Descrença, trabalho e distância: por que milhões de mineiros deixam de votar?
Abstenção ficou acima de 20% nos dois turnos de 2018 e 2022; histórias de eleitores mostram que não votar nem sempre é desinteresse pela política

Ramon Chaia
Jornalista

Minas registrou mais de 3 milhões de eleitores ausentes em cada turno das eleições de 2018 e 2022 (Foto: Montagem)
Em 2022, o advogado Gustavo Mafalda, de 30 anos, decidiu não votar. Não houve imprevisto nem dificuldade para chegar às urnas. Ele não se sentia representado pelos candidatos. Na mesma eleição, a jornalista Vívia Dias, de 34 anos, também não compareceu, mas por outro motivo. Escalada para trabalhar fora de seu domicílio eleitoral, ficou impossibilitada de votar.
As duas histórias ajudam a explicar um fenômeno que envolve milhões de mineiros. Segundo os dados do Tribunal Superior Eleitoral (TSE), a abstenção no estado superou 20% nos dois turnos das eleições de 2018 e 2022. Por trás dos números, porém, estão razões que vão da insatisfação com as opções políticas a obstáculos de trabalho, deslocamento e saúde.
“Decidi não votar em 2022 porque não me senti representado por nenhum dos candidatos à época”, conta Gustavo.
Para 2026, o advogado diz ter mudado de posição. Ele pretende comparecer e entende que votar também é uma forma de se posicionar diante dos rumos da política.
“Entendo que há questões que agora são maiores do que uma escolha entre ‘ir’ e ‘não ir’. Há candidatos que estão utilizando as suas bases como instrumentos nocivos à República e aos poderes, e o ato de ir votar significa se posicionar contra estes que querem utilizar da política pra satisfação de interesses próprios”, afirma.
Vívia relata que costuma planejar sua participação nas eleições, mas a rotina profissional pode alterar esses planos. Em 2022, a escala de trabalho a levou para fora da cidade onde vota.
Neste ano, ela pretende ir às urnas porque estará em seu domicílio eleitoral. Ainda assim, afirma ter dificuldade para escolher candidatos com os quais se identifique.
“Acredito que, assim como muitos brasileiros, eu estou bastante desacreditada dos candidatos em virtude mesmo dessa polarização”, diz.
A jornalista avalia que as alianças partidárias frequentemente recebem mais atenção do que as necessidades da população. Apesar dessa insatisfação, afirma que apenas estar fora do local onde vota poderia levá-la a faltar novamente.
Em 2018, cerca de 3,48 milhões de eleitores não compareceram ao primeiro turno em Minas, o equivalente a 22,19% do eleitorado apto. No segundo, foram aproximadamente 3,63 milhões, ou 23,13%.
Em 2022, a ausência no primeiro turno ficou em 22,28%, com cerca de 3,63 milhões de eleitores. No segundo, caiu para 20,94%, correspondente a aproximadamente 3,41 milhões.
Os percentuais próximos mostram a persistência da abstenção, mas não permitem identificar, sozinhos, o motivo de cada ausência.
Para o cientista político Adriano Cerqueira, do Ibmec, a obrigatoriedade do voto não elimina as situações que impedem o comparecimento. Ele avalia que uma abstenção próxima de 20% não representa, por si só, um comportamento excepcional.
“Esse patamar de abstenção variando entre 20 e 20 e poucos por cento não chega a ser estranho. Historicamente, nas eleições brasileiras, é um patamar que costuma ser registrado”, afirma.
Doenças, hospitalizações, acidentes e outros imprevistos podem afastar das urnas até quem pretendia votar. O pesquisador também destaca o envelhecimento da população e o voto facultativo para pessoas com 70 anos ou mais. Na avaliação dele, esses fatores precisam ser considerados antes de interpretar toda ausência como rejeição à política.
Renda, escolaridade e distância do local de votação também podem interferir. Mesmo com transporte gratuito, explica Cerqueira, nem todos têm disponibilidade para fazer o deslocamento.
“A questão do deslocamento, por exemplo, mesmo quando o transporte é gratuito, mas a pessoa nem sempre tem aquela disponibilidade no dia para fazer uma coisa dessas. Pode ser um dia que ela está preocupada em ter alguma renda”, explica.
O especialista ressalta que a falta de identificação com os candidatos pode produzir respostas diferentes. Enquanto alguns eleitores deixam de comparecer, outros vão às urnas para votar em branco, anular o voto ou escolher uma candidatura de oposição. Assim, a insatisfação política não se traduz necessariamente em abstenção.
A própria obrigatoriedade, segundo Cerqueira, pode motivar o comparecimento de pessoas que querem evitar as pendências decorrentes da ausência. Por isso, o especialista avalia que a abstenção deve ser analisada dentro do contexto de cada eleição e das condições de vida do eleitor.
Gustavo e Vívia pretendem voltar às urnas em 2026. Suas experiências mostram que a mesma estatística pode reunir tanto uma decisão política quanto uma dificuldade prática, e que entender quem não vota exige olhar além do percentual.
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