Xôti Falá
    Início
    Diálogo
    Nossa Cidade
    Planeta
    Cena
    Gente
    Prosa
    Sobre nós
    Home/Cena
    carnavalbelo horizonte

    Micaretização: quando o trio cresce, quem fica para trás?

    Blocos periféricos e históricos denunciam falta de apoio em meio à explosão dos grandes nomes no carnaval de BH.

    Jô Andrade

    Jô Andrade

    Repórter

    6 min21 de fevereiro de 2026
    Micaretização: quando o trio cresce, quem fica para trás?

    Foto: Mirela Persichini

    Compartilhar

    Você piscou e novos rostos famosos começaram a pipocar nos blocos de carnaval. O que antes era comum apenas em festas fechadas — que cobravam a bagatela de, no mínimo, R$ 500 pela entrada — passou a ocupar as principais avenidas de Belo Horizonte. Estamos falando de estruturas gigantescas, com blocos puxados por artistas de projeção nacional.

    Para se ter uma ideia, no Carnaval de 2023, o primeiro pós-pandemia, ainda não era comum ver artistas desse porte à frente de grandes blocos de rua. A presença deles se concentrava, majoritariamente, em eventos pagos, especialmente na região Centro-Sul da capital.

    Esse cenário começou a mudar em 2024. Enquanto o governo de Minas disputava com a Prefeitura de Belo Horizonte o protagonismo sobre o carnaval da cidade, grandes marcas anunciaram shows de artistas como Michel Teló, Pedro Sampaio e Clayton & Romário em blocos exclusivos, arrastando milhares de foliões pelas ruas.

    Em 2025, a festa ganhou outra dimensão. De olho na grana que rendeu com o “sucesso” do ano anterior, o carnaval seguinte foi ainda mais intenso — e, em alguns momentos, caótico. Belo Horizonte recebeu trios elétricos da banda Lagum, do rapper Djonga, do cantor Xamã e dos DJs Pedro Sampaio e Alok. Apenas no bloco do DJ Alok, a estimativa de público chegou a cerca de 500 mil pessoas, que se apertaram na avenida Afonso Pena para acompanhar o show.

    A superlotação trouxe consequências graves. Durante o desfile, houve problemas de logística e segurança: dois esfaqueamentos foram registrados, além de vários relatos de pessoas passando mal e dificuldades para a circulação do trio elétrico. O bloco precisou encerrar o cortejo cerca de uma hora antes do horário previsto. Uma equipe de reportagem do Estado de Minas flagrou ainda danos no portão principal do Parque Municipal Américo Renné Giannetti, com grades entortadas, telas de proteção amassadas e áreas de vegetação pisoteadas durante o empura-empurra.

    Apesar dos perrengues, a presença de artistas de alcance nacional sempre foi bem-vinda em Belo Horizonte por promover lazer, cultura e movimentar a economia da cidade. No entanto, blocos considerados “menores” pela Prefeitura de BH acendem um alerta: olhar demais para fora pode significar deixar de olhar para dentro.

    Cadê as Garotas Solteiras de BH?

    No fim de 2023, um dos blocos mais importantes para o fortalecimento da comunidade LGBT+ anunciou uma pausa para tentar recuperar o fôlego. O Garotas Solteiras fez a alegria de milhares de foliões por sete anos, até se tornar um dos gigantes do carnaval belo-horizontino, levando mais de 400 mil pessoas atrás do trio ao som de Rihanna, Madonna, Beyoncé e outras divas pop.

    Esse crescimento passou a exigir cada vez mais estrutura, segurança e equipe técnica para garantir um desfile seguro. Na ocasião, a organização explicou que a pausa foi necessária por falta de investimento e patrocínio suficientes para colocar um bloco desse porte nas ruas.

    Além de ser um espaço de celebração da comunidade LGBT+, o Garotas Solteiras também se consolidou como um ambiente seguro para mulheres que curtiam a folia sozinhas, acompanhadas de parceiros, parceiras ou amigos. O bloco sempre levantou bandeiras sociais importantes, mas foi um dos que precisou parar após a sobrecarga provocada pela disputa por financiamento. Desde então, as segundas-feiras de carnaval ficaram um pouco menos divônicas e as milhares de “viúvas” do Garotas precisaram encontrar outros blocos seguros.

