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    Carta de uma ciclista ao prefeito Álvaro Damião

    Quando a gestão não consegue entregar política pública, entrega espetáculo: a ciclovia na Afonso Pena virou pode expiatório para angariar aprovação.

    Malu Almeida

    Malu Almeida

    Colunista

    6 min17 de junho de 2026
    Carta de uma ciclista ao prefeito Álvaro Damião

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    Prezado Senhor Prefeito em exercício Álvaro Damião,

    Não deve estar fácil para você. Greve na educação, cortes na saúde, atraso nas obras do Anel Rodoviário, hostilidade da inauguração do viaduto da Cristiano Machado, onda de pedidos de demissão na Fazenda, revolta popular na Estação São Gabriel, incêndio em garagem de ônibus e um clima de desaprovação unânime sobre sua gestão. Na Câmara Municipal, mesmo com a maioria das cadeiras compondo a base, não passa um dia sem que o senhor tenha que enfrentar alguma crítica contundente nas redes sociais, com as fontes variando de lado.

    Nem Jesus Cristo conseguiu agradar a todos, mas sua gestão na Prefeitura de Belo Horizonte tem mostrado que o contrário pode, sim, ser verdade. Diante de tal cenário e sendo um animal político da cepa midiática, a estratégia mais garantida de sucesso foi gerar um novo fato político capaz de produzir algum saldo positivo de popularidade. E nada melhor do que demolir a ciclovia da Afonso Pena.

    A estratégia foi muito bem amarrada, devo admitir. Gravar um vídeo, em pleno sábado e no dia de estreia da Seleção na Copa do Mundo. Levar o trator, o social media e nada mais. Tão simples que chega a ser minimalista.

    A ciclovia enfrenta resistência desde antes de nascer. Ela é resultado de anos de luta e militância de cicloativistas, que trabalharam em parceria com servidores e técnicos comprometidos com a melhora da mobilidade urbana em Belo Horizonte, como a saudosa Eveline Trevisan. Desde 2014, ela atuou como elo entre o cicloativismo e a administração pública na criação do PlanBici, que compõe o PlanMob e o Plano Diretor. Este último foi aprovado em 2019 após extenso debate - uma votação da qual o senhor participou e votou a favor. Lembra?

    O senhor acompanhou a história toda. Viu, inclusive, seu colega de chapa, Fuad Noman, enfrentar uma luta de motivação eleitoreira envolvendo a ciclovia. A obra que era pra ser a joia na coroa de Fuad, virou objeto de fake news e disputa judicial em plena campanha.

    Ao que tudo indica, o senhor estava tomando nota. Ao demolir a “polêmica” ciclovia da Afonso Pena, o senhor adotou o bode expiatório perfeito. Desfazer uma obra que já foi paga pelo contribuinte, de repente, se torna aceitável (e digno de aplauso para alguns) num contexto de colapso do transporte público, lentidão no trânsito e nas principais obras da cidade.

    Para as pessoas que questionavam a presença da ciclovia no alto da Afonso Pena, fica a sensação de que o poder executivo, sensível ao clamor popular, deixou de gastar com uma intervenção vista por ela como inútil. Só que as denúncias publicadas pelo MG1 e pelo jornal O Tempo na semana passada mostram justamente o contrário.

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    A ciclovia era parte do contrato DJ-075/23, que tinha como objetivo uma requalificação total de quase 5km da avenida. As obras de requalificação da Avenida Afonso Pena foram orçadas e licitadas em mais de R$24 milhões. Com os aditivos, chegou a bater R$27 milhões, conforme mostra reportagem do G1 em julho do ano passado. Esse valor seria dedicado a uma transformação da principal avenida da zona Centro-Sul em um corredor multimodal, ligando a Praça da Bandeira à Rodoviária com faixa exclusiva de ônibus, ciclovia e acessibilidade nas calçadas. Quem transita pela Afonso Pena tem dificuldade de perceber melhorias que correspondam a essa cifra de investimento.

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    Segundo o portal de Transparência da Secretaria de Obras e Infraestrutura, a Prefeitura já repassou mais de R$23 milhões para a empreiteira contratada. Conforme apurado pelo jornal O Tempo, a RFJ Construtora é investigada por indícios de que ela seja apenas uma “fachada” da Comim Construtora, proibida judicialmente de transacionar com o erário por cinco anos após uma condenação pela comarca de Pouso Alegre e investigações em Juiz de Fora, envolvendo um esquema de fraudes que superam R$111 milhões.

    Produzir uma cortina de fumaça grossa o bastante para tapar essa montanha de irregularidades é um desafio e tanto, mas fica fácil botando o alvo nas costas de alguém que já é hostilizado só de estar na rua. Quem pedala em BH sente na pele o que as estatísticas do Data SUS mostram: somos a quarta cidade entre as capitais com maior número de mortes de ciclistas no trânsito. Não é exagero dizer que o ódio ao ciclista está em alta.

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    Quando o senhor demole uma ciclovia que conecta duas grandes regionais na cidade, você está colocando em risco a vida de pessoas que optam por um meio de transporte mais barato, saudável e limpo. Ao prometer aos ciclistas que vai aumentar o número de ciclovias, mas não em avenidas como “Afonso Pena, Amazonas, Antônio Carlos, Cristiano Machado”, o senhor desconsidera os 411km de ciclovia previstos no Plan Mob e nega segurança e proteção nos espaços onde nós mais precisaríamos.

    Depois de bons 10 anos usando a bicicleta como meio de transporte preferencial, o que eu sinto hoje é que o motorista que me fecha na rua, me derruba ou grita comigo para eu ir para calçada recebeu uma carta branca oficial das mãos do senhor. Não temos lugar nas ruas de Belo Horizonte.

    Minha mãe me pede todos os dias para que eu pare de pedalar, mas até ela reconhece a desonestidade que há em demolir uma ciclovia. A única coisa que poderia garantir a segurança de sua filha nas ruas está sendo usada para ganhar uns pontinhos de aprovação.

    Não vai ser por isso que vou parar de pedalar, no entanto. A bicicleta mudou minha vida e, de alguma forma, sinto obrigação de defendê-la. Ainda mais quando tem um escândalo de R$23 milhões envolvido.

    Na próxima semana, a campanha Tá Pago? Executa! vai entregar uma denúncia formal ao Tribunal de Contas do Estado de Minas Gerais para o senhor ter a chance de explicar o que te levou a gastar R$23 milhões por uns centavos de aprovação.

    Qualquer pessoa pode assinar a petição que será entregue ao TCE-MG. Não precisa nem ser ciclista. Basta querer uma BH mais segura e responsável com o orçamento público.

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    Sobre o autor

    Malu Almeida

    Malu Almeida

    Colunista

    Mestre em Comunicação Social pela UFMG e mobilizadora na Minha BH, trabalha com campanhas de ativismo cidadão voltadas à defesa da democracia, da justiça climática, racial e de gênero. Radicada em Belo Horizonte, tem na bicicleta, no carnaval e na vida urbana seus principais territórios de atuação.

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