O dia em que disseram que o Brasil virou latino
Dizer que o Brasil descobriu sua latinidade depois do show do Bad Bunny em São Paulo é apagar artistas que sempre reafirmaram o nosso sangue latino.

Zotha
Colunista

Foto: Reprodução/Redes Sociais
A Rolling Stone publicou recentemente um texto com o título: “Brasil finalmente entendeu que sempre foi latino — graças a Bad Bunny”. Mas o Brasil precisa de um empurrãozinho externo para reconhecer a própria identidade?
O ponto é que existe uma hierarquia dentro do mercado musical global que coloca o eixo Estados Unidos/Europa como o suprassumo das tendências, e o Sul Global subdividido em categorias regionais. Mas, quando o reggaeton explode globalmente, o espanhol domina o Spotify e artistas como Bad Bunny (Porto Rico), Karol G (Colômbia) e Peso Pluma (México) estão frequentemente no topo das paradas, a imprensa começa a reorganizar a narrativa. E então se tornou obrigatório reconhecer o protagonismo da América Latina.
Mas a identidade latina não nasce do algoritmo. O Brasil é latino por formação histórica, e também pela música, pelo carnaval, pelo sincretismo religioso, pelo calor das relações e pela mistura entre tradição e cultura popular. O que mudou ao longo do tempo foi a percepção de valor da nossa identidade.
Se há alguém que escancara o erro na narrativa que os críticos musicais tentam emplacar é Anitta, que se mantém como parte de um Cavalo de Troia brasileiro no mercado musical internacional. Pra quem vê de fora, enxerga uma artista cantando por vezes em espanhol e com hits de reggaeton em playlists globais. Por dentro, o que entra nas muralhas do mainstream é o Brasil, com molho de funk e estética periférica.
Ao arrombar a muralha, Anitta leva o funk para dentro da cultura pop mundial e negocia com gravadoras internacionais, mega agências de publicidade e marcas bilionárias. E entra no jogo do mercado de forma estratégica entendendo que a geopolítica da música não envolve somente idioma e algoritmo, mas também território e demografia. Com esse olhar, a Girl From Rio emplacou sucessos em cada continente, entre 2017 e 2021, antes de fazer Envolver (um típico reggaeton radiofônico) a música mais ouvida do mundo em 2023.
Portanto, dizer que o Brasil descobriu sua latinidade depois de um show do Bad Bunny em São Paulo é apagar artistas que sempre reafirmaram o nosso sangue latino. Muito antes de Anitta, Gilberto Gil já fazia pontes entre Brasil e Caribe; Caetano Veloso já denunciava o imperialismo cultural estadunidense; e Ney Matogrosso desafiava regras de gênero e do conservadorismo em tempos de ditaduras na América Latina nos anos 70.

O fato é que enquanto a grande imprensa tenta explicar a cultura brasileira a partir de artistas estrangeiros, o mundo vive uma tendência estética verde-amarela deslocada do nacionalismo reacionário. As cores da nossa bandeira viraram a linguagem do verão, do exagero, do ritmo, do corpo e da liberdade. Por isso, o Brasil Core não é uma tendência só de moda, mas de estilo de vida.
O Brasil Core nasce como uma trend nas redes sociais, mas é resultado de um emaranhado de jeitinhos brasileiros: MPB no barzinho, funk no baile, sertanejo no rádio, pagode no quintal, novelas que param o país, carnaval de rua e de avenida, cerveja na calçada, bar lotado transmitindo jogo, churrasco de domingo, cadeira de plástico na porta de casa…
E então chegamos à ironia: enquanto a Rolling Stone sugere que o Brasil precisou do Bad Bunny para entender sua raiz latina, é o próprio mercado que tem absorvido a identidade visual brasileira como um frescor de latinidade.
Isso não diminui Bad Bunny de jeito nenhum. Ele é um ícone da música global e um orgulho latino. Mas atribuir a ele o "despertar identitário” de um país revela apenas o olhar de quem está vendo o Cavalo de Troia só por fora.
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