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    Lohanna França defende diversidade de ideias: “Pensar diferente não é eufemismo para cometer crime"

    Em entrevista, a parlamentar aborda a sub-representação feminina, defende a democracia e critica a radicalização política.

    Jô Andrade

    Jô Andrade

    Repórter

    11 min26 de março de 2026
    Lohanna França defende diversidade de ideias:  “Pensar diferente não é eufemismo para cometer crime"

    Deputada Estadual Lohanna França. Foto: Luiz Santana

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    Jovem, professora e defensora da educação pública e dos direitos das mulheres, a deputada estadual Lohanna França (PV) foi eleita para seu primeiro mandato na Assembleia Legislativa de Minas Gerais em 2022, com mais de 67 mil votos. Nascida no Espírito Santo e criada em Minas Gerais, construiu sua trajetória política em Divinópolis, onde foi a vereadora mais jovem e mais votada da história da cidade.

    Nesta semana, o Xôtifalá publica uma série de reportagens com algumas das mulheres que fazem, ou já fizeram, parte da política institucional de Belo Horizonte e Minas Gerais.

    Na Assembleia Legislativa de Minas Gerais (ALMG), Lohanna exerce seu primeiro mandato como deputada e ocupa posições de destaque, como líder da bancada feminina, além de vice-presidir as Comissões de Defesa dos Direitos da Mulher e de Ética e Decoro Parlamentar, e integrar a Comissão de Cultura. Leia a seguir a entrevista ao Xôtifalá.

    Para você, o que é ser uma mulher atuante na política institucional?

    Quando eu penso nas dificuldades que nós, enquanto mulheres na política, vivemos, eu não posso deixar de pensar que parece que eu estou reclamando de barriga cheia. Porque, com certeza, as mulheres que vieram antes de mim sofreram muito mais. Pensa, por exemplo, o que foi o mandato parlamentar da Jô Moraes, quando ela esteve como deputada estadual, depois como deputada federal. A impressão que eu tenho é que essas mulheres tiveram que correr muito para hoje a gente poder caminhar mais rápido, sabe? Só que tem gente que faz essa trajetória no parlamento deitada em berço esplêndido, que é o caso dos homens. Então, ao mesmo tempo que eu fico pensando que as nossas reclamações às vezes podem parecer de barriga cheia, eu também me pego refletindo se a gente não faz as reclamações por comparações muito simples, com a realidade que os colegas homens vivem.

    Uma coisa que a gente pode dizer com certeza sobre as mulheres no parlamento é que são todas mais eficientes. O mandato feminino costuma ser muito mais eficiente do que o mandato padrão dos homens. Eu estou aqui dizendo que os homens são ruins de serviço? Não. Mas eu estou dizendo que nós mulheres estamos tão acostumadas a termos que nos provar em absolutamente tudo, que a gente faz mandatos de excelência. As mulheres de direita representam as pautas delas e do público delas com excelência. As mulheres progressistas, a mesma coisa. As mulheres de centro e municipalistas, a mesma coisa. Então, se eu tivesse que resumir como é ser mulher da política e estar nesse mandato, no mandato institucional, eu diria que a gente tem primeiro uma perspectiva permanente de ter que se provar, mas também uma permanência desse tom de que esse lugar não é para a gente.

    Como ajudar a construir um futuro mais feminino na política?

    Acho que tem duas respostas para isso. Uma é mais pragmática, mais prática. E outra é mais filosófica. A mais pragmática é a gente garantir que os mecanismos que a gente tem em lei para fomentar mulheres no espaço de poder sejam executados. Então, não adianta eu ter a lei falando que 30% da chapa é de mulher se eu tenho mulher “laranja”. Não adianta o avanço que foi falar que 30% do fundo tem que ser para essas candidaturas, porque antes os homens colocavam a gente na chapa e não colocavam um real pra gente. Ou seja, a gente não ganhava do mesmo jeito.

    Acho que a gente também precisa avançar naquela proposta legislativa de mínimo de cadeiras para eleitas. Porque aí eu entendo que assim, a gente vai ter um avanço efetivamente quando a gente conseguir garantir que o mínimo do parlamento vai ser das vozes femininas. Hoje, essa é uma realidade distante. A gente tá com 18% do parlamento mais ou menos em média de federal, estados e municípios composto por mulheres. Leis a gente tem, essas leis tem que ser cumpridas. Tem que ser fiscalizadas, os partidos têm que ser punidos caso não cumpram com elas. Não dá pra ficar aprovando a anistia toda eleição para partido que não cumpriu a cota de mulher.

