Lula enfrentará os Estados Unidos nas urnas
Tarifas, sanções e pressão diplomática colocam os Estados Unidos como ator direto da disputa presidencial brasileira.

Laura Sabino
Colunista

Foto: Reprodução
Os Estados Unidos já entraram na eleição presidencial brasileira de 2026. Não se trata de uma teoria da conspiração nem de uma hipótese sobre o que Donald Trump poderá fazer nos próximos meses. A interferência já começou e pode ser demonstrada por decisões oficiais do governo norte-americano. Washington utilizou tarifas comerciais para pressionar o Estado brasileiro em defesa de Jair Bolsonaro, aplicou sanções e restrições de vistos contra autoridades brasileiras, atacou ministros do Supremo Tribunal Federal, tentou enviar representantes do Departamento de Estado ao Brasil para discutir justamente o sistema eleitoral poucos meses antes da votação e, depois de ter a entrada negada, revogou o visto da embaixadora brasileira em Washington, Maria Luiza Ribeiro Viotti. O próprio governo Lula respondeu afirmando que havia uma tentativa de interferência na eleição presidencial.
Quando esses episódios são observados isoladamente, sempre existe uma justificativa diplomática para cada um deles. Quando colocados lado a lado, revelam uma política.
A melhor maneira de compreender o que está acontecendo no Brasil, no entanto, é olhar para o restante da América Latina. Nos últimos meses, Donald Trump abandonou qualquer constrangimento em relação à política tradicional dos Estados Unidos para o continente. Sua administração passou a apoiar candidatos estrangeiros de maneira explícita, condicionar relações econômicas ao resultado de eleições e apresentar vitórias de aliados como vitórias dos próprios Estados Unidos. Mais do que isso, transformou essa postura em política oficial ao recuperar a Doutrina Monroe como referência para sua estratégia hemisférica.
A Estratégia de Segurança Nacional publicada pela Casa Branca em 2025 afirma que os Estados Unidos irão "reafirmar e fazer cumprir a Doutrina Monroe para restaurar a preeminência americana no Hemisfério Ocidental". Não se trata de uma interpretação de historiadores ou de uma leitura feita por adversários de Trump. É um documento oficial do governo norte-americano. Pouco depois, o próprio Trump comemorou o aniversário da Doutrina Monroe afirmando que ela continuava "viva e bem", enquanto Mauricio Claver-Carone, um dos principais responsáveis pela política latino-americana da administração republicana, resumiu essa visão ao afirmar que a América Latina é "o nosso quintal". As duas declarações dizem a mesma coisa em linguagens diferentes: Washington voltou a reivindicar para si uma posição de tutela política sobre o continente.
É justamente dentro dessa lógica que as recentes eleições latino-americanas precisam ser observadas. Na Argentina, Trump mostrou que está disposto a utilizar o peso econômico dos Estados Unidos para influenciar processos eleitorais. Às vésperas das eleições legislativas de 2025, Javier Milei governava um país profundamente dependente do apoio financeiro de Washington. Em vez de manter uma posição de neutralidade diplomática, Trump declarou que os Estados Unidos deixariam de ser "generosos" com a Argentina caso Milei fosse derrotado. A frase deveria ter provocado um escândalo internacional muito maior do que provocou. O presidente da maior potência econômica do planeta informava aos eleitores argentinos que a continuidade da ajuda financeira poderia depender do resultado das urnas.
Esse episódio é importante porque mostra que interferência eleitoral não começa quando uma urna é adulterada. Ela começa quando uma potência utiliza sua capacidade econômica para alterar as condições em que outra sociedade toma decisões políticas. Se bilhões de dólares podem continuar entrando em um país caso determinado grupo permaneça no poder, ou desaparecer caso outro grupo vença, essa pressão já faz parte do ambiente em que os eleitores exercem seu voto. Os argentinos continuaram votando livremente, mas o cenário em que exerceram essa liberdade havia sido modificado por uma intervenção externa.
Na Colômbia, Trump foi ainda mais longe. Durante a campanha presidencial de 2026, declarou seu "apoio completo e total" a Abelardo de la Espriella, classificou seu adversário, Iván Cepeda, como um "marxista da esquerda radical" e afirmou que o resultado daquela eleição seria decisivo para o futuro das relações entre Colômbia e Estados Unidos. Dias depois, prometeu ampliar a cooperação militar com Bogotá caso Espriella fosse eleito e anunciou um novo plano de combate ao narcotráfico e aos grupos armados. Pela primeira vez em décadas, um presidente norte-americano não apenas demonstrava preferência por um candidato latino-americano, mas vinculava publicamente a relação bilateral ao resultado da eleição.
