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    Mateus Simões culpa quilombolas por abandono histórico do Anel Rodoviário

    Fala do pré-candidato ao governo de Minas simplifica problema estrutural e ignora ausência de políticas públicas para segurança viária.

    Jô Andrade

    Jô Andrade

    Repórter

    6 min20 de abril de 2026
    Mateus Simões culpa quilombolas por abandono histórico do Anel Rodoviário

    Mateus Simões, ex-vice e atual pré-candidato ao governo de MG. Foto: Agência Minas

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    Comunidades quilombolas foram culpadas pelo governador de Minas Gerais, Mateus Simões (PSD), pelas mortes envolvendo acidentes no Anel Rodoviário, via que liga BH a demais cidades da Região Metropolitana. Em recente entrevista à 98 FM News, Simões afirmou que “50 pessoas morrem por ano graças à interferência da Federação de Quilombos do Ministério da Igualdade Racial”.

    A fala do atual governador, que assumiu o cargo enquanto Romeu Zema (Novo) diz disputar as eleições presidenciais, se refere ao atraso do Rodoanel - uma iniciativa viária de grande porte, planejada para contornar a Região Metropolitana de BH.

    Esse empreendimento foi feito, principalmente, para o tráfego pesado, e é chamado popularmente de “Rodominério”, já que foi desenhado para servir ao transporte de cargas vindas da mineração. Essas famílias citadas por Simões têm territórios que estão localizados a menos de 10 km do perímetro previsto para a obra, ou seja, suas casas serão diretamente atingidas. Por isso, na avaliação do governador, esses moradores estão atrasando o avanço do Estado onde “o trem prospera”.

    Estranha ou estrategicamente, grandes empreitadas nunca exigem a remoção de moradores do Lourdes, do Mangabeiras ou Anchieta, por exemplo. Já intervenções como as do Rodoanel e a do metrô implicam, diretamente, na retirada de moradores que já sobrevivem em áreas de moradias precárias. Durante o processo de implementação, o governo de Minas atropelou um dos procedimentos básicos para a execução do Rodoanel, que inclui reconhecer a existência de comunidades tradicionais que vivem dentro do traçado por onde passará a rodovia.

    Ao Xôtifalá, a diretora da Federação Quilombola de MG - Ngolo, Makota Cassia Kidoialê, explicou que o movimento de intimidação do governador nada mais é que insatisfação, já que a Justiça Federal reconheceu, em outubro do ano passado, que não houve consulta livre e prévia com as comunidades potencialmente impactadas, como exigido pela Convenção nº 169 da Organização Internacional do Trabalho (OIT).

    “O que aconteceu é que, durante as tratativas, a gente questionou que o projeto já estava pronto, e a consulta prevista pela OIT é pré, não pós-projeto. E questionamos que, dentro da proposta, não citava os impactos ambientais, nem a presença dessas comunidades. E durante as conversas, a gente ainda apresentou para eles essa questão da ausência desses grupos. Era como se eles tivessem se preocupado só com a fauna e a flora, sem as pessoas”.

    Estratégia política da culpa

    Não é novidade, e em ano de eleição é mais comum do que o ideal, que políticos da direita tentem responsabilizar um único grupo por problemas que eles próprios criaram. No caso de Mateus Simões, que é pré-candidato ao governo de Minas, a fala sobre a Federação de Quilombos não é aleatória ou mal pensada, mas faz parte de uma estratégia política.

    Setores da direita e extrema-direita costumam culpar minorias pelo atraso do progresso no país. Em Minas Gerais, a atual gestão tenta colocar o resto da população contra um grupo que já é marginalizado e excluído socialmente. Essa narrativa barata é uma tentativa de simplificar problemas estruturais que são complexos, terceirizando a responsabilidade e atribuindo falhas da gestão a grupos mais vulneráveis.

    Percebam que no discurso do governador não há ataques à elite econômica que vive no entorno do Aeroporto da Pampulha, por exemplo. No entanto, famílias, trabalhadores e tantas outras pessoas de baixa renda que vivem em comunidades são atacadas, numa tentativa de desviar atenção para os problemas reais causados pela desigualdade.

    “O problema é que os espaços se transformam, se desenvolvem, mas quando eles estão subdesenvolvidos, eles não cabem, não nos acolhem mais, vão nos jogando para essas beiradas. Sempre o nosso lado tem que abrir mão, porque não fazemos parte da diversidade planejada. Já estávamos aqui antes [da cidade] ser planejada, e agora eles querem nos tirar. Estão acostumados a passar por cima, a nos expulsar, a dar ordens, a nos despejar. Desmatam, mudam o paisagismo e criam outras dificuldades para a gente. Eles chamam de sociedade organizada, mas é uma sociedade organizada que não nos inclui”, disse a presidente da Federação de Quilombos.
    Mapa mostra comunidades que serão atingidas pelo Rodoanel. Foto: Divulgação/Federação de Quilombos
    Mapa mostra comunidades que serão atingidas pelo Rodoanel. Foto: Divulgação/Federação de Quilombos

    Entenda o “Rodominério”

    O Rodoanel prevê cerca de 100,6 km de vias duplicadas com cobrança de pedágio, organizadas em quatro trechos (Norte, Oeste, Sudoeste e Sul). Dos 34 municípios da Região Metropolitana de Belo Horizonte, ao menos 13 devem ser diretamente afetados pela obra. O projeto é um dos desdobramentos do acordo judicial firmado entre a Vale S.A. e o governo de Minas após o rompimento da barragem de Brumadinho.

    Um artigo divulgado pela Associação Estadual de Defesa Ambiental e Social de Minas Gerais (AEDAS) detalha que esse acordo foi firmado sem a participação das populações atingidas. O financiamento do empreendimento inclui cerca de R$3,07 bilhões desse acordo, somados a recursos de uma Parceria Público-Privada (PPP), um custo total de mais de R$5 bilhões.

    Em agosto de 2022, o governo de Minas realizou o leilão para concessão da obra, mesmo diante de críticas de movimentos socioambientais, povos e comunidades tradicionais e organizações civis. Segundo a AEDAS, apenas uma empresa participou da proposta, a italiana INC S.P.A., que, segundo a entidade, responde a processos judiciais em outros países relacionados à execução de obras rodoviárias.

    A Associação aponta, ainda, que a criação do Rodoanel deve gerar outros impactos ambientais típicos de construções gigantes, como destruição de fauna, flora, cavernas, patrimônio hídrico, além de afetar patrimônios históricos como a Serra da Calçada, que abriga o sítio arqueológico Forte de Brumadinho.

    Além das comunidades quilombolas, o Rodoanel da Região Metropolitana de Belo Horizonte também vai afetar diretamente povos ciganos, povos do Reinado e Congado, entre outras unidades territoriais tradicionais mapeadas na RMBH.

    “O Estado precisa cumprir a lei, é só isso, e parar de [nos] acusar, trazer informações totalmente atravessadas e falsas que colocam a gente num lugar de exclusão. Imagina se a sociedade começa a acreditar que somos nós que estamos aqui impedindo [as obras], e que somos nós os responsáveis pelos acidentes do Anel Rodoviário? Eles podem mudar o traçado do projeto, podem redesenhá-lo a partir da consulta prévia. O que não pode é fazer um traçado [...] que vai nos distanciar do nosso modo de vida”, disse Makota Cassia Kidoialê.
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    RodoanelMinas Geraispolíticamoradia

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    Jornalista especialista em textos pela UFMG, com passagens pelos veículos g1, BHAZ e Sou BH. Experiência em jornalismo digital, reportagem e edição de conteúdo.

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