De BH para Hollywood: dois filmes mineiros podem representar o Brasil no Oscar
“Nosso Segredo” e “Vicentina Pede Desculpas” estão entre os seis finalistas escolhidos pela Academia Brasileira de Cinema

Alícia Lanna
Jornalista

Foto: Divulgação
Dois filmes mineiros estão entre os seis finalistas que disputam a vaga para representar o Brasil no Oscar 2027, na categoria de Melhor Filme Internacional. “Nosso Segredo”, primeiro longa dirigido por Grace Passô, e “Vicentina Pede Desculpas”, novo trabalho de Gabriel Martins, passaram pelo corte realizado nesta quarta-feira (9) pela Comissão de Seleção da Academia Brasileira de Cinema. Os dois têm Belo Horizonte não apenas como cenário, mas como parte fundamental das histórias que contam.
A presença dupla de Minas acontece em um momento especialmente quente para o audiovisual brasileiro. Em 2025, “Ainda Estou Aqui”, de Walter Salles, conquistou o primeiro Oscar da história do Brasil ao vencer como Melhor Filme Internacional. Um ano depois, “O Agente Secreto”, de Kleber Mendonça Filho, chegou à cerimônia com quatro indicações, incluindo Melhor Filme, Filme Internacional e Melhor Ator para Wagner Moura. Não levou estatuetas, mas manteve o cinema nacional no centro das atenções internacionais.
Agora, começa outra corrida. Ao todo, 15 longas estavam inscritos na seleção brasileira. Depois da análise da comissão, seis permaneceram na disputa:
A escolha do representante brasileiro é feita pela Academia Brasileira de Cinema, e não diretamente pela Academia do Oscar.
Neste ano, a comissão responsável pelo processo tem 15 integrantes: 12 escolhidos por votação entre os associados da Academia Brasileira e três indicados pela diretoria. No dia 9 de setembro, o grupo reduziu a lista de inscritos para seis. Em 16 de setembro, escolherá o único longa que será oficialmente enviado pelo país.
Para participar da seleção brasileira, entre outras exigências, as produções precisavam ter estreia comercial entre 1º de outubro de 2025 e 30 de setembro de 2026 e permanecer por pelo menos sete dias consecutivos em exibição comercial.
Só depois da escolha brasileira começa a corrida internacional propriamente dita.
Pelas regras do Oscar 2027, os filmes elegíveis de diferentes países entram em uma primeira votação da Academia de Artes e Ciências Cinematográficas de Hollywood. Dessa disputa saem 15 títulos, a chamada shortlist (lista curta) de Melhor Filme Internacional. Depois, uma nova votação reduz esses 15 a apenas cinco indicados oficiais ao Oscar.
A shortlist será anunciada em 15 de dezembro. Os cinco indicados ao Oscar serão conhecidos em 21 de janeiro de 2027, e a cerimônia está marcada para 14 de março.
Ou seja: se “Nosso Segredo” ou “Vicentina Pede Desculpas” for escolhido no dia 16, Minas terá vencido a primeira batalha. Ainda restarão outras duas antes de aparecer oficialmente na lista de indicados.
Se os dois filmes mineiros têm algo em comum, além da vaga na disputa, é o fato de não tratarem Belo Horizonte como um cenário genérico.
“Nosso Segredo” marca a estreia de Grace Passô na direção de um longa-metragem. A história acompanha uma família negra que tenta reconstruir a própria rotina depois de uma perda. Enquanto cada integrante enfrenta o luto de uma maneira, o filho mais novo guarda um segredo capaz de mexer nas dores que atravessam a família. Grande parte do filme se passa dentro da casa dos personagens, mas a capital mineira também aparece pelas ruas.
O longa chega à corrida pelo Oscar já premiado. Em agosto, conquistou três Kikitos no Festival de Gramado, incluindo o de Melhor Filme, além dos prêmios de Melhor Fotografia e Melhor Direção de Arte.
Do outro lado está “Vicentina Pede Desculpas”, dirigido por Gabriel Martins e produzido pela Filmes de Plástico, uma das produtoras responsáveis por colocar o cinema feito na Grande BH em circulação nacional e internacional nos últimos anos.
Rejane Faria interpreta Vicentina, uma professora aposentada de 75 anos. Seu filho, Wesley, é motorista de um ônibus que cai de um viaduto em Belo Horizonte. Quase todos os ocupantes morrem. Quando imagens do acidente levantam suspeitas de que Wesley possa ter provocado a tragédia intencionalmente, Vicentina decide procurar as famílias das vítimas para pedir desculpas e tentar entender o que aconteceu.
A própria geografia de BH participa dessa jornada. Gabriel Martins contou que a equipe buscou mostrar diferentes partes da cidade durante os deslocamentos da personagem, incluindo o Barreiro e a Vila Pinho. Em entrevista ao BHAZ, contou que a intenção era “contemplar a cidade” e encontrar nas ruas uma paisagem que também ajudasse a contar a história.
O filme é uma parceria da Filmes de Plástico com a Netflix e terá estreia nos cinemas em 5 de novembro, antes de chegar à plataforma no dia 20 do mesmo mês.
E “Vicentina” ainda guarda uma carta interessante: o longa participa do Festival Internacional de Cinema de Toronto. A edição de 2027 do Oscar inaugurou uma nova possibilidade para a categoria internacional: além da indicação oficial feita por um país, um filme pode se tornar elegível ao vencer determinados prêmios em festivais reconhecidos pela Academia. O Platform Award de Toronto está justamente nessa lista. Portanto, caso “Vicentina Pede Desculpas” conquiste o prêmio, poderá entrar na corrida por essa segunda via.
No dia 16, o Brasil escolhe seu representante. Até lá, Minas segue com duas cadeiras nessa sessão. E já tem motivo de sobra para ficar até os créditos finais.
Com informações de BHAZ, Academia Brasileira de Cinema e Agência Brasil.
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