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    Misoginia não é fundamento: quando o machismo invade os terreiros

    O machismo que se esconde como fundamento nas religiões afroreferenciadas precisa ser enfrentado em uma sociedade que ainda desrespeita mulheres.

    Lívia Teodoro

    Lívia Teodoro

    Colunista

    13 min11 de março de 2026
    Misoginia não é fundamento: quando o machismo invade os terreiros

    Foto: Tânia Rêgo/Agência Brasil

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    O machismo nas religiões de matriz africana e afrobrasileiras é um tabu que muitas vezes é disfarçado de fundamento, mas precisa ser debatido como algo que não está apartado de uma sociedade que é, em essência, machista e desrespeita as mulheres.

    Não podemos nos distanciar da ideia de que mulheres são força e essência nas religiões afro. Muitos fundamentos são particularmente femininos. Mas, ao mesmo tempo, não é raridade encontrar denúncias de machismo, abusos, assédios e violência contra a mulher em terreiros espalhados por todo o Brasil. Essas mulheres que carregam a ancestralidade e são a gira da tradição têm enfrentado violência em espaços que deveriam ser seguros para a vivência da fé com respeito.

    Em 2025, Belo Horizonte (MG) viu repercutir na reportagem de Gabi Coelho para a Agência Pública, graves denúncias feitas ao Ministério Público por mulheres que relataram assédio moral, violências e até estupro que teriam sido cometidos por líderes do Nzo Jindanji Kuna Nkosi, terreiro de candomblé da cidade. No final do mesmo ano foi a vez de Henrique Vorcaro Garcia, pai de santo no terreiro de Umbanda Omolokô Ilê Axé Guian, ser afastado pela Justiça de suas atividades religiosas após denúncias de abusos sexuais e financeiros, humilhações públicas e até ameaças de morte contra frequentadoras de sua casa de axé.

    Nos terreiros de candomblé e umbanda muitas vezes reina a lei do silêncio quando o abuso torna-se fundamento. Abusadores buscam justificativas religiosas tanto para oprimirem quanto para manter as denúncias por debaixo dos panos, como dizemos aqui em Minas. Quando o fundamento é usado para defender as vontades das pessoas, antes de atender às determinações dos orixás e entidades que os ensinaram, a tragédia é previsível: fica a cargo de homens e mulheres líderes fazer como quiserem e, como sabemos, a humanidade é passível de falhas, independente da religião.

    Há muitas nuances nessa história já que as religiões de matriz africana e afrobrasileira são, em essência, pautadas na oralidade e o aprendizado das mais novas depende basicamente do que é repassado por seus mais velhos. Quando o machismo é a base das relações, esses ensinamentos são contaminados por práticas sociais e as casas de axé que deveriam ensinar sobre ancestralidade e fé passam a reproduzir internamente o que acontece no mundo aqui fora: o desrespeito às mulheres e práticas que reforçam humilhações, controle psicológico e até abusos financeiros.

    Mais de 90% das mulheres do Brasil não se sentem respeitadas

    O dado foi revelado pelo levantamento da 1ª Pesquisa Nacional de Violência contra a Mulher, realizado pelo DataSenado e pela Nexus em parceria com o Observatório da Mulher contra a Violência do Senado. A pesquisa divulgada pela Agência Brasil em 2025, ouviu mais de 20 mil brasileiras em todas as regiões do país e traz uma afirmação do que já sentimos na pele: o desrespeito reina nas ruas. Por isso é impossível dizer que os terreiros estariam totalmente apartados da realidade nacional. Se há desrespeito e machismo no mundo, precisamos reconhecer que as casas de axé reproduzem, sim, uma triste realidade social.

    Ao analisar as pesquisas feitas sobre machismo e acompanhar diariamente os noticiários fica evidente: a violência contra a mulher cresce a passos largos no Brasil e infelizmente encontra terreno fértil dentro de religiões onde os ensinamentos são passados pela tradição oral. Como já disse, se fundamentos são transmitidos dos mais velhos aos mais novos e esses mais velhos estão sendo criados numa sociedade em que o machismo é estrutural, naturaliza-se fundamentos que estão contaminados de machismo e misoginia.

