Enquanto BH olhava para os palcos, 186 catadores olhavam para o chão
Em meio às mais de 200 atrações da 11ª Virada Cultural, trabalhadores recuperaram mais de 4 toneladas de materiais recicláveis.

Ramon Chaia
Jornalista

Foto: ReciclaBelô/Divulgação
Há quem conte a Virada Cultural pelas atrações e pelo público que lotou as ruas. Mas também é possível contar a Virada pelo que aconteceu no chão. Pelas mãos de quem recolheu o que foi deixado para trás. Pessoas que fizeram parte da festa sem necessariamente aparecer no palco.
Durante as 24 horas de evento, 186 catadores participaram da operação do ReciclaBelô, programa de reciclagem popular e inclusão social voltado aos trabalhadores da coleta de materiais recicláveis. Foram 136 trabalhadores autônomos e 50 ligados a cooperativas e associações, divididos em duas equipes que circularam pelos espaços da Virada recolhendo materiais recicláveis.
O resultado foi o recolhimento de mais de 4 toneladas de resíduos que deixaram de ir para o aterro sanitário. Todo o material será destinado à Asmare (Associação de Catadores de Papel, Papelão e Materiais Reaproveitáveis), para ajudar na reconstrução da entidade após um incêndio recente que atingiu um galpão e transformar o lixo do evento em renda e recomeço.
Neli Medeiros, catadora e liderança da Coopersoli Barreiro, fala sobre o trabalho a partir de uma perspectiva que costuma ficar escondida atrás dos resíduos recolhidos pelas ruas.
“Enquanto catadora, eu gostaria que as pessoas me enxergassem como uma trabalhadora que está ali fazendo o seu trabalho, tirando do meio ambiente o que as pessoas não querem mais, o que as pessoas descartam de qualquer jeito, fazendo um bem pro planeta. Eu costumo dizer que eu sou médica do meio ambiente, porque eu que ajudo a limpar, a cuidar do nosso meio ambiente, ajudo no fator mudanças climáticas, que hoje tem afetado demais, né, a saúde da população. E eu faço um trabalho em prol de todas essas pessoas, ajudando a conservar, manter a nossa natureza, o nosso planeta mais limpo.”
A Virada Cultural de 2026 ocupou 18 espaços do hipercentro com mais de 200 atrações gratuitas. E, com uma programação desse tamanho, também aumentou a quantidade de resíduos produzidos.
Para dar conta da demanda, os catadores do ReciclaBelô atuaram no recolhimento pelas ruas e em três tendas de apoio. Além da remuneração média de R$ 220, receberam equipamentos de proteção, alimentação, água, transporte, sacos para coleta e identificação.
Para Juliana Gonçalves, assessora técnica do ReciclaBelô, a iniciativa ajuda a dar visibilidade a um trabalho que costuma passar despercebido.
“Os catadores já ocupam a cidade. Só que ninguém vê isso. A latinha tá ali e a latinha 'some'. Eu coloco o material reciclável na minha porta e 'some'. É muito invisível o trabalho dos catadores. Eles existem, eles estão trabalhando na cidade todos os dias, eles estão ali. E a gente precisa pensar nisso todos os dias do ano, não só em eventos.”
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