Depois da vitória de Espriella, Trump foi além e afirmou que aquela havia sido "uma grande vitória para os Estados Unidos". A escolha das palavras é reveladora. Não se tratava apenas da vitória de um aliado ideológico, mas de uma conquista apresentada como pertencente ao próprio governo norte-americano. Lida isoladamente, essa declaração poderia parecer apenas mais uma provocação de Trump. Lida ao lado do "Corolário Trump" à Doutrina Monroe, ela assume outro significado. A Casa Branca afirma oficialmente que pretende restaurar a preeminência dos Estados Unidos no Hemisfério Ocidental e, ao mesmo tempo, passa a tratar a eleição de governos aliados como vitórias da política externa norte-americana. Não são acontecimentos desconectados, mas partes de uma mesma estratégia.
A Venezuela representa o estágio mais extremo dessa política. Durante anos, os Estados Unidos submeteram o país a um extenso regime de sanções econômicas, bloquearam ativos, restringiram operações financeiras, dificultaram a comercialização de petróleo e reconheceram Juan Guaidó como presidente interino, mesmo sem que ele tivesse sido eleito para a Presidência. Nada disso exige ignorar os graves problemas do governo Nicolás Maduro ou negar a deterioração política e econômica venezuelana. A questão é outra: nenhum desses problemas concede aos Estados Unidos o direito de decidir quem governa um outro país. Contudo, uma operação militar norte-americana retirou Nicolás Maduro e Cilia Flores do território venezuelano e os levou para os Estados Unidos. Pouco tempo depois, Washington reorganizava suas relações com o petróleo venezuelano e comemorava o aumento das exportações para refinarias norte-americanas.
A formula parece pronta: primeiro vêm as sanções, depois o isolamento diplomático, em seguida a intervenção direta e, por fim, a reorganização das relações econômicas segundo os interesses estratégicos dos Estados Unidos. Independentemente do julgamento que cada um faça sobre Maduro, trata-se de um precedente que revela até onde os EUA estão disposto a ir quando considera que um governo latino-americano deixou de atender aos seus interesses.
É nesse contexto continental que o Brasil se aproxima de sua eleição presidencial. E os sinais de interferência começaram antes mesmo da campanha. Ao anunciar tarifas de 50% sobre produtos brasileiros, Trump relacionou publicamente a decisão ao julgamento de Jair Bolsonaro e escreveu que o processo contra o ex-presidente deveria "acabar imediatamente", acrescentando que demonstrava sua desaprovação por meio da própria política tarifária, usando o peso econômico da maior economia do mundo para pressionar o funcionamento do Poder Judiciário brasileiro em defesa de um aliado político. Não era uma crítica diplomática, mas a utilização explícita de instrumentos econômicos para produzir efeitos sobre decisões internas do Estado brasileiro.
Outro elemento importante dessa escalada foi a decisão do governo Trump de classificar o Primeiro Comando da Capital (PCC) e o Comando Vermelho (CV) como organizações terroristas. Evidentemente, ninguém precisa minimizar a violência do crime organizado para compreender a dimensão política da medida. Ao enquadrá-las na legislação antiterrorismo dos Estados Unidos, Washington amplia sua capacidade de bloquear ativos, aplicar sanções, perseguir fluxos financeiros e reivindicar competência sobre um problema que pertence, antes de tudo, à segurança pública brasileira. O episódio reforça uma tendência mais ampla: questões internas do Brasil passam a ser incorporadas à arquitetura de segurança nacional dos Estados Unidos, ampliando sua margem de atuação política sobre o país.
Por isso, a eleição brasileira de 2026 não colocará em disputa apenas dois projetos nacionais. Lula enfrentará um campo político que possui aliados poderosos fora do Brasil e que conta com o apoio explícito do governo da maior potência econômica e militar do planeta. Interferências eleitorais nunca significaram apenas fraude nas urnas. Um país soberano também deve ser capaz de escolher seu governo sem sofrer ameaças econômicas, pressões diplomáticas ou interferências políticas de uma potência estrangeira interessada no resultado. Em 2026, portanto, Lula não enfrentará apenas a oposição brasileira. Pela primeira vez desde a redemocratização, um presidente brasileiro disputará uma eleição sob a atuação aberta de um governo norte-americano que já demonstrou, em diferentes países da América Latina, estar disposto a utilizar seu poder econômico, diplomático e político para influenciar quem governa o continente.
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