Nos caixas de supermercado, nas casas lotéricas, nos aplicativos de entrega ou nos shoppings, o trabalhador brasileiro é responsável por ocupar esses e outros tantos postos que exigem a escala de trabalho 6x1 (seis dias de trabalho por um de descanso). Esse tipo de jornada é mais comum entre trabalhadores de baixa renda, especialmente nas áreas de comércio, serviços e atendimento ao público.
Esse tipo de escala costuma atingir quem tem menos poder de negociação no mercado de trabalho. Essas pessoas enfrentam longas horas em pé, pressão por produtividade e dificuldade para conciliar o emprego com a vida pessoal. Nesse cenário, a escala 6x1 acaba se tornando não apenas uma forma de organização do trabalho, mas também um retrato das desigualdades no país.
E no fim das contas, quem tem direito à qualidade de vida e ao descanso? Certamente, não são os que estão na base da pirâmide, submetidos à escalas de trabalho maçantes.
Na última semana, o presidente Lula (PT) enviou o PL do fim da jornada 6x1 em caráter de urgência para a Câmara dos Deputados e acendeu mais uma vez o debate sobre como esses trabalhadores podem ter qualidade de vida dentro de uma rotina que mal permite dar conta dos afazeres do dia a dia.
A proposta de lei começou com o movimento VAT (Vida Além do Trabalho) e ganhou força com a PEC 221/2019 avançando na CCJ da Câmara. A proposta busca reduzir a jornada de trabalho, mas ainda caminha a passos lentos por causa de figuras do mercado e do setor produtivo, que falam em aumento de custos e queda na produtividade como forma de boicote à proposta.
De acordo com o Ministério do Trabalho, ao menos 33,2% dos empregos no Brasil estão na escala 6x1. Os demais 66,8% cumprem 40 horas semanais e tendem à jornada 5x2. São quase 30 milhões de pessoas fazendo 40 horas semanais, em cinco dias de trabalho, e cerca de 20 milhões trabalhando seis dias por semana, com 44 ou mais horas de jornada semanal.
Ainda segundo o Ministério, a redução da jornada de trabalho para 40 horas por semana, sem alteração nos salários dos trabalhadores, teria um impacto sobre a massa de rendimentos no Brasil de apenas 4,7%. Segundo o governo, esse pequeno percentual é um custo que a economia brasileira consegue arcar.
Viver além da produtividade
Números da Organização Internacional do Trabalho (OIT) mostram que, entre 175 países, o Brasil ocupa a 86ª posição entre as nações mais produtivas do mundo, considerando a produtividade por hora trabalhada. O país fica atrás de grandes economias como Estados Unidos (12º), Alemanha (13º) e Reino Unido (22º), além do Chile (53º), Argentina (55º), México (81º) e até mesmo de Cuba (82º). No topo da lista estão Irlanda, Luxemburgo e Noruega.
Mesmo com uma escala extremamente exaustiva, o Brasil não consegue ficar nem entre os 50 países mais produtivos do mundo, mostrando que a produtividade não está ligada apenas à longa carga horária.
A vendedora Thaís Oliveira*, de 22 anos, entrou no mercado de trabalho formal aos 18 e, como grande parte dos jovens nessa idade, seu primeiro emprego foi no setor de comércio. O horário de trabalho era de 12h às 21h, trabalhando seis dias e folgando um. Passava horas em pé, lidando com o público e trabalhando por um salário mínimo; sua rotina era basicamente viver no supermercado.
“Era bem puxado, porque além de passar muitas horas em pé, também lidava diretamente com movimento intenso e cobrança. Minha rotina era basicamente acordar, me arrumar para o trabalho, passar o dia inteiro lá e chegar em casa à noite já cansada”, disse.
No texto, o projeto do fim da escala 6x1 também propõe que as duas folgas semanais sejam, de preferência, aos sábados e domingos, sem que haja redução nominal ou proporcional dos salários, nem alteração dos pisos salariais.
Para Thaís*, que atualmente trabalha em um centro comercial em Belo Horizonte e ainda lida com a escala exaustiva de apenas uma folga na semana, permitir que o empregado tenha dois dias de descanso é dar a ele condições de ter uma vida além do trabalho. Afinal, poder conviver com os pais, estar presente nos almoços de família, conseguir ter tempo para estudar outro idioma e até mesmo poder ir ao cinema não deveria ser raro nem luxo. É um direito básico.
“Como [no supermercado] a folga não era fixa, ficava mais difícil organizar a vida ou aproveitar o tempo com outras pessoas. Isso atrapalhava bastante a vida pessoal, principalmente para estar com quem eu gosto, já que quase nunca coincidia com a folga delas. Para conciliar, eu tentava aproveitar pequenos momentos, como conversar, ver alguém quando dava, fazer coisas simples… mas tive que aprender a lidar com a frustração de não conseguir estar presente em tudo”, contou Thaís*.
‘Um emprego que limitava minha vida’
A confeiteira Flávia Faria, de 33 anos, já trabalhou como vendedora em shopping e atendente em um comércio. Esses postos costumam ter alta demanda por funcionários, seja pela baixa remuneração ou pela jornada intensa.
A rotina se resumia a casa e trabalho, sendo que o único dia de folga não era suficiente para resolver todas as necessidades da vida adulta. Para muitos trabalhadores, especialmente mulheres, o expediente não termina ao sair do trabalho: ele continua em casa, com tarefas domésticas e cuidados com filhos ou familiares.
Essa sobrecarga impacta diretamente a saúde física e mental, reduzindo o tempo de descanso e lazer. Em uma rotina já exaustiva, trabalhar seis dias seguidos aprofunda o desgaste e limita qualquer possibilidade de equilíbrio.
“Era uma rotina bem pesada, porque, por mais que às vezes você trabalhe seis ou oito horas por dia, o que algumas pessoas consideram pouco, você não consegue resolver tudo que precisa no tempo livre. Por exemplo, você tem folga na segunda, então já tenta marcar exames e resolver problemas nesse dia, mas às vezes ainda não é suficiente. Algumas consultas acabam ficando perdidas ou são deixadas para depois”, disse a confeiteira.
Uma pesquisa promovida pelo Sindicato dos Comerciários e pelo Observatório do Estado Social Brasileiro, em 2025, revelou que 54,57% dos empregados submetidos à escala 6x1 são mulheres. O estudo ouviu 3.775 trabalhadores em mais de 400 municípios do país.
Em outro levantamento, desta vez da Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios Contínua (PNAD Contínua) do IBGE (2022), 92,1% das mulheres com 14 anos ou mais afirmaram realizar outras formas de trabalho — como cuidados com pessoas, afazeres domésticos, produção para o próprio consumo e trabalho voluntário. O recorte racial também aparece nesse cenário, já que mulheres pretas apresentaram a maior taxa de realização dessas tarefas, atingindo 92,7%.
“Infelizmente ainda existem empregadores que acham que o funcionário não tem uma vida além do trabalho. É como se o empregador jogasse no trabalhador a responsabilidade de manter o negócio ativo, enquanto ele mesmo segue vivendo sua vida. Nem tudo é culpa ou obrigação do funcionário. E a gente vê muito disso em alguns patrões, que acham que, para o lugar continuar em pé, depende só do funcionário — e não é assim.”
* Para evitar exposição e possíveis retaliações, o nome de uma das entrevistadas foi alterado.