'Coleira invisível': a política por trás do discurso de proteção animal
O uso da causa animal como fachada para apoiar projetos que ameaçam vidas.

Mariana Evaristo
Colunista

Vereador paulista de BH, Lucas Ganem, é um dos nomes da "bancada pet". Foto: Reprodução/Redes Sociais
No vídeo, um homem branco, voz firme, olhos marejados, trilha sonora triste. Nos braços, um animal de estimação em situação de maus-tratos. O roteiro é conhecido. O discurso também: eu sou defensor dos animais.
Esse é o rosto da nova bancada pet brasileira. E a frequência com que ele aparece já não permite chamar de coincidência.
Delegado Bruno Lima. Delegado Matheus Laiola. Felipe Becari. Agentes públicos transformados em influenciadores digitais pela causa animal. Carreiras construídas sobre vídeos de resgates emocionantes e confrontos filmados com supostos agressores. A estética do herói. O salvador. O homem que protege quem não pode se defender.
Em Belo Horizonte, parte desse roteiro se repetiu com detalhes que revelam um método.
Lucas Ganem foi eleito vereador em 2024 com mais de dez mil votos sob essa mesma narrativa. Só tinha um detalhe: ele nunca morou na cidade.
Segundo investigação da Polícia Federal, o endereço informado durante as eleições era falso e ele só se mudou para BH depois de eleito. Agora foi indiciado e responde por falsidade ideológica, além de estar em vias de ser cassado na Câmara Municipal. Ganem não é a exceção.
Nos últimos anos, a pauta animal deixou de ser campo de ativismo para virar estratégia eleitoral sistemática. Em 2024, foram 494 candidaturas com nomes de urna ligados à causa: "protetor", "pet", "defensor".
Quase 200 na direita. Outros 200 no centro. Apenas 92 na esquerda.
Segundo o painel Farol Verde do Instituto Democracia e Sustentabilidade, PP, União Brasil, PL e Novo concentram 41,5% da Câmara com votações sistematicamente contrárias à agenda ambiental. São esses mesmos partidos que abrigam a maioria das candidaturas pet.
Do outro lado, PT, PSOL, PV e Rede somam 137 cadeiras e votaram majoritariamente contra projetos que fragilizam leis ambientais, incentivam a grilagem e ampliam o desmatamento. Mas ficaram à margem da chamada bancada dos protetores.
A sensibilidade popular em relação aos animais é real e crescente. A disputa não é sobre a existência dessa empatia e sim sobre quem decidiu capturá-la e para quê.
Na Câmara Federal, o Delegado Bruno Lima (PL-SP), um dos rostos mais reconhecidos da causa animal nas redes, votou a favor do PL 1.459/2022, conhecido como o "PL das queimadas", aprovado em 2023, que flexibilizou regras de controle de incêndios e foi amplamente criticado por ambientalistas e pelo setor científico.
Felipe Becari (MDB-SP), outro nome frequente em vídeos de resgate, atuou em comissões que aprovaram o Marco do Licenciamento Ambiental, reduzindo exigências para empreendimentos em áreas sensíveis.
Em Minas, o espelho é Noraldino Júnior (PSB), deputado estadual em terceiro mandato na ALMG. O próprio site da Assembleia apresenta sua trajetória marcada pela defesa dos animais.
Ele criou e presidiu a Comissão Extraordinária de Proteção dos Animais. Mas, no mesmo mandato em que se posicionou como protetor, votou a favor da privatização da Copasa e ainda lidera o bloco "Avança Minas", base de apoio ao governo Zema.
O mesmo Zema que, entre 2023 e 2025, cortou os investimentos em prevenção de desastres de R$ 135 milhões para R$ 6 milhões. Que deixou cidades inundadas, famílias desabrigadas e animais sem nenhuma política pública que os proteja de verdade.
Como chorar por um animal abandonado e votar pela privatização da Copasa em Minas, entregando um bem essencial para a vida de pessoas, bichos e da fauna inteira a uma lógica de mercado?
Apoiar o PL do Veneno, que flexibiliza o uso de agrotóxicos e amplia a pressão sobre solo, rios e espécies silvestres? Como posar de protetor da vida animal e seguir alinhado ao licenciamento ambiental enfraquecido e à Frente Parlamentar da Agropecuária, o mesmo núcleo político que sustenta o desmatamento, o avanço do agro sobre biomas e a destruição do habitat da fauna nativa?
Como? Bom… A causa animal virou verniz. Uma estratégia que funciona porque opera no afeto. Porque mobiliza o cuidado. Porque desarma a crítica e comove o eleitorado.
O que esses parlamentares teimam em esconder é que defender os animais de verdade exige enfrentar interesses econômicos consolidados, proteger biomas, garantir uma legislação ambiental que não negocie biodiversidade por votos no plenário. Exige, inclusive, não integrar a base de um governo que transforma prevenção de desastres em linha de corte orçamentário.
Porque quando a compaixão é seletiva, ela não protege. Ela distrai. E enquanto a câmera filma mais um resgate com trilha sonora de fundo, muitas vidas colapsam em silêncio com votos de quem se diz defensor.
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