Já que agosto chegou… é festa! Conheça a tradição da Festa de Agosto em Montes Claros
Com fitas coloridas, muita música e comida, a celebração se estende do dia 11 ao dia 16 de agosto.

Alícia Lanna
Jornalista

Foto: Reprodução/Prefeitura de Montes Claros
“Já que agosto chegou, meu amor, eu quero te encontrar”. O trecho de “Brilho do Leão”, da banda Rosa Neon, escrita por Luiz Gabriel e Marina Sena, combina com a chegada de agosto em Montes Claros. A cantora norte mineira, que morou na cidade por algum tempo, se remete às tradicionais Festas de Agosto, que começam hoje (11) e reúnem música, dança, religiosidade e diferentes matrizes culturais que fazem parte da formação histórica da região.
Com registros que remontam a 1838, a festa tem como protagonistas três grupos tradicionais: os Catopês, os Caboclinhos e os Marujos. Os grupos culturais percorrem as ruas da cidade em homenagem a Nossa Senhora do Rosário, São Benedito e ao Divino Espírito Santo, e atraem uma multidão de moradores e turistas para acompanhar o cortejo tradicional.
Os Catopês representam uma das principais expressões da presença e da ancestralidade negra nas Festas de Agosto. A tradição possui referências ligadas às culturas africanas, especialmente à região do Congo, e é marcada pelos tambores, cantos, danças e pelos trajes ornamentados com fitas e penas. Eles costumam usar as roupas nas cores branca, azul ou rosa, e fitas e penas coloridas penduradas na coroa.
João Pimenta dos Santos, o Mestre Zanza, foi um dos principais responsáveis pela preservação e continuidade das manifestações tradicionais de Montes Claros e um dos grandes símbolos dos Catopês. Zanza dedicou a vida à festa, atuando na organização dos grupos e na transmissão dos conhecimentos e tradições entre gerações. Ele morreu em 2021, aos 88 anos, deixando um importante legado para o filho, Zanza Júnior, que dá continuidade à tradição.
Os Caboclinhos representam outra matriz importante da celebração: a indígena. Os integrantes utilizam trajes ornamentados com penas e realizam danças e movimentos que remetem às culturas dos povos originários.
A manifestação contribui para preservar, dentro da festa, referências à presença indígena na formação cultural da região. Assim como os Catopês, os Caboclinhos carregam conhecimentos e práticas transmitidos ao longo das gerações.
Os Marujos completam o conjunto das manifestações tradicionais das Festas de Agosto. Com trajes predominantemente vermelhos, brancos e azuis, o grupo apresenta elementos relacionados às tradições luso-espanholas e às antigas representações das navegações.
A presença dos Marujos em uma cidade localizada no interior do sertão mineiro mostra como diferentes referências culturais foram incorporadas e ressignificadas pelas comunidades locais ao longo do tempo.
Originalmente, Catopês, Caboclinhos e Marujos não participavam da mesma programação. As manifestações aconteciam em períodos diferentes do ano: a marujada em maio, os catopês em agosto e os caboclinhos em outubro. Eles se dividiam nas celebrações a Nossa Senhora do Rosário, São Benedito e Divino Espírito Santo. A organização conjunta das celebrações começou no início do século XX, durante o período do primeiro bispo da Diocese de Montes Claros, Dom João Antônio Pimenta.
A partir daí, os grupos passaram a ocupar as ruas em dias próximos, formando o conjunto das Festas de Agosto como a celebração conhecida atualmente.
O resultado é uma manifestação que reúne diferentes referências culturais em um mesmo espaço: a ancestralidade africana dos Catopês, as referências indígenas dos Caboclinhos e as influências europeias dos Marujos.
É justamente essa mistura que ajuda a explicar a importância das Festas de Agosto para Montes Claros. A celebração não é apenas uma festa religiosa ou um evento do calendário cultural. É também uma forma de preservar a memória, transmitir conhecimentos entre gerações e afirmar a diversidade cultural que compõe a identidade norte-mineira.
Durante os festejos, os tambores, cantos e cortejos tomam as ruas da cidade. O que se vê é uma tradição que continua sendo praticada no presente sem deixar de carregar consigo quase dois séculos de história.
Em agosto, Montes Claros se transforma em palco dessa memória. E, por alguns dias, a cidade revela nas ruas uma parte fundamental de sua própria identidade: negra, indígena, sertaneja, religiosa e profundamente norte-mineira.
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