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    Chuvas e áreas de risco: quem tem direito à vida durante o temporal?

    Entre a negligência do Estado e o racismo ambiental, Minas Gerais amarga perdas que poderiam ser evitadas com políticas de habitação e infraestrutura.

    Jô Andrade

    Jô Andrade

    Repórter

    5 min6 de março de 2026
    Chuvas e áreas de risco: quem tem direito à vida durante o temporal?

    Foto: Tomaz Silva/Agência Brasil

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    Estamos vendo outra vez diversas cidades de Minas Gerais amargando perdas após deslizamentos, alagamentos e enxurradas. No pior dos casos, a perda é da vida. Quantas vezes você já ouviu que as vítimas atingidas moravam em “área de risco”? E o que garante que no próximo temporal a vítima não seja você?

    Para entender melhor, áreas de risco são regiões que podem sofrer com mais intensidade qualquer efeito de ação climática, como acontece em casos de temporais. É comum ver casas erguidas em cima de barrancos, encostas ou em beiras de rios e córregos, no caminho das águas. A maioria dessas casas pertencem a pessoas de baixa renda.

    Quando falamos de pessoas que vivem em área de risco, o risco em questão é o de morte. O poder público sabe, e assume esse risco deixando essas pessoas lá, portanto, não existe desastre natural nesses casos, como vimos em Ubá e Juiz de Fora.

    Para se ter uma ideia, Minas tem três cidades entre as 10 do Brasil com maior número de pessoas morando em áreas de risco, e o estado tem conhecimento disso. Os números são do Centro Nacional de Monitoramento e Alertas de Desastres Naturais (Cemaden).

    • Salvador (BA) - 1.217.527
    • São Paulo (SP) - 674.329
    • Rio de Janeiro (RJ) - 444.893
    • Belo Horizonte (MG) - 389.218
    • Recife (PE) - 206.761
    • Jaboatão dos Guararapes (PE) - 188.026
    • Ribeirão das Neves (MG) - 179.314
    • Serra (ES) - 132.433
    • Juiz de Fora (MG) - 128.946
    • São Bernardo do Campo (SP) - 127.648
    Foto: Tânia Rêgo/Agência Brasil
    Foto: Tânia Rêgo/Agência Brasil

    Assumir o risco e sacrificar vidas

    A chuva nada mais é que água caindo do céu, e diferentemente do que a imprensa tradicional ainda insiste em informar, a chuva não causa estragos ou mortes. Vidas foram perdidas, moradores perderam pertences e casas desabaram não por ação da chuva, mas por negligência do estado.

    Se o poder público tem consciência de que existem áreas que não são próprias para moradia, o que mais falta acontecer para que essas pessoas sejam realocadas antes de uma tragédia? Quando se acostuma com uma realidade injusta, é comum que achemos que isso faz parte de eventos que estão fora do controle, mas não é bem por aí.

    O pesquisador e geógrafo Lucas Oliver explicou que toda tecnologia que já existe, e que é usada para prever o volume das chuvas, é uma tentativa de alertar sobre o que está por vir, mas que essa ferramenta por si só não é capaz de fazer o papel do poder público de proteger e resguardar essas famílias.

    "A gente assume de cara que tem pessoas que podem estar em áreas de risco, essa área de risco é o que? Não é risco de chuva, é risco de morte. São pessoas expostas a risco de morrer em uma chuva. Não tem modelagem de previsão que traga uma certeza de uma chuva tão grande como foi, mas ela [chuva] era possível”, afirmou.

    Ainda segundo Lucas, os efeitos do clima podem atingir diferentes classes sociais, mas moradia precária e territórios inadequados são destinados às pessoas pobres.

    "É esse racismo ambiental sinistro que mostra que a chuva não é igual para todo mundo. Em Juiz de Fora não era só classe pobre atingida, mas a maioria dessas pessoas estavam onde não deveriam estar. É louco pensar que quando se colocam pessoas ali e deixam, é como se falassem que essas pessoas podem morrer, que são descartáveis. Depois que morre, não adianta falar em tragédia. Deveríamos pensar em construção de moradias dignas”, disse.

    Política de infraestrutura em último plano

    Enquanto os sobreviventes tentam juntar o que sobrou da água e da lama, o governador Romeu Zema (NOVO) tenta emplacar o slogan da “solidariedade mineira”, que é, basicamente, um pedido de doações de civis para as vítimas da negligência do estado.

    Na teoria, o governo de Minas tem orgulho do povo que se ajuda em momentos difíceis, na prática, o discurso perverso tenta esconder e tirar a responsabilidade de uma sequência de erros e falhas do próprio governo.

    Nesta semana, a reportagem do jornal O Globo revelou uma queda de 96% no dinheiro que iria para infraestrutura no estado, de R$135 para R$6 milhões. Pelas redes sociais, Zema negou a informação, mesmo que ela tenha sido extraída do próprio Portal da Transparência. O governador também não apresentou dados que comprovem a própria afirmação.

    Até o momento, 68 pessoas morreram durante o período chuvoso em Minas Gerais - que começou em outubro de 2025. Sete mil pessoas estão fora de suas casas devido ao risco, e outros mil moradores estão desabrigados.

    "E isso vai continuar eternamente, porque o ser humano interfere no clima. É um campo minado, várias pessoas estão nele e qualquer chuva pode causar tragédia. Meteorologistas e Defesa Civil conseguem no máximo avisar que as pessoas estão em perigo, mas a primeira coisa a pensar é: selecionar pessoas para área de risco, é eticamente válido? As pessoas moram ali não porque querem, mas é o que conseguem pagar em moradia".
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    Jô Andrade

    Jô Andrade

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    Jornalista especialista em textos pela UFMG, com passagens pelos veículos g1, BHAZ e Sou BH. Experiência em jornalismo digital, reportagem e edição de conteúdo.

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