Cíclica, Nágela Rocha, é uma das carnavalescas que abraçaram o Carnaval de Belo Horizonte desde seus primeiros anos, por volta de 2012. Para ela, a tentativa de afastar o caráter político da festa das ruas reflete, justamente, um interesse político do próprio poder público.
Carnaval é multidão. A multidão movimenta o comércio, o comércio movimenta dinheiro, o dinheiro gera visibilidade, e a visibilidade rende votos. É nessa engrenagem que se tenta despolitizar o Carnaval, como se festa e política fossem dimensões completamente dissociadas.
“Esse governo quer ganhar às custas de um Carnaval que já existe, que caminhou sozinho, cresceu e se consolidou de forma independente. Zema já tentou apoiar a folia querendo transformar isso em vitrine para o governo dele, sendo que sempre foi contrário ao Carnaval”, afirmou Nágela.
Em 2020, por exemplo, diversos blocos de rua enfrentaram dificuldades para levar seus trios elétricos às ruas. Alguns foram multados pela Polícia Militar, outros tiveram seus desfiles reprovados pelo Corpo de Bombeiros, enquanto muitos foram prejudicados pela falta de estrutura de som e até pela ausência de banheiros públicos.
Segundo a artista, essas ações do poder público funcionaram como uma forma de retaliação ao Carnaval. “O poder público pensa em eleição, mas quem é do Carnaval de verdade sabe que não é assim”, disse.
“Meus amigos de fora acompanham o movimento e dizem que a prefeitura deveria investir mais. Mas o que oferecem é apenas o mínimo: serviços públicos que já existem, como segurança, limpeza urbana e transporte. No fim das contas, é uma disputa de egos”, completou.
Tags: