Mais uma morte, o mesmo cenário: mulher trans é assassinada no Sul de Minas
Um policial militar confessou o assassinato e a ocultação do cadáver.

Alícia Lanna
Jornalista

Foto: Reprodução: EPTV
Maryna Colucci de Jesus tinha 34 anos. Era professora de educação infantil, conselheira tutelar em Jacuí, no Sul de Minas, e dedicava parte da rotina à proteção de crianças e adolescentes. Também era uma mulher trans.
Na última sexta-feira (21), Maryna saiu de casa e não voltou. Quatro dias depois, na terça-feira (25), seu corpo foi encontrado enterrado em uma área rural entre Jacuí e Fortaleza de Minas. O local foi indicado à polícia por José Sérgio de Oliveira, sargento da Polícia Militar e apontado como suspeito do crime.
Segundo o delegado Marcos Pimenta, chefe do 18º Departamento da Polícia Civil, o militar afirmou aos investigadores que houve uma desavença seguida de um disparo de arma de fogo e indicou onde havia enterrado o corpo. Uma arma foi apreendida e deverá passar por perícia. O policial foi preso inicialmente por ocultação de cadáver, e a Polícia Civil pediu a prisão preventiva pela suspeita de envolvimento no feminicídio (o caso ainda não está sendo tratado como transfeminicídio).
A Polícia Militar informou que abriu procedimento administrativo para apurar a conduta do integrante da corporação e avaliar sua permanência na instituição.
A morte de Maryna provoca comoção em uma cidade pequena, mas está longe de ser um caso isolado no estado. Em Minas, mulheres trans têm sido encontradas mortas dentro de casa, executadas em avenidas movimentadas e espancadas em plena luz do dia. O endereço muda. O nome muda. A violência continua.
Dimensionar essa violência ainda é um desafio. Não há um empenho do poder público em monitorar e contabilizar esses casos.
A Rede Trans Brasil registrou nove homicídios de pessoas trans e travestis em Minas Gerais durante 2025 e apontou o estado como aquele com o maior número de casos no país naquele ano.
Já a Associação Nacional de Travestis e Transexuais (ANTRA), utilizando metodologia própria, identificou oito assassinatos no mesmo período. Nesse levantamento, Minas aparece empatada com o Ceará no topo do ranking nacional.
O Brasil ainda não possui uma base oficial, nacional e unificada capaz de dimensionar com precisão a violência letal contra pessoas trans. A própria ANTRA explica que, diante da subnotificação e das dificuldades de acesso aos registros estatais, notícias publicadas pela imprensa, dados de organizações locais e informações reunidas pela sociedade civil continuam sendo fontes fundamentais para investigar os crimes.
O Brasil, segundo a ANTRA, continua sendo o país com o maior número de assassinatos de pessoas trans no mundo, sobretudo travestis e mulheres trans.
É nesse contexto que a morte de Maryna precisa ser observada.
A investigação ainda deverá dizer o que aconteceu naquela área rural do Sul de Minas, qual foi a motivação do crime e qual será a responsabilização do suspeito. Mas é impossível olhar para uma mulher trans encontrada enterrada e ignorar o lugar e o contexto em que essa morte acontece.
Maryna passou parte da vida profissional protegendo direitos. Quando foi a vez de proteger a vida dela, não foi suficiente.
Com informações do g1
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