    A presença de mulheres transexuais e travestis dentro das casas de axé

    Quando falamos de violência de gênero também devemos mencionar a presença de mulheres trans nas religiões de matriz africana e afrobrasileiras. O Brasil figura hoje entre os países que mais matam pessoas trans no mundo e a expectativa de vida dessa população no país não supera os 35 anos. Além desse dado, outros marcadores sociais, como a baixa escolaridade e o alto índice de evasão escolar, também determinam a vivência de pessoas trans.

    Para a comunicadora e estrategista digital Calliandra Soares (@cumadetravesti), travesti que produz conteúdo sobre espiritualidade e cultura afro-brasileira nas redes sociais, o respeito às identidades trans deve ser considerado uma forma de preservação da fé e da devoção. Para ela, a vivência de pessoas trans dentro das religiões afro no Brasil carrega experiências únicas e diversos atravessamentos que reproduzem a lógica colonial, machista e transfóbica da sociedade atual.

    “Entendo que isso não é um problema exclusivo das religiões de matriz afro-brasileira, mas sim um reflexo do machismo estrutural da sociedade. Esse machismo atravessa todas as instituições sociais, independentemente da religião, seja no cristianismo, no catolicismo, na Umbanda, no Candomblé, na Jurema Sagrada ou na Quimbanda. Ele acaba criando ambientes onde mulheres são silenciadas, deslegitimadas ou afastadas de lugares de pertencimento.”
    Foto: Reprodução/Redes Sociais
    Foto: Reprodução/Redes Sociais

    A falta da sensação de pertencimento afasta pessoas trans não só da prática religiosa cotidiana nas casas de axé, como também da simples presença nas festividades ou da ocupação do lugar de assistência (termo usado para identificar frequentadores regulares do terreiro que procuram atendimento com entidades e guias espirituais).

    Mãe Nathália Pantuzo, zeladora do Terreiro de Umbanda Okán Ti Okùn (@okantiokun), espaço dedicado ao resgate e à valorização da ancestralidade afro-brasileira no bairro Bonfim, em Belo Horizonte, também reflete sobre os desafios de enfrentar práticas machistas dentro das casas de axé.

    Para Mãe Nathália, enfrentar o machismo dentro dos terreiros exige organização coletiva e posicionamento das próprias comunidades religiosas. “O terreiro também é uma micro sociedade. As pessoas trazem para dentro dele tudo aquilo que são lá fora. Não é porque alguém é macumbeiro que automaticamente é antirracista ou comprometido com os direitos das mulheres”, pontua. Ela também defende que as casas de axé promovam espaços de formação e fortalecimento das mulheres dentro das próprias comunidades.

    Foto: Reprodução/Redes Sociais
    Foto: Reprodução/Redes Sociais

    Quem lava a louça? Quem serve ao sacerdote? Quem mantém uma casa de axé limpa e funcional?

    A mãe de santo Jozeli Rosa de Nanã (@jozelirosa.oficial), sacerdotisa de candomblé, mulher negra, lésbica, cria da comunidade Pedreira Prado Lopes e formada em Direito, é zeladora do Ilê de Nanã Ajadeossi, em Belo Horizonte. Militante histórica dos direitos humanos e das lutas das mulheres negras, ela lembra que as religiões de matriz africana nasceram de estruturas comunitárias onde mulheres sempre tiveram papel central.

    “Fundamento é tradição, não distorção. Não pode simplesmente dizer ‘é fundamento’ para abafar violência. Todo fundamento tem propósito espiritual e precisa ter explicação. Dentro de um Ilê que respeita a tradição também se respeita as mulheres de axé.”

    Se uma casa de axé é, em princípio, uma comunidade, todos e todas que fazem parte dela deveriam ser responsáveis pelo seu zelo e bom funcionamento, mas na prática não é o que vemos acontecer. Para Mãe Jozeli, esse princípio comunitário é central na organização dos terreiros: “Dentro do Candomblé e da Umbanda Omolokô temos uma presença muito forte de mulheres lideranças. Somos mulheres que orientam, que equilibram, que sustentam. A gente tem a palavra para abençoar e a mão para benzer.”

    Foto: Reprodução/Redes Sociais
    Foto: Reprodução/Redes Sociais

    A liderança masculina muitas vezes é confundida com um lugar de superioridade machista, assim mulheres são exploradas e, sob a justificativa de uma suposta tradição ou ordem natural das coisas, nos acostumamos com as mais diversas violências.

