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    Mulheres e pessoas negras não são priorizadas no orçamento dos partidos políticos, diz Áurea Carolina

    Ex-deputada fala sobre representatividade, entraves na política institucional e os caminhos para construir um futuro mais justo em Minas.

    Jô Andrade

    Jô Andrade

    Repórter

    10 min8 de abril de 2026
    Mulheres e pessoas negras não são priorizadas no orçamento dos partidos políticos, diz Áurea Carolina

    Ex-deputada federal Áurea Carolina. Foto: Reprodução/redes sociais

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    Educadora popular, cientista social e referência na luta por justiça racial, de gênero e pelo direito à cultura, Áurea Carolina começou sua trajetória política em Belo Horizonte, onde foi eleita a vereadora mais votada em 2016. Dois anos depois, tornou-se deputada federal por Minas Gerais, onde continuou seu trabalho e luta pelas mulheres, pelas juventudes periféricas, pessoas negras e pela defesa da cultura.

    Nesta semana, o Xôtifalá publica uma série de reportagens com algumas das mulheres que fazem, ou já fizeram, parte da política institucional de Belo Horizonte e Minas Gerais.

    Na Câmara dos Deputados, Áurea exerceu mandato entre 2019 e 2023, integrando comissões como a de Cultura e a de Defesa dos Direitos da Mulher, além de participar de frentes e comissões externas voltadas a temas como violência de gênero e o desastre de Brumadinho. Leia a seguir a entrevista ao Xôtifalá.

    Qual projeto você mais se orgulha em ter criado ou ajudado a construir para Minas Gerais?

    Meu maior orgulho na minha trajetória política em Minas é ter contribuído para que outras mulheres negras, outras lideranças populares ocupassem os espaços de poder, que fossem eleitas vereadoras, deputadas. Em 2016, quando eu me candidatei pela primeira vez, isso era uma realidade ainda mais difícil. De lá pra cá, a Gabinetona se tornou uma referência de inovação democrática.

    Eu também me tornei uma referência reconhecida nesse campo, como uma liderança criativa, inovadora, sendo uma mulher negra periférica, de origem popular. E por onde eu ando, eu escuto mulheres negras que concorreram às eleições ou foram eleitas e que se referenciam em mim, me admiram, me reconhecem. Isso, pra mim, é muito valioso, é muito importante, porque confirma o sentido coletivo dessa construção.

    Ter sido uma, talvez uma liderança que, nesses últimos anos, conseguiu vocalizar esse espaço, está para além da representatividade, mas um sentido de projeto de poder que passa, necessariamente, pela presença de mulheres, mulheres negras, travestis, transexuais, indígenas com voz ativa e com poder para legislar, para tomar decisões, né? Isso realmente é algo que me deixa orgulhosa.

    Acredita que existam entraves dentro das casas legislativas, como projetos inconstitucionais, que acabam atrasando projetos realmente necessários para a população?

    O tempo inteiro aparecem projetos inconstitucionais nas câmaras municipais, nas assembleias, no Congresso, sobretudo, por grupos conservadores. A extrema direita opera muito nisso, mesmo tendo a consciência de que são projetos inconstitucionais, mas ficam forçando a barra, tomando a energia, a atenção do debate público e desviando o foco das agendas democráticas de cidadania que realmente importam para a população. Desde escola sem partido até proibição de culturas periféricas na escola ou tentativas de retroceder nos direitos como o aborto legal. Tem várias agendas que esses grupos conservadores patrocinam o tempo inteiro na tentativa de emplacar a sua ideologia de dominação, de como deve ser o comportamento das pessoas, das famílias, enfim. E tudo isso geralmente envolvendo muito interesse econômico.

    Tem coisas que estão para além, né? Como que esses grupos também criam estratégias para estarem sempre na vitrine? Sempre criando polêmicas, sempre causando esse mal-estar, e agredindo pessoas. É bastante infernal e, sim, antidemocrático, inconstitucional.

    Como ajudar a construir um futuro mais feminino nas casas legislativas do Brasil?

    Um futuro mais feminino nas casas legislativas tem que ser também numa perspectiva emancipatória. Não basta só eleger mulheres, é importante eleger mulheres, mas não é suficiente. Nós precisamos ter um avanço de mulheres comprometidas com a democracia, com agendas de direitos da população que estão realmente interessadas na igualdade de gênero, na igualdade racial, em proteção social, em oportunidades econômicas que sejam justas.

