Demorou, mas saiu: governo de MG reconhece importância cultural do Carnaval de BH
Sob a ótica do povo, o carnaval sempre foi patrimônio cultural

Alícia Lanna
Jornalista

Foto: Marcos Gomes
O carnaval nasceu nas ruas de Belo Horizonte da ocupação espontânea, da mistura, do improviso e da vontade coletiva de existir e celebrar na cidade. Se criou à partir das manifestações populares e desfiles improvisados por trabalhadores que deram origem aos blocos caricatos. Ao longo do tempo, a festa foi crescendo com escolas de samba, bandas e blocos, e se tornou uma das mais importantes do país.
Mas esse protagonismo não dura sem conflitos. Ao longo das décadas, o carnaval enfrenta pressões e falta de apoio do poder público, o que contribui para seu enfraquecimento, especialmente a partir dos anos 1990, quando a cidade passa a esvaziar durante o feriado. Mesmo assim, o carnaval nunca desapareceu completamente. Ele resistia nos bairros, nos clubes e nas periferias, sustentado principalmente por trabalhadores e movimentos populares.
A virada começa no fim dos anos 2000, com o surgimento de novos blocos de rua e movimentos de ocupação do espaço público, como a Praia da Estação. A partir daí, uma nova geração retoma o carnaval com força, diversidade e resistência, defendendo o direito à cidade e a cultura popular, e puxado por artistas e foliões que reinventaram a festa sem esperar autorização de ninguém.
Agora, em 2026, o governo do Estado oficializa: o Carnaval de BH foi reconhecido como manifestação de relevante interesse cultural de Minas Gerais. O projeto de lei que deu origem ao reconhecimento é de autoria da deputada estadual Beatriz Cerqueira (PT).
Na prática, o reconhecimento vem depois que a festa já virou gigante: só neste ano foram cerca de 6,5 milhões de foliões na capital e quase R$5,8 bilhões movimentados na economia mineira. Hotéis cheios, cidade lotada, turismo aquecido. Com os holofotes virados para cá, o carnaval virou motor econômico.
E é justamente aí que mora a tensão: quando o carnaval era de bairro, “raiz”, construído na base da resistência, ele já era fonte transbordante de cultura. Agora, quando movimenta bilhões, atrai marcas, turismo e visibilidade política, ele passa a ser de “relevante interesse cultural”?
Na prática, isso significa que o Estado passa a tratar a festa não só como evento, mas como política pública, com possibilidade de investimento, criação de programas de incentivo e maior participação na organização. O decreto abrange tudo: blocos de rua, escolas de samba, e abre caminho para políticas de incentivo e preservação.
Com o decreto, há uma possibilidade de melhora na estrutura: apoio financeiro, melhor organização, mais segurança, limpeza e planejamento. Isso pode fortalecer blocos, escolas de samba e toda a cadeia cultural envolvida. Por outro lado, também significa uma presença maior do Estado na forma como o carnaval acontece, com regras mais definidas, controle sobre trajetos, horários e formatos.
Mas espera aí… o carnaval de BH nasceu da rua, da ocupação espontânea, da liberdade criativa. Quando essa lógica encontra a institucionalização, até que ponto organizar não vira limitar? Além disso, com mais visibilidade e investimento, cresce também o interesse do mercado. Mais marcas, mais patrocínio, mais disputa por espaço. Grandes blocos tendem a se beneficiar mais, enquanto os menores podem enfrentar mais dificuldades para se adaptar às exigências.
Reconhecer é importante, mas investigar também. A questão principal disso tudo é garantir que, mesmo com mais dinheiro, regras e interesses em jogo, o carnaval continue sendo da rua, e não apenas do mercado.
No fim, o desafio não é chamar o carnaval de patrimônio. É garantir que ele continue sendo verdadeiramente democrático, acessível, diverso e plural.
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