    Além da estratégia interna de transformar em fundamento o machismo, que é um problema social, mulheres de religiões afrorereferenciadas ainda estão sujeitas ao racismo religioso, independente da cor da pele das vítimas. Quando o racismo associa negritude à anomia e à agressividade, cria-se uma atmosfera em que tudo parece “natural”. Se uma religião vem de um povo historicamente marcado por esses estereótipos, então, para muitos, a violência contra elas passa a parecer apenas mais um desdobramento esperado.

    No caso das mulheres trans, outros problemas aparecem. A confusão que ainda existe para muitas pessoas sobre identidade de gênero e orientação sexual ainda provoca situações de violência, quando existe uma obrigação forçada de usar roupas que não se adequam à identidade de gênero daquelas pessoas. Sobre isso, Calliandra relata: “já presenciei situações em que a identidade de uma pessoa trans é desrespeitada dentro do terreiro, com exigências de vestimenta baseadas no gênero atribuído no nascimento, o que não tem relação direta com a espiritualidade”.

    Para Calliandra, que faz parte de uma casa de Umbanda de Belo Horizonte, a espiritualidade não reconhece apenas o corpo físico ou o gênero designado àquela pessoa ao nascer e explica: “O que ele reconhece é a energia, o caminho espiritual, o ori daquela pessoa. Se alguém se identifica de determinada forma, é assim que deveria ser respeitado dentro do terreiro”.

    Vale ressaltar que quando surgem denúncias de violência psicológica, física, sexual e patrimonial dentro de casas de axé precisamos analisar com atenção: mulheres são desrespeitadas independentemente da sua religião, nível de escolaridade, raça ou orientação sexual. Não é um problema exclusivo das religiões de matriz africana. No entanto, para nós que fazemos parte desta comunidade, torna-se obrigatório o combate a essas práticas como forma de respeito à nossa ancestralidade.

    E quando a violência acontece, ambas zeladoras ouvidas para esta coluna concordam: o silêncio não pode ser a resposta. Para Mãe Jozeli: “A primeira coisa é ouvir essa mulher. Fazer a escuta. Quando existe violência ela precisa ser reconhecida como violência. Não pode ser escondida dentro do terreiro”.

    O silêncio não deve nunca ser uma opção

    Mulheres que sofrem violência dentro ou fora de ambientes religiosos podem procurar canais institucionais de denúncia. Um dos principais é a Delegacia Especializada de Atendimento à Mulher (DEAM). Em Belo Horizonte, o atendimento funciona no bairro Barro Preto. Também é possível registrar denúncia pelo Ligue 180, canal nacional de atendimento à mulher que funciona 24 horas por dia em todo o Brasil. Estes órgãos recebem denúncias de violência psicológica, moral, sexual, física ou patrimonial.

    No panteão dos Orixás, as Yabás têm suas histórias recontadas há mais de seis mil anos. Itãs que demonstram a força, astúcia, inteligência, importância e energia dessas Orixás estão aí para nos mostrar que combater a violência contra a mulher disfarçada de fundamento é respeitar Yansã, Oxum, Nanã, Ewá, Obá e reconhecer sua força.

    Na Umbanda, as ruas também são um espaço sagrado. Não seria aceitável, portanto, o desrespeito às mulheres sob a justificativa religiosa. Entidades famosas como as pombagiras dos cabarés, as ciganas e as malandras são mulheres da rua que, em sua maioria, se encantaram ao lutar contra abusos e opressão sofridas por outras mulheres e até por elas mesmas. Assim, é incoerente que aqueles que professam a fé em seus guias e entidades usem os fundamentos da Umbanda para justificar desrespeito, abusos, assédios e violência contra as mulheres do nosso tempo.

    Para Mãe Nathália, existe uma contradição evidente entre o papel central das mulheres na cosmologia das religiões afro-brasileiras e as denúncias de violência que surgem dentro de alguns espaços religiosos.

    “A macumba é matriarcal. A gente não tem a mulher apenas como pilar, a gente tem a mulher como início de tudo.”

    Mesmo assim, segundo ela, o crescimento de denúncias de abusos revela um processo de adoecimento que precisa ser enfrentado pelas próprias comunidades religiosas. “Existe um contraste muito evidente. Ao mesmo tempo em que se cultua Iemanjá, Oxum e outras forças femininas, ainda vemos casos de abuso psicológico, físico e espiritual contra mulheres dentro dos terreiros.”