    Para além disso, a coisa mais filosófica é que eu acho que a política tem que ser um espaço menos violento pra gente. Ninguém da minha família gostaria que eu estivesse na política. Eles todos me apoiam, me abraçam, porque eu tenho uma família maravilhosa que sonha em meus sonhos comigo. Mas se fosse decisão deles, eu não estaria. Eu acho que, enquanto a política for esse espaço tão violento, a gente não vai fazer com que as mulheres queiram participar.

    Pensa bem, as coisas que a gente observa acontecerem com as mulheres todos os dias, fazem com a gente pensar… E se a sua mãe quiser ser candidata, você vai gostar da ideia? Você vai querer que a sua mãe passe pelo que a vereadora Cida Falabella passa? Pessoas chamando ela de velha, ofendendo de todo jeito possível. Não tem como. Para isso acontecer, é preciso que esse espaço seja um lugar em que as mulheres queiram estar, ele não pode ser o espaço que a gente tem medo.

    Como é para você estar nesse lugar em um momento tão polarizado na política nacional? Como aprovar projetos que esbarram em diferentes tipos de ideologia política?

    Eu sempre gosto de fazer o discurso de que não tem o equivalente de polarização. Porque quando a gente usa a palavra polarização, fica parecendo que esquerda e direita se agridem da mesma forma, e isso não é justo. Não quer dizer que não tenha gente agressiva e violenta no campo progressista. Claro que tem. Mas eu acho que é importante a gente dizer que o campo da extrema direita fala de metralhar o campo da esquerda. A gente quer só ganhar a eleição desse povo, é só isso. Eu não tô querendo metralhar ninguém. Não quero matar ninguém.Então, assim, acho que tem uma diferença muito grande entre a forma como um campo se coloca antagonista ao outro.

    Agora, a segunda coisa é a parte legal da política que traz a possibilidade da gente construir projetos em conjunto. E isso é mais ainda no parlamento. Se a gente só construir com quem pensa igual, a gente precisa urgentemente mudar para um país que seja monarquia ou que seja ditadura. Porque esse país fez uma opção democrática em 1988, refez e reafirmou essa opção democrática em 2022, quando expulsou o Bolsonaro do Palácio do Planalto porque ele não respeitava esses ditos.

    Então, esse país é uma democracia. Sendo uma democracia, a gente decidiu conviver respeitosamente com quem pensa diferente. Pensar diferente não é eufemismo para quem comete crime, para fascista, para misógino, para racista. Com essas pessoas, realmente, não tem condição de dialogar, né? Elas merecem o Código Penal aplicado. Ponto. Agora, eu acho que a gente está vivendo um momento muito difícil, onde inclusive o nosso campo é muito pouco racional nesse aspecto.

    Eu tenho muito orgulho de ser uma parlamentar que dialoga com quem está no centro, com quem está no centro-direita, com quem é democrata. E eu acho que no dia que a gente perder essa capacidade, a gente perde a oportunidade de aprovar uma política pública relevante. Porque você acha que a geração do imposto de renda teria sido aprovada só com o nosso campo? Não teria. Prouni teria sido feita só com o nosso campo? Não teria. Mais médicos teriam sido feitos só com o nosso campo? Reforma tributária? Nada disso. Todas essas grandes conquistas do país foram conquistas que extrapolaram a nossa bolha e, por isso, elas têm defesa e retorno à sociedade.

    Quais são suas principais bandeiras? Quais pautas são mais caras para você?

    Eu sou professora do ensino fundamental, então a educação é a minha principal bandeira, mas a gente trabalha muito na cultura, na defesa das mulheres, da diversidade como um todo e também na defesa do meio ambiente. Então, você não luta pelo SUS? Claro que eu luto pelo SUS, claro que eu luto pela segurança pública, mas ninguém dá conta de fazer tudo e eu não tenho esse delírio de achar que eu vou dar conta.

    E aqui eu coloco diversidade não só para a gente falar de pessoas negras, porque eu entendo que como pessoa branca eu tenho que ganhar um privilégio nessas pautas, não só, por exemplo, na questão das pessoas LGBT+, mas também na questão da inclusão das pessoas com deficiência. Ou a gente vai construir uma Minas Gerais que respeita todo mundo, ou isso é uma fantasia de democracia que a gente está plantando aqui.

