Do cancelamento à investigação: o novo poder dos fandoms
Fãs transformam polêmicas em investigações coletivas, expõem contratos públicos e aumentam a pressão sobre artistas nas redes sociais

Ramon Chaia
Jornalista

Fotos: Redes Sociais
Os fandoms, comunidades de fãs formadas em torno de artistas, deixaram de se dedicar apenas na divulgação de músicas, lançamentos e votações por prêmios. Quando surge uma polêmica envolvendo um ídolo, parte desses grupos se junta em uma força-tarefa digital para recuperar vídeos antigos, cruzar declarações, consultar contratos e organizar campanhas de cobrança.
O movimento mistura defesa dos ídolos, disputa política, fiscalização e, em alguns casos, ataques coordenados. Também mostra que, na era das redes sociais, artistas dificilmente controlam o tamanho da repercussão provocada por uma fala ou um gesto.
Em agosto de 2026, a cantora sertaneja apareceu ao lado do deputado federal Nikolas Ferreira e fez o gesto de “22” com as mãos, número associado ao partido do político. A imagem rendeu críticas, perda de seguidores e virou cobrança até para artistas que tinham contato com a cantora pelas redes sociais.
A reação não ficou presa à discussão política. Usuários passaram a compartilhar informações sobre shows da artista financiados com recursos públicos. Um dos contratos previa o pagamento de R$ 900 mil por um show em Nova Belém, município mineiro com pouco mais de 3 mil habitantes. Outro show, em São Fidélis, no Rio de Janeiro, teve cachê de R$ 850 mil custeado por uma emenda parlamentar. As informações já eram públicas, mas só ganharam alcance nacional depois da polêmica nas redes.
Em 2022, durante um show em Sorriso, no Mato Grosso, o sertanejo Zé Neto criticou a Lei Rouanet e fez uma provocação à tatuagem íntima de Anitta. Na fala, o sertanejo afirmou que seu cachê era pago pelo público. A declaração levou fãs, jornalistas e perfis políticos a investigarem o financiamento de shows sertanejos. A apresentação havia sido contratada pela prefeitura por R$ 400 mil e a repercussão abriu caminho para uma onda de questionamentos sobre cachês pagos por municípios e ganhou o apelido de “CPI do Sertanejo”. Em julho deste ano, o cantor reconheceu o erro.
"Ataquei uma pessoa que não tinha nada a ver com o que eu tava falando. Eu sinto essa culpa. Um dia vou encontrar ela pedir desculpas. Já tentei. Anitta, se estiver me vendo, me perdoa.", afirmou o cantor durante entrevista ao podcast Nativíssimo.
Zezé Di Camargo viveu situação parecida no fim de 2025. Depois de criticar o SBT por receber o presidente Lula em um evento, usuários recuperaram informações sobre um show do cantor que teria cachê de R$ 500 mil, pago com verba federal. A aparente contradição viralizou. Mais uma vez, informações disponíveis em registros oficiais só chegaram ao grande público após uma declaração política provocar uma reação coletiva na internet.
Para a psicóloga Elisângela Pereira, a intensidade dessas mobilizações está relacionada ao vínculo emocional que os fãs desenvolvem com as celebridades. Em alguns casos, a imagem do artista passa a integrar a própria identidade do admirador.
“Quando o fã investe sua identidade pessoal na relação com o ídolo, qualquer crítica ao artista é sentida como um ataque a si próprio. Assim, defender o ídolo vira defender a si mesmo”, explica.
Ela define o fenômeno como “tribalismo identitário digital” e afirma que o comportamento em grupo e o anonimato diluem a responsabilidade individual, o que pode favorecer perseguições e reações agressivas.
Consultar contratos públicos é uma forma legítima de acompanhar o uso do dinheiro arrecadado. A legislação permite a contratação direta de artistas reconhecidos, desde que haja justificativa de preço, transparência e cumprimento das exigências legais. A fiscalização deve avaliar os valores, a clareza do processo e a realidade financeira do município. Quando a mobilização envolve informações falsas, ataques e pessoas próximas aos artistas, ela assume caráter de perseguição.
Os fandoms descobriram que podem pautar debates, pressionar marcas e jogar luz sobre gastos públicos. Essa força também exige responsabilidade. No tribunal das redes, o julgamento é rápido, mas a verdade nem sempre acompanha a velocidade do algoritmo.
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