CURA 2026 ocupa a Praça Raul Soares pela última vez e reivindica o direito ao descanso
Festival de arte pública segue até 30 de agosto, com três novas empenas, programação cultural e o conceito “Descansar enquanto...”.

Márcia Maria Cruz
Colunista

Foto: Daiara Tukano
Um dos maiores festivais de arte pública do Brasil convoca o espectador a "Descansar enquanto...". A frase propositalmente incompleta cumpre a função de estimular, a cada um que queira, propor um complemento à sua preferência e ao seu estado de espírito. Descansar enquanto sonha; descansar enquanto anda; descansar enquanto brinca... Incluir o descanso entre as tarefas do cotidiano é a proposta da edição do CURA 2026, festival de arte pública realizado atualmente por Jana Macruz e Priscila Amoni, e que tem como curadora convidada desta edição a educadora, pesquisadora e curadora Luciara Ribeiro. "Reivindicamos aqui, descansar enquanto direito e não privilégio, descansar enquanto um estado que atravessa todos os gestos da vida", pontuam. O Circuito Urbano de Arte (CURA) nasceu como uma declaração de amor a Belo Horizonte em 2017, quando a capital mineira completou 120 anos.
A pintura das empenas e as outras atividades culturais desta edição serão realizadas de 19 a 30 de agosto. O local escolhido para receber o festival é a Praça Raul Soares, na região central de Belo Horizonte. É a quarta vez e também a última que o festival será realizado neste local icônico. Eu, que acompanho como jornalista e espectadora desde a primeira edição, fui convidada a compor a comissão criativa que elaborou o conceito do CURA 2026: “Descansar enquanto…”. Como em edições anteriores — 2021, 2022 e 2024 —, a praça se transforma em ponto de observação para que as pessoas possam acompanhar os artistas enquanto pincelam os desenhos nas empenas dos edifícios ao redor.
A pintura artística de painéis de até 56 metros de altura ao ar livre fortalece a arte pública, aquela que é criada para o espaço coletivo e pode ser apreciada por todas as pessoas sem que seja necessário pagar por isso.
Luciara nasceu em Xique-Xique, na Bahia, mora em São Paulo e desembarcou por três fins de semana seguidos, em 14, 21 e 28 de março, na Rodoviária de Belo Horizonte. Rumo a uma casa de sobrado no bairro tradicional de Santa Tereza, na Região Leste, foi se ambientando com BH. Na mala, ela trazia uma grande sensibilidade e conhecimento como mestre em história da arte pela Universidade de Salamanca para fazer a curadoria dessa edição. Luciara veio compartilhar seus conhecimentos durante a elaboração do conceito da edição de 2026 com uma comissão criativa formada por 11 pessoas. O desejo foi comunizar ainda mais o CURA.

No bairro famoso por fomentar a cultura belo-horizontina, Luciara se encontrou com Alex Bessas, Binho Barreto, Brisa Marques, Daru Tikuna, Ed Marte, Filipe Thales, Márcia Cruz, PDR, Priscila Musa, Vanessa Beco e Victor Diniz. E também Priscila Amoni e Jana Macruz. Todos sentados em uma roda, no quintal da casa, que tem no centro um pé de jabuticabas. Foi recebida do jeito mineiro, com um café da manhã farto preparado por Jonjon com ingredientes frescos e nenhum multiprocessado, seguindo a filosofia do festival de conexão com a natureza.
O grupo foi convidado pelas idealizadoras do CURA pela relação que cada um individualmente mantém com a capital mineira: cronistas sobre a cidade, artistas que criam novas formas de estar no espaço público, ativistas e produtores culturais que mudaram a cara de BH de uma cidade ensimesmada para cosmopolita.
A curadora baiana, ao conhecer a Praça Raul Soares, foi informada de que o lugar também é conhecido pelas gerações mais jovens por "Raulzona", um apelido carinhoso que brinca com o gênero, já que a palavra é um substantivo feminino. Inaugurada em 3 de setembro de 1936, tem estilo art déco, jardins aos moldes parisienses, mas o que marca a sua identidade são as pinturas marajoaras ao longo de todo o piso. A praça foi descrita em crônicas e reportagens, mas, ao longo dos anos, apesar da beleza, deixou de ser apreciada por receber a pecha de ser um local perigoso e tornou-se apenas um lugar de passagem.
É a quarta vez que o CURA se estabelece naquela praça, já com um legado de um horizonte mais colorido e poético: 10 pinturas em empena, uma pintura em fachada, uma pintura de chão, uma instalação em empena, uma pintura mural, um lambe em fachada. Ao longo das quatro edições também foram montadas quatro instalações temporárias na praça.