    Então, pensar nesse futuro mais feminino passa pelo fortalecimento de iniciativas comunitárias, autônomas, da sociedade civil, das lutas populares. Passa por políticas públicas cada vez mais fortalecidas, com menos ingerência de interesses clientelistas eleitoreiros que acabam fazendo um estrago nos municípios, nos estados, porque interesses que vão corrompendo o planejamento e a boa execução de políticas públicas, porque são cargos de confiança, são cargos que não têm um repertório de cidadania, e que muitas vezes são só pra acomodar ali aliados políticos.

    A gente precisa de mais justiça na destinação do orçamento público, precisa de uma reforma do sistema político que favoreça maior representação de mulheres, pessoas negras, periféricas e nos espaços de poder. Então, todo o debate que eu trazia antes é condição para esse futuro mais feminino. A gente precisa também pautar a mídia, pautar a educação, uma educação que seja inclusiva, que seja aberta para os debates de gênero e sexualidade nas escolas, uma mídia que seja mais responsável, mais transparente, que dê visibilidade para iniciativas e para o protagonismo de mulheres e pessoas negras.

    Quais pautas você mais defende atualmente, e quais outras ela vê que precisa de mais empenho?

    Atualmente, eu tenho priorizado, já no acúmulo da minha trajetória, os temas de trabalho e dignidade, a centralidade disso na vida, pensar em políticas de cuidados, o fim da escala seis por um, pensar nessas transformações do mundo do trabalho. A gente vive num contexto de intensificação da informalidade, da falta de garantias trabalhistas. Então, como criar políticas mais protetivas e incentivar alternativas de desenvolvimento econômico que sejam baseadas nas vocações dos territórios, e que sejam, por exemplo, ligadas ao turismo ecológico, a agroecologia, a cultura, a economia, que é uma pauta também muito importante para a gente. Como sair da dependência econômica da mineração para criar essa diversificação de outras matrizes de geração de trabalho e renda?

    O tema da justiça climática é fundamental, nós vivemos uma crise generalizada, e como proteger os territórios, iniciativas de solidariedade, de autodefesa comunitária para lidar com os desastres, com os eventos climáticos extremos também, políticas de mais proteção ambiental, de fortalecimento do licenciamento ambiental, de adaptação climática nas cidades? Soluções baseadas na natureza, os direitos das mulheres, o enfrentamento aos feminicídios, a questão mesmo da participação política, a defesa do SUS, a saúde integral, saúde mental, pensar no fortalecimento do SUS como esse sistema público, gratuito, universal, que precisa estar cada vez mais perto das pessoas, pensar na base do SUS, que é a saúde da família. Então, eu diria que perpassa por aí a prioridade da minha atuação política institucional. A política institucional tem muitos entraves, assim, né? É um sistema que tem uma barreira enorme de acesso, né? Barreiras culturais, econômicas, do próprio funcionamento do sistema político.

    Você acredita que o atual sistema político brasileiro permite maior participação feminina nos debates públicos?

    Eu diria que hoje o sistema brasileiro é permissivo ainda com práticas que reiteram a sub-representação de mulheres e pessoas negras. Da maioria da população, porque é um sistema caro, né? Então, é muito caro fazer uma campanha eleitoral, ter condições para se viabilizar uma candidatura, né? Eu agora sou pré-candidata ao Senado, então, como me manter, manter o trabalho das pessoas que estão nesse projeto comigo, tudo isso é muito difícil.

    Os partidos, em geral, não são aliados das mulheres. Dificultam internamente o desenvolvimento das mulheres como lideranças políticas, desde as disputas por comando político dos partidos, até na divisão de recursos e de oportunidades. Eu acho que hoje o sistema político precisa de uma grande reforma que vá também criar mecanismos de proteção para que mulheres, pessoas negras tenham condições mais seguras de entrar e permanecer na política institucional.

    E eu falo, por exemplo, de um fundo emergencial para acolher mulheres que estão passando por violência política de gênero e raça, que seja uma resposta rápida ali, porque é alarmante como essa violência tem crescido e hoje não existem políticas públicas. Os partidos são omissos ou são pouco responsivos para o tamanho do problema. E sem contar as fraudes eleitorais, né? É preciso intensificar não só a fiscalização, mas formas de responsabilizar os partidos desde antes e colocar cada vez mais investimentos para que a gente mude como é que estão esses pesos distribuídos, assim, né?