    Sobra de um lado, falta para o outro

    Mas como um bloco que nasceu em 2016 e fez história em Belo Horizonte não consegue sequer o mínimo de estrutura para colocar um trio na rua? O alerta não é apenas para os organizadores, mas para todos os foliões. Quando um bloco com tamanha força política e social não encontra apoio para existir, não é só uma festa que está em risco, é o acesso à cidade, à cultura e à liberdade.

    Com menos blocos desse perfil, são menos corpos periféricos nas ruas, menos mulheres, menos pessoas trans. E quando a rua esvazia, ela tende a ser ocupada por outros grupos que nem sempre estarão comprometidos com a defesa de direitos e da diversidade.

    O fundador do Bloco do Jiló, Marcelo Monteiro, explica que a dificuldade de acesso a recursos não é recente. O bloco nasceu em 2015, após uma tarde de folia entre familiares e amigos no coreto da Praça da Liberdade. Em mais de dez anos de história, o Jiló sobrevive basicamente com apoio de parceiros da região Nordeste de BH. Além disso, o grupo realiza eventos com a banda do bloco, e os cachês arrecadados são revertidos para o desfile carnavalesco.

    “A gente tenta há muito tempo conseguir patrocínio da prefeitura. Esses grandes artistas que vêm tocar aqui — não sei se concordo totalmente com esse modelo — poderiam investir mais nos blocos locais. A burocracia para conseguir o mínimo é enorme. A prefeitura deveria investir nos blocos da periferia, ajudar na divulgação, na estrutura, para que as pessoas conheçam o trabalho. Hoje, nossa única vitrine são as redes sociais. Enquanto isso, surgem blocos que ninguém nunca ouviu falar, mas que já desfilam há mais de dez anos”, afirmou Marcelo.

    Ele relembra ainda que, neste ano, o tradicional Bloco Alalaor não conseguirá contratar um trio elétrico para conduzir o cortejo. Em nota, a direção informou que o veículo utilizado anteriormente deixou de ser autorizado por novas normas de segurança. A produção lamentou a ausência do trio e destacou que, embora a mídia local exalte diariamente a grandiosidade do carnaval de BH, pouco se fala sobre os bastidores e as dificuldades enfrentadas para colocar um bloco na rua.

    O Alalaor foi um dos blocos que receberam subsídio da Prefeitura de Belo Horizonte, mas o valor não cobre todos os custos necessários para a estrutura do desfile. A direção também afirmou ser contrária à ideia, já sugerida, de sair do bairro e migrar para uma grande avenida. Tradicionalmente, o bloco desfila em Santa Tereza, e a intenção é permanecer no território.

    “O Alalaor até conseguiu um recurso este ano. Mas, só para exemplificar: se o valor for de R$ 40 mil, apenas o trio elétrico pode custar cerca de R$ 35 mil. Ainda é preciso pagar som, equipe, cordeiros e outros serviços. Colocando tudo na ponta do lápis, o que a Prefeitura de Belo Horizonte oferece ainda é irrisório”, concluiu.
    Compartilhar:

    Tags:

    carnavalbelo horizonte

    Sobre o autor

    Jô Andrade

    Jô Andrade

    Repórter

    Jornalista especialista em textos pela UFMG, com passagens pelos veículos g1, BHAZ e Sou BH. Experiência em jornalismo digital, reportagem e edição de conteúdo.

    Xotifala

    Jornalismo independente, acessível e comprometido com a verdade.

    Editorias

    • Diálogo
    • Nossa Cidade
    • Planeta
    • Cena
    • Gente
    • Prosa

    Institucional

    • Sobre nós
    • Política Editorial
    • Política de Privacidade
    • Termos de Uso
    • Teia de Criadores
    Xôtiscutá!

    Tem uma história importante? Queremos escutar você.

    Enviar email

    © 2026 Xotifala. Todos os direitos reservados.

    Feito por Buzz33