Da Raulzona se poderá ver as três empenas que serão pintadas nesta edição: duas no Edifício Pignataro, na Avenida Augusto de Lima; e uma no Edifício Florença, na Rua Guarani.
A primeira edição do CURA foi realizada na Rua Sapucaí, no Bairro Floresta, que fica a 30 minutos de caminhada até a Praça Raul Soares. A rua se transformou em um mirante para outra praça também simbólica, a Estação, ao redor de onde foram pintadas as primeiras empenas do festival. O CURA contribuiu para tornar o mirante um ponto turístico e um dos mais movimentados quando o assunto é cultura.
Desde o início demonstrou a vocação de ser um festival de arte para todos e, concomitantemente, uma plataforma para se pensar as identidades brasileiras. A relação do CURA com o simbolismo das culturas indígenas e negras é intrínseca, o que se demonstra na curadoria das edições. Entre os convidados estão Daiara Tukano, que, em 2020, pintou "Mãe-selva, Menino Rio", o maior mural de arte urbana feito por uma artista indígena no mundo, a imagem de uma mãe carregando o filho no colo que ocupa mil metros quadrados do Edifício Levy, na Avenida Amazonas.
Em 2021, o CURA seguiu literalmente viagem da Rua Sapucaí até a Raulzona pela Avenida Amazonas. Curiosamente, muitas ruas e avenidas em Belo Horizonte são batizadas por nomes indígenas: Rua Tupis, Rua dos Tupinambás, Rua dos Caetés. Outras vias recebem nomes dos estados brasileiros, como é o caso da Avenida Amazonas. "O rio Amazonas deságua lá, carregando a energia das águas: seus seres, deusas, energia que lava, banha, faz germinar sementes", diz Priscila Amoni. Ela apresenta uma metáfora entre o nome da Avenida e o maior rio do Brasil.

Em 2022, a artista Sueli Maxakali pintou a obra "Xunim Kup" (Mastro do morcego-espírito). Em 2024, participaram Liça Pataxoop, com a obra "Hãm kuna'ã xeka (O grande tempo das águas)", e Paulo Nazareth, com a obra "Alforriado Matias Bendito seja lembrado!". A lista de convidados é composta por artistas como Mag Magrela, Criola, Clara Valente, Willard, entre outros.
O CURA propõe a ocupação dos espaços coletivos na cidade, respeitando a diversidade dos públicos. Se a praça é para todos, nada mais justo que volte a ser um espaço de permanência. Durante os dias de festival, a praça é ocupada por pessoas de todas as idades e classes sociais que vão até lá para apreciar a arte. Juntam-se aos estímulos artísticos para que as pessoas estejam lá cadeiras de praia espalhadas pela praça, para que possam se sentar, comer uma pipoca ou um algodão-doce e tirar uma foto. Tudo o que uma praça pode ter para que tenhamos vontade de ficar.
Luciara faz uma boa analogia para descrever a Raulzona nos dias do festival: as pessoas "em estado de praça". Em vez de uma política de higienização adotada em muitas cidades, que expulsa pessoas em situação de rua das praças, o que o festival objetiva é que todos possam desfrutar dela. "A praça, território central do CURA, se apresenta como espaço de respiro: lugar onde o tempo pode se expandir, onde o olhar pode se alongar até o horizonte das empenas, onde o corpo pode simplesmente estar", conclui Janaina.
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