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    O novo Carnaval de BH chega à vida adulta com sonhos e boletos a pagar

    O desafio é olhar sempre para essa criança sob o risco de, a não fazê-lo, tornar nosso Carnaval um adulto sem expressão e sem sonhos.

    Márcia Maria Cruz

    Márcia Maria Cruz

    Colunista

    5 min26 de fevereiro de 2026
    O novo Carnaval de BH chega à vida adulta com sonhos e boletos a pagar

    Foto: Reprodução/Jornal Estado de Minas

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    O Carnaval de 2026 começou para mim na sala da minha casa quando chegou às mãos de minha mãe a edição do jornal Estado de Minas de 24 de fevereiro de 1971. Na foto de capa de 55 anos atrás, minha mãe aparece linda em destaque desfilando para o Grêmio Recreativo Cidade Jardim, campeã do desfile de escolas de samba daquele ano. Registro aqui que o Carnaval de BH nunca morreu graças às comunidades da capital que com dificuldade mantiveram-se fiéis à festa, muitas vezes, bancando-a com recursos próprios.

    Para honrar minha mãe, blocos e foliões de um belo horizonte de glitter, leques em sinfonia, suor e muitos passos dados nesta festa da carne, escolhi esse tema para inaugurar minha coluna no portal Xôtifalá!

    Muito se fala de qual é a cara do Carnaval de rua de BH. Se fosse uma pessoa, poderíamos dizer que está perto da maioridade, se considerarmos como marco 2009 da retomada das ruas pelos blocos, são 17 anos. Tempo em que ainda há muitos sonhos para viver, mas que se avizinha a fase de pagar os boletos.

    Estima-se que cerca de 6,5 milhões de foliões passaram a festa na capital, consolidando-se como um das maiores do Brasil, com mais de 600 blocos e com R$1,4 bilhão injetado na economia belo-horizontina.

    Tornou-se uma festa multifacetada e com vocação para múltiplos circuitos sem perder a propostas circunscritas aos bairros. Podemos identificar pelo menos sete: Avenida Afonso Pena/Amazonas; Avenida Brasil, Savassi; Avenida dos Andradas, Santa Tereza, Concórdia/Lagoinha e Avenida Augusto de Lima. Vias ocupadas por bloquinhos, blocos e megablocos.

    Chegada à vida adulta em uma encruzilhada, o que torna o momento ideal para abrir caminhos. Já estamos em um debate público sobre o que será daqui para frente. Partimos do que fomos para entender quem somos e quem gostaríamos de nos tornar. O questionamento pode parecer incômodo, mas se recorrermos ao saber de matriz africana: “Exu matou um pássaro ontem com uma pedra que só jogou hoje", podemos encontrar respostas.

    Carnaval é profano, tempo por definição de alegria e gozo, a festa da carne. As pessoas ligam o modo diversão. E isso por si só, em um regime em que muitos trabalham em escala 6x1, já é catártico e revolucionário. Por isso, a festa é alvo de tantas tentativas de repressão.

    O Carnaval de rua e dos blocos de BH floresce simultaneamente a outras capitais, como Rio e São Paulo; mas como uma particularidade que está no seu DNA: é uma manifestação política e de ocupação do espaço público.

    Conquistar a cidade, transitar, ocupar, descobrir novos trajetos ou simplesmente se sentar em uma cadeira de praia para contemplar e entender que a cidade é das pessoas e não dos carros mudou o nosso horizonte, que se torna infinito quando olhamos para as múltiplas possibilidades que uma cidade da diversidade e verdadeiramente democrática pode oferecer.

    Florescem as artes, a criatividade, o bem-viver, a inovação e novos jeitos de ser. Não estou exagerando nessa análise. Basta ler o livro "BH anos 10"; com textos Artênius Daniel e fotos de Pablo Bernardes, que fizeram um belíssimo trabalho de mapear grupos, coletivos, projetos que se apresentaram na primeira década do século.

    O dilema aparece, no entanto, como em toda vida adulta, quando se fala em dinheiro: como pagar os boletos? Os blocos respondem de formas diferentes e muito criativas a esse dilema: criaram uma cadeia de economia criativa que funciona ao longo de todo ano: oficinas, bandas, shows, moda com a confecção de roupas e adereços e muito mais atividades inovadoras.

    Em um mundo capitalista, porém, tudo tende a ser monetizado, e o Carnaval de BH, diante do crescimento, tornou-se interessante para a publicidade de grandes marcas. E a festa, realizada no peito e na raça por blocos que nasceram do desejo de ocupar, começa a receber artistas de megablocos, que, nem sempre, tomam conhecimento das batalhas para que pudéssemos desfrutar dos espaços públicos da cidade.

    Diante da monetização, é inevitável tomar conta do que nosso Carnaval tem de mais original e de valor: o direito de ocupar o espaço público de forma gratuita e alegre. Nesse movimento não cabem camarotes, abadás que selecionam ou qualquer outra manobra que não nos franqueie a alegria e nos limite a circulação.

    O poder público - prefeitura e governo do estado - têm grande responsabilidade de propor políticas de fomento aos blocos e prover estrutura para os foliões, que vai da oferta de banheiros químicos à segurança, mas muito além diante do entendimento que a cadeia criativa do Carnaval deve ganhar suporte o ano inteiro.

    Às marcas privadas, digo que precisam respeitar a memória da cidade para que a história continue sendo escrita de forma tão bonita, às muitas mãos e com múltiplas vozes, batuques e sons. O Carnaval tem espaço para todo mundo? Tem! Mas a festa de Belo Horizonte tem DNA.

    O desafio é olhar sempre para essa criança sob o risco de, a não fazê-lo, tornar nosso Carnaval um adulto sem expressão e sem sonhos! Nosso Carnaval é lindo por ser diverso, criativo e político! Já jogamos a pedra!

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    Sobre o autor

    Márcia Maria Cruz

    Márcia Maria Cruz

    Colunista

    Jornalista e doutora em Ciência Política. Autora dos livros “Morro do Papagaio”, “Maria Mazarello – preto no branco, lutas e livros" e “Vidas inteiras – Histórias dos 10 anos da Lei de Cotas. Semifinalista do Prêmio Jabuti e vencedora do Troféu Mulher Imprensa.

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