    Na cultura, a gente votou muito para impedir o bloqueio do Fundo Estadual de Cultura. São coisas que orgulham muito a gente e que eu fico muito satisfeita por poder trabalhar nessas causas. É muito bom você conseguir ver esse trabalho logo de cara. Só a gente sabe o trabalho que deu, e tem que engolir uns sapos no caminho. Porque é melhor ser feliz do que ter razão. Eu quero ser feliz, e aprovar nossos projetos.

    Vemos acontecer com muita frequência um certo “grupo” de parlamentares de extrema direita tentar emplacar projetos inconstitucionais, principalmente em BH. Como você vê a atuação dessas figuras que acabam consumindo tempo e dinheiro público em propostas que não deveriam existir?

    O parlamentar tem prerrogativa para fazer essas coisas. O que eu acho é que existem três grandes filtros que ele vai ter que passar para aprovar, por exemplo, uma lei que proíba crianças no carnaval. A primeira coisa é o próprio processo legislativo. Ele vai conseguir caminhar com aquilo dentro do poder legislativo? Se ele conseguir caminhar, tem algumas coisas para observar. No mínimo, o presidente da Câmara fez alguns compromissos com ele, o presidente das comissões. E a gente precisa entender é porque alguém de um campo tão extremista está tendo tanto espaço?

    O segundo aspecto que eu acho que é um filtro que essa pessoa vai estar submetida é em relação ao judiciário. O judiciário precisa ser firme para poder barrar essas coisas. As ações diretas de constitucionalidade precisam trazer resultados. Por exemplo, quando eu era vereadora em Divinópolis, eu fui a única vereadora, eu era presidente da Comissão de Educação a votar contra e orientar a voto contra o projeto de um vereador que proibia a linguagem neutra em Divinópolis. O projeto era obviamente constitucional. E aí eu falei com a Câmara, vocês vão passar vergonha e o judiciário vai derrubar a lei. E aconteceu exatamente o que eu falei que ia acontecer.

    O terceiro filtro que eu entendo que a sociedade passa, que tem pra esse parlamentar, é a sociedade. E esse é o mais importante de todos. Por quê? Porque a sociedade vai escolher se ela vai votar em alguém que fica fazendo coisa inconstitucional ou não. Porque mesmo se você for uma pessoa de direita e quiser aprovar coisas de direita que agradem o seu aspecto político, você não precisa fazer coisa inconstitucional pra isso. E já vai ter briga boa entre os progressistas e as pessoas mais conservadoras. A população precisa ter e treinar essa capacidade de analisar esse tipo de projeto que é apresentado.

    E pensando nesse futuro com mais mulheres no parlamento, como trazer os homens para essa conversa?

    Eu entendo que essa é uma das necessidades mais urgentes. Acho que isso, necessariamente, passa pelos nossos “homens de confiança”. Porque os homens que estão ao nosso redor, os nossos namorados, os nossos maridos, os nossos pais, os nossos irmãos, esses homens têm uma obrigação muito grande de entender que se eles amam a gente e querem a nossa segurança, eles precisam atuar e precisam se comportar de forma a garantir a mesma coisa pras outras mulheres ao redor deles.

    A gente tem, por exemplo, na figura do Tadeu Leite (presidente da Assembleia Legislativa de Minas Gerais), alguém comprometido com esses direitos. Alguém que segura essas pautas. Alguém que não deixa pautas de retrocesso avançarem. Então, de novo, eu discordo, por exemplo, da privatização da Copasa e da forma como foi conduzido o processo, por exemplo, mas eu acho que é importante que a gente recupere a capacidade de ver as pessoas de forma completa.

    Entendendo que se dá mais pra construir ou menos para construir. Ele (Tadeu), na minha opinião, é um exemplo de que dá muito mais para construir do que não. É uma ou outra pauta que eu não consigo construir com ele, o resto, a gente precisa, a gente deve e a gente pode construir sim. Foi sob a presidência dele, por sinal, que a gente aprovou o primeiro estado do Brasil a ter um projeto sobre violência política de gênero.

    Então, eu acho que é importante a gente não perder essa visão do povo. Porque senão só serve pra gente que pensa igual a gente. E o que é mais engraçado, é que nem a gente pensa igual ao que pensávamos cinco anos atrás. Se a gente tá tendo um problema grande aqui com feminicídio em Minas Gerais, por exemplo, e a gente não tem os homens no diálogo, como que a gente vai construir um futuro mais seguro para as mulheres? Eles também precisam participar disso.

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    Jô Andrade

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    Jornalista especialista em textos pela UFMG, com passagens pelos veículos g1, BHAZ e Sou BH. Experiência em jornalismo digital, reportagem e edição de conteúdo.

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