Comunidades bloqueiam MG-010 e cobram reparação de mineradora
Mais de 400 pessoas vivem abaixo da barragem do Minas-Rio; moradores denunciam medo constante, falta de assistência e demora no reassentamento

Alícia Lanna
Jornalista

Foto: MAM/Divulgação
Moradores de comunidades atingidas pelo complexo Minas-Rio, da Anglo American, iniciaram na madrugada desta terça-feira (18) uma manifestação na MG-010 para cobrar reparação e responsabilização da mineradora após mais um acionamento indevido das sirenes de emergência da barragem de rejeitos.
O protesto reúne mais de 100 pessoas de comunidades de Conceição do Mato Dentro, Alvorada de Minas, Serro e Dom Joaquim, além de integrantes do Movimento pela Soberania Popular na Mineração (MAM). Os manifestantes afirmam que permanecerão mobilizados até que a empresa e o poder público apresentem compromissos concretos diante das reivindicações.
O estopim para a manifestação aconteceu na noite da última quinta-feira (13), quando sirenes do sistema de emergência da Anglo American voltaram a tocar na Zona de Autossalvamento (ZAS) da barragem. O acionamento provocou pânico entre moradores, que seguiram aquilo que aprenderam nos treinamentos de emergência: saíram de suas casas e percorreram as rotas de fuga em direção aos pontos de encontro.
Idosos, pessoas com deficiência, crianças e até recém-nascidos precisaram deixar suas casas às pressas. Segundo relatos das comunidades e do Núcleo de Assessoria às Comunidades Atingidas por Barragens (Nacab), a equipe da Anglo American chegou à região mais de duas horas depois do disparo das sirenes, quando parte das famílias já havia retornado para casa.
A empresa informou posteriormente que não havia situação de emergência e que a barragem e os diques permaneciam seguros. Para quem vive abaixo da estrutura, porém, o problema não termina quando a empresa informa que foi um alarme indevido.
Este foi o quarto acionamento indevido registrado pelas comunidades desde 2020 e o segundo somente em 2026. O primeiro ocorreu em janeiro de 2020, atingindo comunidades como São José do Jassém e Água Quente. Em março de 2025, outro disparo assustou moradores de Sapo, Turco e Cabeceira do Turco. Em fevereiro deste ano, as sirenes voltaram a tocar nas comunidades de São José do Jassém e Saraiva.
Mais de 400 pessoas vivem atualmente abaixo da barragem, dentro da chamada Zona de Autossalvamento. A ZAS é a região onde, em caso de rompimento ou outra emergência, não haveria tempo suficiente para que os órgãos públicos realizassem o resgate antes da chegada da onda de rejeitos. Por isso, os próprios moradores devem abandonar imediatamente suas casas quando o sistema de alerta é acionado e seguir até os pontos de encontro.
É justamente aí que mora uma das principais preocupações das famílias: depois de quatro alarmes indevidos, como saber quando a sirene está anunciando um erro e quando existe um risco real?
As comunidades afirmam que, após o acionamento do dia 13, não receberam atendimento imediato da Anglo American. Nos dias seguintes, segundo os moradores, representantes ligados à empresa passaram pelos territórios buscando informações sobre o que teria sido ouvido e onde as sirenes teriam tocado, o que aumentou a indignação de famílias que viveram momentos de pânico.
Segundo o Núcleo de Assessoria às Comunidades Atingidas por Barragens (Nacab), um Termo de Ajustamento de Conduta firmado em 2024 entre o Ministério Público de Minas Gerais e a Anglo American prevê a avaliação dos danos e indenizações em caso de novos disparos das sirenes. Ainda assim, as comunidades afirmam que os acionamentos registrados em março de 2025 e fevereiro de 2026 ainda não foram indenizados.
No manifesto divulgado durante a paralisação da MG-010, moradores, comunidades tradicionais e quilombolas, o MAM e a Federação das Comunidades Quilombolas de Minas Gerais (N'Golo) reivindicaram o pagamento de indenização individual às famílias pelos danos morais e psicológicos provocados pelos acionamentos das sirenes de fevereiro e agosto deste ano.
Os manifestantes também exigem uma auditoria técnica externa e independente sobre a barragem de rejeitos, o sistema de monitoramento e a chamada mancha de inundação. A proposta é que a instituição responsável seja escolhida e validada pelas próprias comunidades.
Outra demanda é a instalação permanente de estrutura de emergência dentro da ZAS, com presença da Defesa Civil, ambulância, atendimento médico e equipe psicossocial disponível 24 horas.
Além disso, as comunidades estão em processo de negociação para um reassentamento coletivo, resultado de uma ação judicial que reconheceu o direito de famílias deixarem a Zona de Autossalvamento, e cobram o início imediato das obras das novas moradias e a redução do prazo para entrega das casas. Também reivindicam o direito de escolher entre reassentamento rural ou urbano e indenização complementar para famílias que tiverem seus modos de vida afetados pela mudança.
Também são demandas dos moradores o fornecimento de água potável, monitoramento independente da qualidade da água, atendimento contínuo à saúde mental, cumprimento das condicionantes ambientais do empreendimento e respeito à consulta livre, prévia e informada de comunidades tradicionais e quilombolas.
O manifesto também critica a atuação dos órgãos públicos de fiscalização e controle. Para os atingidos, a responsabilidade por garantir segurança e direitos não pode recair somente sobre quem vive no território.
"Não aceitaremos que vidas sejam tratadas como detalhe de um protocolo de segurança", afirmou uma representante do MAM durante a mobilização.
Leia o manifesto completo aqui.
Em nota enviada ao Metrópoles sobre a manifestação desta terça-feira (18), a Anglo American afirmou que respeita o direito à livre manifestação e que acompanha a mobilização. A empresa declarou estar aberta ao diálogo com as lideranças para ouvir as reivindicações e buscar encaminhamentos.
Sobre o acionamento das sirenes na quinta-feira (13), a mineradora informou ao jornal O Tempo que a barragem e os diques permaneciam seguros e operando normalmente, sem situação de emergência, e que equipes foram mobilizadas para investigar a causa do disparo.
Enquanto isso, as comunidades seguem mobilizadas na MG-010. Depois de quatro acionamentos indevidos e anos convivendo abaixo da barragem, elas afirmam que não querem apenas uma nova explicação: querem garantias de que poderão viver sem precisar se perguntar, a cada sirene, se é hora de fugir de casa.
Com informações de Metrópoles e O Tempo.
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