Caso Viih Tube e Eliezer: Trabalhador vira conteúdo na era do engajamento
Casos recentes mostram como a exposição de funcionários em situações constrangedoras continua sendo vista como entretenimento.

Jô Andrade
Repórter
Empregados foram gravados procurando moedas em vaso sanitário, lixeira e lago artificial. Foto: Reprodução/redes sociais
O caso recente envolvendo o casal de empresários e influenciadores Viih Tube e Eliezer fez muita gente questionar como os empregadores estão confortáveis para expor funcionários para seus milhões de seguidores, e como isso rende views e audiência.
O casal achou de bom tom criar um reality show com seus 11 empregados, chamado “As Patroas”. O primeiro episódio foi ao ar no início da semana, mas logo foi arquivado após a baita repercussão negativa nas redes sociais.
Basicamente, os empregados - babás, auxiliar geral e motorista - faziam “desafios” para somar pontos, e ao longo da competição, os vencedores recebiam prêmios em dinheiro.
A primeira prova de estreia era a de encontrar moedas espalhadas pela casa. Até aí “tudo bem”, mas as moedas não estavam em qualquer lugar, elas estavam no lago artificial da casa, na cozinha e até no vaso sanitário e lixo do banheiro. Os desafios do reality valiam R$20 mil. Quem encontrou as moedas no sanitário foi o motorista do casal, Anderson.
“Misericórdia, né? Dentro do vaso? Pelo amor de Deus, não é possível”, disse o trabalhador no vídeo.
Repare que esse tipo de desafio que extrapola o falso entretenimento não aplicado aos sócios de Eliezer e Viih Tube, tampouco com fornecedores de sua marca de produtos infantis, muito menos com seus contratantes da casa de aposta Blaze, a qual Viih Tube teve contrato por um tempo. O desafio é para o trabalhador “baixo clero”, aqueles que estão na base na pirâmide, os que dependem do trabalho para levar sustento para suas casas.
Em 2025, a Justiça do Trabalho recebeu 142.828 novos processos de assédio moral no trabalho. O aumento foi de 22% em relação ao ano anterior. Pela legislação brasileira, tudo que exige cumprimento de tarefas desnecessárias ou excessivas, ou envolve discriminação, humilhação, constrangimento é assédio moral.
Segundo levantamento do Tribunal Regional do Trabalho da 3ª Região (TRT-3),Minas Gerais ocupa a quinta posição no ranking nacional de denúncias por assédio moral, registrando mais de 26 mil casos entre 2019 e 2023.
Influenciadores nada mais são que empresários, que lucram do trabalho e do tempo de outras pessoas. Em 2024, outro criador de conteúdo foi criticado por filmar funcionárias limpando um coqueiro enquanto tentavam se equilibrar em uma laje, sem nenhum tipo de equipamento de proteção.
Carlinhos Maia gravou as trabalhadoras, que seguravam uma na mão da outra, enquanto dizia “Isso, não quero ver ninguém parado, não. Em seguida, ele apagou o conteúdo e justificou que tudo não passava de uma brincadeira com as funcionárias, e que o objetivo era apenas o de levar entretimento, e não expor as trabalhadoras.
Assim como Carlinhos Maia, a criadora Viih Tube também se posicionou e afirmou que tudo não passava de uma forma de chamar atenção para o fim da escala 6x1. Segundo a criadora, não houve qualquer intenção de colocar seus funcionários em situação humilhante, e que os próprios concordaram em participar do reality. A repercussão fez o Ministério Público do Trabalho (MPT) de São Paulo apurar o caso.
"A nossa intenção era chamar atenção para falar sobre a escala 6x1, que nós somos contra. Porém, eu não imaginava que tomaria a proporção que tomou", afirmou a influenciadora.
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