O Carnaval de BH nasceu político e segue em disputa
Da Praia da Estação aos blocos de rua, a história do Carnaval de Belo Horizonte é marcada por resistência e defesa da cidade como espaço político.

Jô Andrade
Repórter

Carnaval de Belo Horizonte | Marcos Gomes
Em 2019, os foliões de Belo Horizonte presenciaram uma tentativa de censura durante o desfile do Bloco Tchanzinho Zona Norte. Na ocasião, policiais militares tentaram impedir que integrantes do grupo fizessem comentários críticos ao então presidente da República, Jair Bolsonaro. A Polícia Militar chegou a ameaçar retirar o policiamento do cortejo caso a ordem não fosse acatada.
Não muito tempo depois, entre os carnavais de 2022 e 2024, houve registros de ações policiais de dispersão forçada do público em diferentes pontos da cidade. Em alguns casos, a Polícia Militar utilizou bombas de efeito moral — gás lacrimogêneo — para dispersar os participantes dos blocos.
Além da força policial, o poder público também deixa explícito que o interesse na festa, que sempre foi do povo para o povo, é no dinheiro que ela pode trazer. E quando o discurso é voltado ao retorno monetário que o carnaval pode trazer, ele deixa de ser diverso e a passa a ser “limpo”, branco e elitizado, voltado apenas para quem pode pagar pela folia.
Afinal, dá para possível separar festa de politização? Ou, em algum momento, o Carnaval se propôs não ser político? A resposta para ambas as perguntas é não.
A Praia da Estação foi o pontapé inicial que deu origem ao Carnaval de BH como ele existe hoje, reconhecido, inclusive, como um dos maiores carnavais de rua do Brasil. No início, o ato de ocupar a praça vestindo trajes de verão, levando cooler de bebidas e cadeiras de praia, tinha como objetivo se opor a um decreto do ex-prefeito de Belo Horizonte, Márcio Lacerda. Assinado em dezembro de 2009, o texto proibia a realização de eventos na Praça da Estação.
A tentativa de barrar o uso recreativo de um espaço público gerou um efeito contrário. Centenas de pessoas passaram a se reunir no local em protesto contra a medida. A ocupação ganhou força nas redes sociais da época, em blogs e comunidades online, e artistas locais, coletivos culturais e cidadãos começaram a se organizar de forma mais ampla, dando início à criação de alguns dos blocos de Carnaval de rua mais importantes da cidade.
Após intensa pressão popular, em setembro de 2011 o decreto foi revogado, e o espaço voltou a ser oficialmente livre para eventos. Desde então, são 16 anos de história marcados por resistência, luta por lazer e defesa do direito à cidade, bandeiras erguidas pelo movimento Praia da Estação.
Naquele período, os foliões também botaram na rua o manifesto "Fora Lacerda", um dos movimentos fundamentais para fortalecer a liberdade que marca o Carnaval de Belo Horizonte. Vale lembrar que, antes da Praia da Estação impulsionar o Carnaval da capital, muitos moradores costumavam viajar para cidades históricas — como Ouro Preto, Sabará e Diamantina — em busca da folia do jeito que ela merece ser vivida.
O Bloco da Bicicletinha é um dos mais criativos e carismáticos cortejos de rua do Carnaval de Belo Horizonte. Criado em 2014, surgiu quando um grupo de amigos decidiu pedalar fantasiado pela cidade na quinta-feira que antecede a folia oficial, atraindo centenas de “ciclofoliões”.
Além da identidade visual das bicicletas, que iluminam a noite da capital, o bloco levanta bandeiras sociais ligadas à mobilidade, à ocupação do espaço urbano e à sustentabilidade. O próprio percurso do Bloco da Bicicletinha propõe uma reflexão sobre modelos tradicionais de uso da cidade.
Para os organizadores, tanto a população quanto o poder público precisam ampliar o olhar para outros modais de transporte, como a bicicleta, que pode ser usada não apenas para lazer, mas também como meio de deslocamento para trabalho, escola e outros compromissos do dia a dia.
A carnavalesca e uma das fundadoras do bloco, Malu Almeida, explica que cada cortejo carrega demandas específicas e diferentes pautas. No caso do Bloco da Bicicletinha, o discurso independente e irreverente toca em temas que podem incomodar os donos do poder, mas que apontam para questões urgentes para o desenvolvimento da cidade — ainda que não sejam necessariamente ideológicas.
“O Carnaval é um período de manifestação popular que propõe que a gente viva a vida de outra forma. Existe uma grande dificuldade quando essa escolha política esbarra no poder público, que poderia atuar como mediador da relação entre os blocos e os patrocinadores. A festa precisa de investimento, de banheiros nas ruas, de organização do trânsito — isso também é político”, afirmou.
A ciclista ressalta que, desde o movimento Praia da Estação, existiam demandas sociais que clamavam por espaço, liberdade e segurança. Com o passar do tempo, essa essência passou a ser disputada pela política institucional, à medida que estado e município brigam por uma narrativa sobre quem, de fato, apoiou o Carnaval em seus primeiros passos. Nesse embate, teve até o ex-prefeito de Belo Horizonte, Márcio Lacerda, afirmando que a folia — hoje uma das maiores do Brasil — seria fruto de sua gestão.
“Gostar de Carnaval é luta. Mais do que uma festa, ele é identidade e cultura. Eu gostaria de ver a prefeitura e o governo de Minas abraçando isso de forma mais ampla, considerando os diversos tipos de expressão. O Carnaval é uma narrativa em disputa, e sempre será. Esse Carnaval de luta ressurgiu com a Praia da Estação e o Fora Lacerda. Ele tem uma faísca que é inegavelmente política. Estamos aqui para contar nossa história, que nem todo mundo conhece, e essa narrativa não é a institucional”, concluiu.
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