“Fizemos Sete Lagoas perder o medo do feminismo”: conheça a 6ª edição da Feira Feminista do Várias Marias
Sem financiamento próprio, evento reuniu várias expositoras e transformou a Praça Tiradentes em ponto de encontro entre mulheres
Alícia Lanna
Jornalista
5 min
Foto: Caroline Diniz
Teimosia também pode ser método político. Foi um pouco assim que a Feira Feminista de Sete Lagoas chegou à sexta edição. Quando o Coletivo Feminista Várias Marias resolveu colocar a palavra “feminista” no nome de um evento que ocuparia uma das principais praças da cidade, em 2019, não faltou conselho para suavizar a ideia.
“Algumas pessoas nos sugeriram que a Feira fosse Feira Feminina, não Feminista. Que não teríamos público, ou que enfrentaríamos mais dificuldade em fazer. Que Sete Lagoas não estava preparada para essa discussão”, relembra Maria Paula Monteiro, coordenadora do coletivo.
Elas não trocaram o nome. Sete anos depois, a Praça Tiradentes recebeu novamente, no último domingo (16), mulheres vendendo seus produtos, artistas ocupando o palco, crianças espalhadas pelas atividades e famílias passando o dia no centro da cidade. A sexta edição da Feira Feminista aconteceu das 10h às 20h e deu continuidade a um projeto que já abriu espaço para mais de 120 expositoras desde sua criação.
“A Feira chegou à sua sexta edição porque a gente é teimosa demais”, resume Maria Paula.
Mas a teimosia tem objetivo. A Feira surgiu para criar espaço para mulheres que trabalham por conta própria, muitas delas conciliando empreendedorismo, maternidade e uma rotina em que o emprego formal nem sempre cabe.
Maria Virgínia, expositora da quinta edição, realizada em 2024, encontrou justamente isso no evento. “Eu sentia falta de um espaço para gente que é mulher, empreendedora, mãe, que às vezes não consegue trabalhar fixo fora de casa, mas que quer trabalhar por conta própria. Espaços como essa Feira motivam a gente a buscar o nosso lugar e empreender, fazer o que a gente gosta de verdade”, conta.
A lógica é simples: colocar mulheres em contato com outras mulheres, fazer produtos circularem, criar relações e tentar manter parte do dinheiro movimentado pela cidade nas mãos de quem produz ali.
“Nosso grande objetivo é que as mulheres que são empreendedoras se conectem e se ajudem, que o dinheiro circule e que a população passe a priorizar a compra de produtos com elas, e não com grandes empresas e marcas”, explica Maria Paula.
Algumas das expositoras que estiveram presentes na Feira. Foto: Caroline Diniz
Muito além das barraquinhas
A programação deste ano reuniu Quartetto Vivace, Nana Andrade, Talita, Samba das Exaustas, Sarau da Lua, Clarissa Nadu, Anna Gabriella, do Inviktoz, e DJ Thaís Dias. Também participaram o Grupo de Capoeira Ginga de Sete Lagoas e as artistas visuais Karine Costa e Ana Wilke.
Parte dessas apresentações, segundo Maria Paula, acontece sem cachê. São artistas que topam entrar no projeto porque enxergam valor em ocupar o centro da cidade com uma atividade que não esconde seu nome, nem seu posicionamento.
Desde as primeiras edições, a Feira mantém um espaço kids gratuito e autogerido pelo próprio coletivo. Neste ano, houve oficinas de pintura em gesso e em tela, cupcake, pipa de mão e boneca Abayomi, além de pescaria e algodão-doce. A escolha não é mero detalhe de programação. Ter onde deixar os filhos por algumas horas também significa permitir que mães possam montar suas barracas, vender, conversar, circular e permanecer no evento.
“A Feira é um ambiente lotado de família. As crianças se divertem, amigos se encontram, curtem uma tarde gostosa na pracinha. Nunca tivemos briga, confusão”, afirma Maria Paula.
Espaço Kids. Foto: Caroline Diniz
A festa existe e resiste, mas com muito esforço
Por trás das barracas coloridas e da programação cultural existe uma estrutura que precisa ser reconstruída praticamente do zero a cada ano.
A Feira não possui financiamento próprio. Equipamentos e parte da estrutura são cedidos pela Prefeitura de Sete Lagoas, o que obriga o coletivo a retomar negociações a cada nova edição. O coletivo enfrenta dificuldades com o poder público, já que toda a estrutura é emprestada pela Prefeitura.
"Todo ano é uma nova labuta, com setores que trocam de chefia, estruturas que desaparecem, demandas inesperadas. A gente não desiste porque nossos sonhos são maiores do que a inércia do Estado”, relata Maria Paula.
E os planos cresceram junto com o evento. O coletivo quer realizar mais de uma edição por ano e sair do centro, ocupando também praças de outros bairros de Sete Lagoas. A ideia é fazer a Feira chegar a mulheres que ainda não participaram do projeto e ampliar também o acesso das crianças às atividades.
A atuação do Várias Marias, aliás, já extrapolou há tempos os limites da Praça Tiradentes. O coletivo ocupou a primeira presidência do Conselho Municipal dos Direitos da Mulher e participa de reuniões, audiências e debates na Câmara Municipal, levando suas reivindicações também para dentro dos espaços institucionais.
Ainda há muito terreno pela frente. Maria Paula cita a necessidade de fortalecer políticas públicas, ampliar a conscientização e enfrentar a violência contra as mulheres. Mas, olhando para trás, ela identifica uma mudança que talvez seja difícil de colocar em números: “Por isso que eu digo que nós fizemos Sete Lagoas perder o medo do feminismo.”
Talvez seja essa uma das imagens mais fortes deixadas pela Feira: uma palavra que, em 2019, disseram que poderia assustar estampada justamente no evento que hoje coloca mulheres, crianças, artistas, empreendedoras e famílias dividindo a mesma praça.
Sem dinheiro próprio, com muito trabalho e alguma dose de teimosia, elas seguem fazendo uma coisa aparentemente simples, mas profundamente importante: ocupando a cidade e mostrando o que é o feminismo.