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    ‘Demita um petista’: O dia em que a extrema direita declarou guerra ao trabalhador brasileiro

    Após derrota de Flávio Bolsonaro, campanha de boicote a eleitores de Lula gera mais de 600 denúncias ao MPT.

    Jô Andrade

    Jô Andrade

    Repórter

    5 min28 de outubro de 2026
    ‘Demita um petista’: O dia em que a extrema direita declarou guerra ao trabalhador brasileiro

    Após derrota de Flávio Bolsonaro, campanha de boicote a eleitores de Lula gera mais de 600 denúncias ao MPT.

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    O resultado final das eleições para presidente da República foi no dia 25 de outubro, com Luiz Inácio Lula da Silva (PT) vencendo o adversário Flávio Bolsonaro (PL) com 4,4 milhões de votos a mais. Desde então, uma parcela barulhenta de bolsonaristas tem movimentado as redes sociais com publicações que incentivam a perseguição política a trabalhadores, usando frases como “demita um petista”, “não contrate um petista” e “não ajude quem votou no Lula”.

    A ideia é que empresários que votaram em Flávio Bolsonaro punam seus trabalhadores que não viram no projeto de Flávio algo representativo - algo que faz parte do processo legal e democrático brasileiro.

    A campanha que pede a “cabeça” de trabalhadores que votaram no PT também foi puxada por parlamentares da extrema direita que foram eleitos ou reeleitos no último pleito. O deputado federal Nikolas Ferreira (PL-MG), por exemplo, fez um post em uma das suas contas do Instagram incitando que comerciantes “petistas” colocassem bandeiras do Partido dos Trabalhadores em suas portas, como forma de repelir quem não votou em Flávio Bolsonaro.

    Publicação de um dos perfis de Nikolas Ferreira (PL-MG). Foto: reprodução
    Publicação de um dos perfis de Nikolas Ferreira (PL-MG). Foto: reprodução

    Já a deputada estadual Jéssica Ramos Moreno (PL-PR), após a vitória de Lula, usou as redes sociais para incentivar empresários a demitirem funcionários que votaram no petista. Ela também sugeriu que seus seguidores deixassem de contratar prestadores de serviços e rompessem amizades por divergências políticas. A publicação virou alvo de investigação do Ministério Público do Trabalho do Paraná (MPT-PR) por possível assédio eleitoral.

    Post da deputada "Jessicão", do Paraná. Foto: reprodução
    Post da deputada "Jessicão", do Paraná. Foto: reprodução

    Não distante, o próprio discurso do 01 do clã Bolsonaro pode ter afastado os trabalhadores de sua campanha. Não foram poucas as vezes que o senador apresentou propostas que provocaram preocupação entre trabalhadores brasileiros.

    Entre elas, possíveis mudanças nas regras da Previdência Social, congelamento de dívidas, a possibilidade de ampliar a contratação por hora, modelo que poderia trazer mais insegurança sobre salários e direitos trabalhistas e o famoso “negocie com seu patrão”, ideia que faria o empregado tentar articular salário, folgas e outros direitos direto com o empregador.

    O candidato também se posicionou contra o fim da escala 6x1, que prevê seis dias de trabalho para apenas um de descanso. As propostas colocaram em debate o futuro dos direitos trabalhistas e da proteção social no país. Além das propostas não tão chamativas, Flavio ainda sugeriu mudanças na Constituição Federal de 1988, a norma suprema do Brasil que protege, entre muitos direitos, as leis trabalhistas (CLT).

    Posts incentivam demissão de quem não votou no Flávio Bolsonaro. Foto: reprodução
    Posts incentivam demissão de quem não votou no Flávio Bolsonaro. Foto: reprodução

    Denúncias de assédio

    De acordo com o Ministério Público do Trabalho de Minas (MPT-MG), o órgão recebeu diversas denúncias de retaliação por parte de empregadores após as eleições.

    Em todo o país, os casos não param de crescer. De 23h59 de domingo (25), até o meio da manhã desta quarta-feira (28), foram mais de 600 novas denúncias em todo o país. Em Minas, quase 40 a mais em apenas dois dias.

    A procuradora regional do trabalho em Belo Horizonte, Luciana Marques Coutinho, explicou que o volume de denúncias se deu, em sua maioria, nas redes sociais.

    “Nós temos recebido um grande volume de denúncias após o final das eleições, nesse período pós-eleitoral, de ameaças, de retaliações a trabalhadores, de incitação a irregularidades, a discriminação é contra trabalhadores em razão da sua orientação política, da sua opção de voto, da sua manifestação política durante o período eleitoral. Essas denúncias têm se avolumado, sobretudo na internet”.

    Ainda segundo a procuradora, as mensagens de ameaça vão desde de pedidos de demissão de funcionários que votaram no PT até buscas por quem se posicionou politicamente durante o período eleitoral.

    “Essas ameaças de retaliações, elas chegam de que forma? Chega com um 'Não contrate, demita'. São empresários que anunciam nas redes sociais que vão dispensar os seus trabalhadores, que vão procurar postagens das redes privadas dos seus trabalhadores a respeito das suas manifestações políticas. Também tem ocorrido com muita frequência postagens de influenciadores digitais, pessoas que estão nas redes, que têm um grande número de seguidores, incentivando, incitando empresários a adotar esse tipo de irregularidade”, afirmou Luciana.
    Criadores de conteúdo incentivam demissões de "petistas". Foto: reprodução
    Criadores de conteúdo incentivam demissões de "petistas". Foto: reprodução

    Repercussão

    O boicote aos trabalhadores não “pegou bem” em setores da direita. No próprio post de Nikolas Ferreira há diversos comentários contra a posição do parlamentar.

    “É, parece que eu vivi pra ver crente pregar acepção de pessoas”
    “Eu não votei no PT mas tenho repúdio de atitudes tão ridicularizadas ao nível máximo de imaturidade, arrogância e prepotência”
    “Sou enfermeira neonatologista e lhe garanto que se seu filho nascer e precisar de uma UTI, prestarei a melhor assistência poss;ivel, seja você de direita ou esquerda””
    “Que besteira, hein? E olha que gosto de você. Mas é por umas paradas dessas que perdemos a narrativa”.

    'Cobrem os políticos'

    O governador eleito Cleitinho Azevedo (Republicanos), que é declaradamente de direita e apoiou Flávio nos dois turnos das eleições, publicou um vídeo criticando o boicote aos trabalhadores mais pobres. “Quem tem que ser boicotado é a classe política. Cobre seu político que foi eleito. Se unam”, disse.

    A procuradora do MPT em BH ainda reforça que, para interromper a onda de perseguição a quem votou diferente, é importante não contribuir para o engajamento dessas publicações.

    O canal de denúncias do MPT é aberto e pode ser acessado pela internet.

    “É importante também não dar o engajamento a esse tipo de postagem, né? Eh, por meio de repost desse tipo de conteúdo, por meio de comentários nesse tipo de conteúdo. Se você vir uma postagem nesse sentido, imediatamente denuncie. Tire o print, salve o link dessa postagem e encaminhe para o Ministério Público”, afirmou.
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    Jornalista especialista em textos pela UFMG, com passagens pelos veículos g1, BHAZ e Sou BH. Experiência em jornalismo digital, reportagem e edição de conteúdo.

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