Mulheres que amam mulheres seguem sendo tratadas como exceção
A experiência de ser uma mulher, amar outras mulheres, me relacionar com outras mulheres... Tudo isso num mundo em que todos são ensinados a odiá-las.

Lívia Teodoro
Colunista

Essa semana me deparei com um post no Twitter — sim, aquela rede social que um lunático decidiu chamar de X — que, como diz a minha geração, alugou um triplex na minha cabeça.

E isso me pôs para pensar sobre um fato: desde que me assumi lésbica, foram incontáveis as vezes em que algum homem hétero me fez alguma pergunta do gênero. A criatividade é infinita. As dúvidas vão desde as mais “engraçadinhas”, como quando querem saber “quem é o homem da relação?”, até as mais invasivas, como esta do tweet.
E não exige sequer algum grau de intimidade. Já fui questionada por motoristas de aplicativo, parentes, conhecidos, estranhos no rolê… absolutamente qualquer homem se sente autorizado não só a questionar, mas também a ser extremamente invasivo nesse momento. Como se não houvesse intimidade possível no amor entre duas mulheres. Como se nosso envolvimento não fosse outra coisa além da satisfação de um fetiche.
A cultura da pornografia moldou muito da leitura da maioria dos homens heterossexuais em relação a casais sáficos. No imaginário de parte dessa população, as relações afetivo-sexuais entre mulheres só existem para satisfazer o consumo desse conteúdo, que é feito majoritariamente por e para homens.
E essa formação cultural em torno da fetichização nos leva a outro ponto: o quão fora da curva é ser uma mulher que se interessa por outra mulher numa sociedade em que tudo que vem da mulher é rechaçado. Fomos ensinadas que o cheiro da parte íntima é ruim, que é preciso alcançar um padrão estético específico para ser considerada atraente ou que muitas vezes nunca seremos suficientes para as situações. Afinal, somos “só mulheres”.
Meninos são ensinados desde muito jovens a odiar tudo que é feminino. A sociedade cria meninos ainda com ideias como: ‘chorar é coisa de mulherzinha’! E ensina, da pior maneira, que a emoção deve ser reprimida para não se aproximarem de nada que possa soar feminino.
Criam meninos com a ideia de que, quando eles implicam demais com uma menina, estão, na verdade, interessados nela. E mostram para futuras mulheres que, lá na frente, a violência em relações potencialmente abusivas será considerada apenas mais uma demonstração de amor.
Ensinam aos homens que é impossível amar mulheres porque elas são histéricas, desequilibradas e ainda vêm com incômodos muito difíceis de suportar, como a TPM, a menstruação e as alterações de humor nesse período.
E é quando esses homens encontram mulheres capazes de amar e desejar genuinamente outra, mesmo ‘tendo que aturar tudo isso’, que algo se quebra. Não é sobre exceção. É sobre um triste fato. Homens descobrem, talvez contrariados, que existem várias formas de amar outra mulher.

E talvez seja justamente aí que o incômodo começa a ganhar outra dimensão. Porque quando o fetiche não se sustenta, sobra o quê? A realidade. E, nela, mulheres não estão performando para o olhar masculino. Estão se escolhendo. É desse desconforto, que começa no deboche e passa pela invasão, que a gente chega a algo muito maior.
O Brasil vive atualmente uma epidemia de violência contra as mulheres. Em 2025, registramos 6.904 vítimas de casos consumados ou tentados de feminicídio, 34% a mais que no ano anterior, quase 5 mulheres mortas por dia. A maior parte dos feminicídios no país envolve alguém com quem a vítima tem ou teve algum tipo de relação próxima, como companheiros, ex-companheiros ou a pessoa com quem a vítima tem filhos.
Em março deste ano, em mais uma tentativa de frear o surto de feminicídios, o Senado aprovou uma lei que prevê que agressores de mulheres e crianças serão obrigados a usar tornozeleira eletrônica. Inclusive, delegados podem pedir a aplicação de urgência da medida sempre que houver risco à vida e à integridade física ou psicológica da mulher, filhos e seus familiares.
Não é demais lembrar que as mulheres negras continuam sendo as maiores vítimas de feminicídio no país. Mais de 60% das mulheres vítimas deste crime entre 2021 e 2024 são negras, segundo levantamento do Fórum Brasileiro de Segurança Pública. Isso não impede entender que a violência contra a mulher é uma questão atravessada pelo racismo e, ao mesmo tempo, que vai além das discussões de raça.
A violência contra a mulher faz parte da cultura brasileira desde o momento em que se torna mulher. Passa pelo momento em que ensinam aos nossos meninos como odiar o feminino. Se consolida quando homens adultos cometem a dupla violência de não enxergar as mulheres como indivíduos desejáveis e amáveis e, ao mesmo tempo, se sentem autorizados a invadir a intimidade de mulheres sáficas com questionamentos preconceituosos.
E se finda no feminicídio.
Não começa no crime. Começa muito antes.
Quantas violências ainda vão ser tratadas como piada antes que mulheres sejam respeitadas em toda a sua diversidade?
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