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    ‘O maior desafio é voltar para casa’: Episódios de violência em hospitais de MG ameaçam rotina de profissionais da enfermagem

    Pesquisa do Coren-MG mostra que 94,4% dos profissionais de enfermagem já sofreram algum tipo de violência no trabalho.

    Jô Andrade

    Jô Andrade

    Repórter

    7 min28 de julho de 2026
    ‘O maior desafio é voltar para casa’: Episódios de violência em hospitais de MG ameaçam rotina de profissionais da enfermagem

    Profissionais da enfermagem relatam desafios na rotina de trabalho. Foto: Marcello Casal/Agência Brasil

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    Em Minas Gerais, 94,4% dos profissionais de enfermagem relataram já ter sido vítimas de violência no trabalho. É o que aponta uma pesquisa do Conselho Regional de Enfermagem de Minas Gerais (Coren-MG). O levantamento, divulgado em julho deste ano e respondido por 1.266 profissionais.

    Segundo o Coren, as mulheres encabeçam o trabalho da enfermagem - e também estão mais expostas à violência - correspondendo a 85,3% das pessoas ouvidas.

    Ainda segundo a pesquisa, cerca de 62% das agressões ocorreram em hospitais e, em 76,8% dos casos, foram praticadas pelos próprios pacientes.

    O Conselho também investigou quais situações os profissionais da enfermagem identificam como violência. Humilhações lideram a lista, citadas por 91,2% dos participantes, seguidas por agressões verbais (88,6%), assédio moral (84,9%), discriminação (54,8%), agressão física (46,3%) e assédio sexual (31,7%).

    Mais de 90% dos profissionais da enfermagem já relataram episódios de violência no trabalho. (Ilustrativa) Foto: Thallysson Alves/Secretaria de Estado de Alagoas
    Mais de 90% dos profissionais da enfermagem já relataram episódios de violência no trabalho. (Ilustrativa) Foto: Thallysson Alves/Secretaria de Estado de Alagoas

    Tipos de violência

    A enfermeira Danielle da Silva, de 46 anos, afirmou que em seus 17 anos de trabalho, sendo a maioria em pronto-atendimento, o maior desafio é “voltar para casa”. Episódios de agressão verbal e física são recorrentes, e é um desafio diário não normalizar a insegurança no próprio local de trabalho.

    “Já não somos remunerados como deveríamos, e ainda tem a falta de segurança. Não é um local fácil de trabalhar, infelizmente. Ali, estamos lidando diretamente com a dor e com o medo do outro. A gente é mãe, filho, temos nossos problemas, com a cabeça a mil e ainda passamos por isso. O maior desafio é voltar para casa”, disse Danielle.

    Ainda segundo Danielle, ela já presenciou momentos em que colegas foram ameaçados por pacientes, e que o hospital não oferece estrutura suficiente para proteger os profissionais.

    "Em alguns lugares que já trabalhei, entrava quem quisesse. Já aconteceu de um colega chamar a polícia, o agressor ser preso e voltar no plantão seguinte”, explicou.

    A enfermeira também alertou para um problema grave que atinge diretamente a categoria por causa da exposição à violência, o adoecimento mental. Segundo a profissional, muitos colegas acabaram afastados por adoecimento e que o medo passou a fazer parte da rotina.

    Segundo dados da plataforma SmartLab, desenvolvida pela Organização Internacional do Trabalho (OIT) e pelo Ministério Público do Trabalho (MPT) com base em informações do INSS, técnicos de enfermagem ocupam a 6ª posição entre as categorias com mais afastamentos por transtornos de saúde mental.

    Enfermeiros aparecem em 22º lugar e auxiliares de enfermagem em 18º. Juntas, as três categorias acumularam 70.701 licenças entre 2012 e 2024.

    “Tem muito colega doente, muita gente afastada. Eu sou católica e tenho minha fé, e tô sempre trabalhando com base em muita oração e fé em Deus. Tento pensar que qualquer dia isso vai melhorar, que vai passar. Mas respaldo e ajuda física a gente não tem. É só ajuda de Deus”, disse.

    Sem acolhimento

    Profissional da enfermagem há 25 anos, Dilke Pimenta atualmente trabalha em duas unidades de saúde, uma em Belo Horizonte e outra em uma maternidade de Contagem, na Região Metropolitana.

    Ela conta que a violência emocional faz parte da rotina da categoria, mas carrega até hoje as marcas de uma agressão física sofrida durante um plantão na maternidade, há cerca de 10 anos.