    Hoje a balança é totalmente desequilibrada porque os mesmos de sempre continuam sendo privilegiados. Mulheres e pessoas negras conseguem se candidatar com imensas dificuldades, mas recebem muito menos apoio, têm menos chance de ser eleitas e assim por diante. Então, tem mecanismos institucionais com toda certeza e tem a questão da cultura política. O imaginário social de que mulheres são menos capazes ou de que mulheres teriam que lidar com determinadas agendas. Todo o preconceito, a discriminação, a sobrecarga de trabalho, como eu comentava antes, que acaba sendo um elemento estrutural para que os homens estejam muito mais liberados para essa tarefa do que mulheres, pessoas negras. Homens brancos privilegiados, herdeiros, empresários e que ainda são um perfil dominante nos espaços de poder.

    Qual seu maior sonho para Minas Gerais? Qual futuro você espera, e onde as mulheres se encaixam nisso?

    Meu maior sonho para Minas Gerais é que as vocações, as identidades, os modos de ser e de fazer do povo de Minas Gerais sejam a base do seu desenvolvimento, da sua prosperidade, do seu bem viver. É um Estado muito castigado pela lógica colonial há séculos, com a exploração predatória do território, a destruição ambiental, os impactos da mineração e do agronegócio.

    É um Estado que tem muitas vocações e eu espero que seja um Estado cada vez menos dependente dessa lógica tão destrutiva que sempre foi a tônica do modelo de desenvolvimento dominante. Sonho com um Estado em que as pessoas venham primeiro, as pessoas e as riquezas deste grande patrimônio compartilhado, e não a ganância de alguns poucos. E as mulheres são centrais nessa construção, né? Como pensadoras, realizadoras, como estrategistas de trabalhos de base local, de trabalhos de base mais ampla também em redes de colaboração.

    Eu acredito muito nas mulheres como força criadora e também trazendo perspectivas dessa vida por inteiro. Que a gente possa ter tempo para descanso, ter tempo para o trabalho, trabalho com dignidade, um trabalho que faça sentido, um trabalho que não seja alienante, um trabalho que não seja violento, né? Que explora e acaba com a saúde das pessoas. A gente precisa que a vida esteja no centro de tudo.

    Então, tudo isso é muito possível, né? E passa por todas as áreas das políticas públicas, educação, políticas sociais, cultura, segurança pública, serviço da vida, saúde, o próprio desenvolvimento econômico, infraestrutura, tudo isso tem que ser colocado a serviço do bem-estar das pessoas, e as mulheres são parte fundamental, estruturante mesmo.

    Como tem trabalhado para dialogar com tantas opiniões polarizadas atualmente?

    A questão da polarização é um fenômeno que está muito relacionado também à dinâmica das plataformas digitais, que vão “premiando” conteúdos que são polarizantes. Eu diria que [as plataformas] jogam nessa lógica do embate, da impossibilidade do diálogo. Eu acho que o antídoto é sempre o encontro.

    Eu venho de experiências de educação popular e estar em ambientes de encontro, de conversa, de formação, é sempre transformador. Algo que pode realmente trazer as pessoas para um espaço de mais reflexão, de mais corresponsabilidade, de mais solidariedade, então, fortalecer cada vez mais iniciativas com essa pegada, eu acho que é o antídoto mesmo para essa tendência emburrecedora da polarização nas redes sociais.

    E isso tem que passar por formação de crianças, de jovens, de grupos comunitários. E eu acho também que a gente precisa de uma mídia cada vez mais comprometida com esses debates. Como que a sociedade tem encontrado soluções para os seus problemas de forma coletiva? Isso não é necessariamente pauta de esquerda, mas pensar em soluções para o bem viver das pessoas precisa ter mais visibilidade do que essas pautas de ódio.

    E eu penso também que a formação da cidadania é esse lugar privilegiado, as escolas, os espaços formais e não formais de educação são muito importantes. A cultura, sem dúvida, é um vetor para isso. E uma comunicação popular também comprometida com esses valores é fundamental.

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    Jô Andrade

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    Jornalista especialista em textos pela UFMG, com passagens pelos veículos g1, BHAZ e Sou BH. Experiência em jornalismo digital, reportagem e edição de conteúdo.

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