El Niño chegou: o que o fenômeno tem a ver com a onda de calor em regiões de Minas
Fenômeno já influencia a dinâmica do clima e pode contribuir para ondas de calor e eventos extremos.

Jô Andrade
Repórter

El Niño pode influenciar na onda de calor nos estados brasileiros. Foto: Tânia Rego/Agência Brasil
Vários estados no Brasil já estão sofrendo diretamente os efeitos do fenômeno climático “El Niño”, que já vem sendo alertado por comunidades científicas em todo o mundo.
Com o aquecimento das águas do oceano que cobre a maior parte do planeta, o El Niño influencia o clima em diferentes regiões do planeta. Tanto o aquecimento como o resfriamento alteram a circulação atmosférica global e os padrões de chuva e temperatura.
Segundo nota técnica do Centro Nacional de Monitoramento e Alertas de Desastres Naturais (Cemaden), um dos efeitos mais preocupantes do fenômeno são as chuvas extremas, que podem causar deslizamentos de terra e enchentes no Sul do país, e a piora da seca nas regiões Norte e Nordeste.
Nas últimas semanas, houve registros de fortes ventos que atingiram Rio de Janeiro e São Paulo. O vendaval é chamado de “frente de rajada”, a ocorrência foi considerada incomum para esta estação do ano (inverno). Já no Rio Grande do Sul, várias comunidades sofreram com um ciclone-bomba, que deixou feridos, além de causar desmoronamentos, quedas de árvores, destelhamentos e queda de energia por vários dias.
Apesar do estrago, em ambos os casos ainda não é possível afirmar que o ciclone foi um efeito direto do El Niño. É o que explica o pesquisador e geógrafo Lucas Oliver, que afirma que o fenômeno não provoca, necessariamente, sistemas específicos como ciclones e ventania. No entanto, o El Niño influencia na onda de calor em várias regiões do Brasil.

Com o El Niño já alterando a dinâmica atmosférica, a tendência é que o segundo semestre seja marcado por mudanças importantes no tempo. Em Minas Gerais, um dos efeitos que mais chama atenção neste momento é justamente o calor fora de época. E, segundo Lucas, essa pode não ser a única onda de calor dos próximos meses.
Na última semana, Belo Horizonte registrou uma temperatura de 34,7°C, a maior marca do inverno e a segunda maior do ano e recorde histórico de agosto desde 1961. O recorde absoluto deste ano ainda é o que foi registrado no dia 1º de janeiro, quando a capital marcou 34,8°C.
“Estamos sofrendo com essa primeira onda de calor e a gente deve ter outras ao longo do segundo semestre. O El Niño em si não cria nada, mas tudo o que acontece agora vai ter influência dele. Ele é um amplificador de vários fenômenos, e muda a dinâmica climática de alguns locais”, afirmou.
A melhor forma de entender essa diferença, segundo o pesquisador, é pensar que o El Niño está sempre no meio do jogo, mas não necessariamente fazendo todos os gols. O fenômeno pode influenciar o resultado, sem ser o responsável direto por cada lance.
“É tipo como o Neymar enquanto estava na seleção. A partir do momento que o Neymar estava em campo, se o time ganhasse, seria porque o Neymar estava lá, e se perdesse, seria porque o Neymar estava lá. Ele vira o centro das atenções, independente do que aconteça. Então, com o El Nino acaba acontecendo isso, ele fica no meio e tudo parece ser intervenção dele”, disse.
E o calor que pegou muita gente de surpresa neste começo de agosto também entra nessa conta. Agosto pode, sim, ter dias quentes, mas a atuação do El Niño pode dar uma força para que essas temperaturas fiquem ainda mais altas.
“É possível ter uma onda de calor em agosto, apesar de não ser muito normal. Mas, como o El Nino já começou agora, no final de julho e começo de agosto, a atuar, a gente já está tendo aí efeitos dele nesse tipo de coisa”, explicou.
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