Com carnaval gigante, BH ainda pode receber mais gente?
Com mais de 6 milhões de foliões, BH enfrenta o desafio de crescer sem perder a identidade descentralizada que marcou o renascimento do Carnaval.

Jô Andrade
Repórter

Foto: Mirela Persichini
Belo Horizonte espera receber mais de 6 milhões de foliões no Carnaval deste ano, número que deve superar a folia de 2025, que reuniu 6,5 milhões de pessoas. O salto de 500 mil pessoas em 2023 para mais de 6 milhões é uma realidade que todos que acompanharam o nascimento do carnaval de BH precisam encarar hoje. Só neste ano, a programação vai contar com mais de 600 desfiles.
E como esses números se dão na prática? Bom, já observamos que não existe mais bloco “pequeno” em Belo Horizonte, e a saga de tentar achar um bloquinho que te dê espaço para dançar, beber e beijar sem ser esmagado é algo que virou rotina para os belo-horizontinos.
Mas como a cidade tem se preparado para receber tanta gente? Vai caber todo mundo na cidade?
A boa notícia é que o território é grande e abriga muita gente. A má notícia é que a prefeitura e o governo do estado ainda não entenderam como funciona o carnaval de Belo Horizonte e, convencidos de que festa boa é festa superlotada no Centro, esqueceram de pensar em infraestrutura e absorção de foliões.
O urbanista e escritor Roberto Andres, professor da UFMG, contou que o carnaval de BH tem tudo para ser uma festa descentralizada que atendesse todo mundo, mas a escolha do poder público foi a do sufocamento dos foliões nas principais avenidas do centro da cidade, uma característica que pouco tem a ver com o perfil do carnaval de Belo Horizonte.
"A prefeitura de BH e o governo do estado estão com uma visão equivocada sobre o carnaval, eles têm visto como um grande evento genérico, como qualquer outro, com grandes shows e uma atração de público de forma despersonalizada, mas o que é mais interessante do carnaval de BH é sua especificidade. Os artistas locais, os blocos distribuídos no território se relacionando com os bairros das cidades", disse.

Essa desproporcionalidade de concentração do público não é só desconfortável para quem está curtindo a festa, mas também para quem trabalha nela. Para se colocar um bloco grande na rua, é necessária equipe de produção, apoio, espaço para a banda, bateria e, claro, o trio elétrico.
Agora, pense na quantidade de gente envolvida em um único bloco e em como essas pessoas fazem para chegar até o ponto de concentração? Quando pensamos nisso, esbarramos em um dos principais problemas da cidade: falta busão de qualidade para levar essa galera toda para a festa.
Além da passagem cara, nossa capital ainda não tem uma operação efetiva da BHTrans no transporte público. Basicamente, os agentes da prefeitura ficam por conta dos locais onde os blocos passam, em sua maioria, na região central. Enquanto isso, as empresas de ônibus aproveitam a falta de fiscalização para reduzir o número de ofertas de viagens, isso quando os ônibus seguem os itinerários determinados pela BHTrans. Por exemplo, se você sai do bairro Tupi, na região Noroeste, a caminho do Centro, vai precisar contar com a sorte e o bom humor do motorista para chegar ao ponto mais próximo de onde seu bloco vai sair. Isso porque ainda existe o gargalo da fiscalização, e os ônibus acabam seguindo rotas alternativas que não estão dentro do mapa disponibilizado pela prefeitura.
"O principal problema é a carência de transporte público, não temos uma operação de ônibus durante o carnaval para atender os blocos, para os ônibus passarem no horário correto, para aumentar as ofertas, e você de fato permitir que a população se desloque por transporte público. Então, a gente vê é o gargalo de carros de aplicativo, de automóveis, das saídas dos blocos, gerando congestionamento, espera, alto custo para os foliões, e o carnaval servido com transporte público teria muito mais condição de absorver a alta demanda da cidade", comentou Roberto.
Ainda é possível pensar um carnaval com mais cara de gente e menos cara de negócios, mas é preciso forçar o poder público e as grandes marcas a somar nessa construção, e parar de tentar reinventar algo que já tem a identidade de BH.
A festa tem condição de crescer, de expandir e de trazer turistas, mas quanto mais se investir em shows centralizados, trios elétricos gigantes para artistas nacionais e pouco investimento em blocos pequenos e médios, menos chances de se emplacar um carnaval plural, diverso e democrático. Caso isso não seja possível, veremos cada vez mais a cidade perder sua identidade de rua, de povo e de gente feliz.
"Esse carnaval múltiplo, diverso e distribuído territorialmente, a cidade ainda tem condições de receber e crescer, porque quando se tem uma infraestrutura distribuída, você tem mais condições de abrigar uma quantidade de pessoas que tem vindo. Mas o carnaval que a prefeitura e o governo do estado têm buscado é um carnaval concentrado em avenidas e grandes palcos, dessa forma a infraestrutura urbana fica cada vez mais difícil de ser absorvida, gerando grande pressão e concentração em algum bairro e esvaziamento nos demais da cidade", disse.
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