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    De Carminha a Ana Paula Renault: nós somos apaixonados por anti-heroínas

    Entre a novela que parava o país e o reality que domina as redes, o Brasil mostra sua paixão por mulheres que se recusam a ser “boazinhas”.

    Zotha

    Zotha

    Colunista

    4 min24 de abril de 2026
    De Carminha a Ana Paula Renault: nós somos apaixonados por anti-heroínas

    Ana Paula Renault e Carminha em imagem gerada por IA.

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    Elas são protagonistas femininas que bagunçam o roteiro esperado para as mulheres: não são doces, não são obedientes, não pedem licença para existir e também não são vilãs. Mas, muitas vezes são chamadas de egoístas, desumanas, bruxas e, mesmo assim, despertam uma paixão nacional.

    Carminha, personagem de Adriana Esteves em Avenida Brasil, provocou uma comoção que hoje parece até difícil de explicar para quem não viveu 2012. Era um tempo em que novela ainda parava o país. E Carminha era um personagem tão cheio de camadas que, em um único capítulo, o público conseguia sentir raiva, empatia, indignação e até carinho por ela. Uma mistura confusa de sentimentos que só acontece quando atriz e personagem se encontram no ponto certo. No fim das contas, milhões de brasileiros estavam torcendo por uma mulher manipuladora, golpista e assassina. O maior culpado era o carisma.

    Quatro anos depois, em 2016, outra mulher deixava o país rendido pela televisão: Ana Paula Renault entrou no elenco do Big Brother Brasil 16 como um furacão. Falava o que pensava, brigava, ironizava, ria, chorava e não fazia o menor esforço para parecer agradável. Para alguns, era insuportável. Para muitos outros, absolutamente magnética. No fim das contas, ela foi desclassificada na 7ª semana de confinamento por agredir outro participante. E ainda assim continuamos torcendo por ela. A culpa também era do carisma.

    Agora, dez anos depois, Ana Paula volta ao programa em busca de um prêmio que é três vezes maior do que o da edição em que participou pela primeira vez. E retorna sendo exatamente quem sempre foi: intensa, contraditória, divertida, irritante, sensata em um momento e completamente caótica no outro.

    Louca, lúcida, amargurada, bem-humorada, odiosa e amável. É tanta contradição que fica difícil explicar para quem nunca a assistiu. Afinal, ela é boa ou má?

    Nem boa, nem má. Apenas Ana Paula Renault.

    A gente gosta de simplificar o mundo em heróis e vilões. É mais confortável assim. Mas essas personagens existem justamente para lembrar que gente de verdade não cabe em rótulos tão pequenos. Gosto quando Ana Paula diz que “boazinha” não é adjetivo de gente. E eu concordo. Gente é complexa, contraditória, às vezes insuportável e, ainda assim, profundamente interessante.

    E tem um detalhe curioso nessa história: tanto Adriana Esteves quanto Ana Paula Renault são sagitarianas.

    Na astrologia, Sagitário é o signo da franqueza brutal, da língua de chicote, da intensidade emocional e da dificuldade de viver sob controle. Sagitarianos costumam ser vistos como exagerados, impulsivos e dramáticos, mas também são donos de um tipo raro de autenticidade. Quase sempre falam antes de pensar, se jogam antes de medir as consequências e vivem tudo em volume máximo.

    É fácil imaginar como esse temperamento pode ter ajudado Adriana Esteves a construir Carminha. A personagem é teatral, intensa e explosiva. Vive entre o cinismo e o desespero, entre o controle absoluto e a perda total dele. Tudo muito grande, tudo muito visceral.

    Já Ana Paula Renault não precisou construir personagem nenhum. Ela simplesmente foi: ao vivo, sem filtro, sem roteiro e sem edição possível para esconder as próprias contradições. Talvez seja justamente isso que incomode tanta gente e, ao mesmo tempo, fascine tanta gente.

    Porque no fundo o Brasil tem uma quedinha por personagens que quebram expectativas. Mulheres que não tentam ser agradáveis o tempo inteiro. Mulheres que falam alto, erram, exageram e ocupam o centro da história.

    É irônico pensar que somos um país que ama e torce por mulheres livres no entretenimento. Mas, fora da ficção, a realidade é outra. De acordo com o Fórum Brasileiro de Segurança Pública, uma mulher é vítima de feminicídio a cada poucas horas no Brasil. Em média, são cerca de 4 mulheres assassinadas por dia por razões de gênero.

    Eu queria que essa fosse apenas uma crônica leve sobre personagens magnéticas da televisão, mas não dá para ignorar este contraste. Na tela, a gente vibra quando uma mulher rompe o papel que esperam dela. Na vida real, muitas ainda pagam caro demais por fazer exatamente isso.

    Talvez por isso, Carminha tenha virado um dos maiores personagens da história da televisão brasileira. E voltará em 2027 em Avenida Brasil 2. E também por isso, Ana Paula Renault, na sua segunda participação do reality, será consagrada a grande, inquestionável e inesquecível campeã do BBB 26.

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    Sobre o autor

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    Jornalista e fundador da Teia de Criadores, onde dirige a área de comunicação. Atua na interseção entre jornalismo, política e cultura. Foi apresentador do Xôtifalá quando ainda era coluna e é o idealizador deste portal. Pós-graduado em Transformação Digital pela USP, escreve sobre cidade, poder e cultura pop.

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