    Segundo Dilke, ela precisou conter uma paciente que havia invadido a sala de atendimento para agredir as médicas da unidade. Ao intervir, acabou recebendo um tapa no rosto. A profissional registrou um boletim de ocorrência, mas a agressora deixou o local sem nenhum tipo de punição.

    Dias após registrar o boletim, ela desistiu de levar o caso adiante por medo de ser perseguida pela suspeita. O resultado foi um afastamento de três meses do trabalho por adoecimento mental.

    “Em nenhum momento recebi apoio da instituição. Ninguém da chefia conversou comigo ou ofereceu qualquer tipo de acolhimento. Pedi para mudar de setor e estou lá até hoje. Nunca, em nenhum momento, tive apoio da instituição”, contou.
    Profissionais relatam desafios dentro das unidades de saúde de Minas Gerais  (Ilustrativa). Foto: Tomaz Silva/Agência Brasil
    Profissionais relatam desafios dentro das unidades de saúde de Minas Gerais (Ilustrativa). Foto: Tomaz Silva/Agência Brasil

    Perseguição dentro do local de trabalho

    A enfermeira Marlene de Castro, que trabalha há mais de 20 anos na área, contou que um dos episódios mais marcantes da carreira aconteceu enquanto atuava em um centro de saúde de Lagoa Grande, no interior de Minas Gerais.

    Após ser acusada por uma paciente psiquiátrica de ter deixado uma agulha em seu braço, passou a ser perseguida dentro da unidade de saúde. Segundo ela, a paciente a ameaçava e tentava agredi-la sempre que a encontrava, o que a levou a pedir uma medida protetiva para conseguir continuar trabalhando.

    De acordo com Marlene, a acusação da paciente foi descartada por exames médicos. A Secretaria Municipal de Saúde chegou a apurar o caso, mas a perseguição continuou por um longo período.

    Marlene relembrou, ainda, que essa mesma paciente acabou sofrendo uma queda, tempos depois do episódio, e teve complicações de saúde. A mulher acabou morrendo na própria unidade onde a enfermeira trabalhava. Antes de falecer, já bastante debilitada e acamada, ela chamou Marlene para conversar e pediu perdão pelo que havia acontecido.

    “Esse foi um dos episódios de violência que vivi ao longo da carreira, mas não foi o único. Infelizmente, situações de agressividade contra profissionais da enfermagem fazem parte da rotina. Muitas pessoas chegam aos serviços de saúde abaladas pela dor, pelo medo ou pelo sofrimento e, às vezes, acabam descontando esses sentimentos em quem está prestando o atendimento. Esses casos acontecem e deixam marcas profundas em quem os vivencia”, afirmou Marlene.

    Pelo fim da violência

    Neste mês de julho, o Coren-MG lançou a campanha “BASTA DE VIOLÊNCIA CONTRA A ENFERMAGEM”, como forma de frear os inúmeros casos de violência e conscientizar sobre o trabalho da enfermagem.

    A partir da campanha e dos números de denúncias reunidos, o Coren-MG construiu um manual de prevenção à violência contra a categoria. O material é encaminhado para as instituições de saúde de todo o Estado, além da ampla divulgação nas redes sociais e canais oficiais.

    Em 2022, Minas Gerais registrou cerca de 250 mil profissionais da enfermagem, entre eles estão 60 mil enfermeiros, mais de 147 mil técnicos e 18 mil auxiliares.

    Para o presidente em exercício do Conselho em Minas, Lucas Tavares, os episódios de violência são de raízes “históricas”, e se repetem ao longo dos anos, mas que isso não pode ser um dificultador para a criação de políticas de proteção.

    “Enfermeiros estão na linha de frente, mais expostos à agressão, e tem o agravante de número maior de profissionais na enfermagem serem mulheres. Quando a gente fala de violência falamos também de assédio sexual, moral, assédio psicológico”, explicou Lucas.

    Segundo o presidente, os cenários são diferentes nas unidades de saúde espalhadas nas cidades mineiras, e a falta de estrutura dentro de hospitais, UBS e UPAs também é um desafio para a categoria.

    “Algumas instituições fazem essa proteção ao trabalhador, mas tem outros casos em que não existe nada, nem mesmo fluxo para conhecimento desses profissionais. Falta estrutura. Estamos tentando nortear as ações como tem que ser feitas, para garantir um espaço seguro para o exercício da enfermagem. E a única forma é lutar por esse direitos”, completou.
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    SaúdeEnfermagemMinas Gerais

    Sobre o autor

    Jô Andrade

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    Jornalista especialista em textos pela UFMG, com passagens pelos veículos g1, BHAZ e Sou BH. Experiência em jornalismo digital, reportagem e edição de conteúdo.

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