    Calliandra acredita que algumas lideranças negligenciam a trajetória histórica de entidades e guias espirituais, já que existem relatos sobre pombagiras e outras falanges que poderiam ser associadas à transexualidade, mas que acabam sendo apagadas ou silenciadas, tendo suas complexidades simplesmente enquadradas em estereótipos da feminilidade cisgênera.

    Pontos de entidades são orações cantadas. A ancestralidade negra vive, reza e professa a sua fé nas melodias e, se prestarmos atenção, a grande maioria dos pontos de entidades masculinas e femininas versa sobre o respeito às mulheres ou sobre como a força feminina recupera o respeito pacificamente ou pela força. Não é aceitável, portanto, que fundamentos religiosos sejam distorcidos para justificar o desrespeito e a violência contra a mulher.

    Para Mãe Nathália Pantuzo, é preciso diferenciar tradição de fundamento religioso. Segundo ela, muitas práticas consideradas tradicionais também foram atravessadas por processos históricos de apagamento e pela influência da branquitude sobre as religiões afroindígenas no Brasil.

    “A gente não pode negar a força que a ocidentalização e a branquitude tiveram sobre as nossas religiões afroindígenas. As tradições também passaram por apagamentos e silenciamentos. Por isso, é preciso ter cuidado ao dizer que tudo o que é tradição é fundamento.”

    Para a zeladora, práticas que produzem violência ou constrangimento não podem ser consideradas parte legítima da espiritualidade.

    “Uma tradição que fere corpos, que vulnerabiliza pessoas, não tem nada a ver com fundamento religioso nem com fundamento ancestral. Um ancestral jamais vai ensinar uma prática de terreiro que machuca alguém.”

    Não é exagero reforçar que o respeito às tradições e aos ensinamentos ancestrais é essencial para a resistência das religiões afroreferenciadas no Brasil. No entanto, é preciso compreender que o respeito aos fundamentos não pode ser usado como justificativa para fomentar preconceitos.

    “Preservar não é repetir tudo de forma automática. Preservar também é compreender o fundamento desses ensinamentos e aplicá-los na construção de uma vida mais digna para as pessoas. Nós aprendemos muito com os orixás e também com as entidades espirituais. Muitas dessas entidades carregam histórias de vida atravessadas pela violência, pela escravidão, pelo assassinato, pelo feminicídio, pela morte precoce e por diferentes formas de injustiça. Quando essas histórias chegam ao terreiro, elas também nos ensinam sobre ética, responsabilidade e transformação”, destaca Calliandra.

    Além de refletir sobre os desafios enfrentados pelas mulheres nas religiões de matriz africana, Mãe Jozeli também reforça a importância de conhecer os terreiros que trabalham com acolhimento e responsabilidade espiritual. Ela convida quem deseja conhecer a religião e a comunidade a visitar o Ilê de Nanã Ajadeossi, em Belo Horizonte, espaço onde realiza atendimentos espirituais e atividades comunitárias.

    “O Ilê está sempre aberto para acolher, ouvir e aprender junto. Respeitar nossa espiritualidade e nosso axé é algo fundamental. Nós somos continuidade dos nossos ancestrais”. A casa de Umbanda Omolokô está localizada à Rua Alagoas, 1468, no bairro Funcionários, em Belo Horizonte.

    Se os orixás são força no Orum e as entidades força nas ruas, nas matas e no mundo, é aprendendo fundamento de verdade e nos voltando para tradições que respeitam as mulheres que seremos capazes de enxergar quando fundamentos religiosos estão sendo manipulados para servir aos interesses daqueles que estão interessados somente na manutenção de um lugar de poder que autoriza a violência contra as mulheres.

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    Sobre o autor

    Lívia Teodoro

    Lívia Teodoro

    Colunista

    Professora de História graduada pela UFMG, com formação transversal em História da África e Afro-brasileira, e relações étnico raciais. Possui MBA em Jornalismo Digital, criadora de conteúdo nos perfis 'Patroa Mesmo' e integra o time de influenciadores da Teia de Criadores. Mãe solo, lésbica e ativista digital, Lívia utiliza a internet como ferramenta de transformação social com humor e originalidade.

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