O trabalho invisível que sustenta o Carnaval de BH
Projeto ReciclaBelô mantém a reciclagem e as condições dignas de trabalho dos catadores durante a maior festa da capital.

Jô Andrade
Repórter

Foto: Mauricio Costa/ReciclaBelô!
Imagine como seriam os quatro dias de Carnaval com latas de cerveja, copos de plástico e garrafas de vidro espalhadas no chão enquanto você curte seu bloco favorito? Agora, pense como seria circular pelo Centro de BH com tudo tomado por rótulos de bebidas e outros resíduos que deveriam estar na lata de lixo?
É por isso que o trabalho dos catadores é tão importante, porque são eles que fazem a folia possível e mais sustentável para você curtir seu bloco preferido sem dor de cabeça. Apesar de invisibilizados, são esses trabalhadores que mantém a cidade acessível para carros, trios elétricos e todas as pessoas que estão na cidade.
Foi a partir da atuação histórica dos catadores de Belo Horizonte que nasceu o projeto ReciclaBelô, uma das iniciativas mais importantes da capital. Nos últimos quatro anos, o projeto passou a estruturar condições mais dignas de trabalho para quem já atua na coleta nas ruas, oferecendo renda, equipamentos e apoio logístico.
Entre falta de investimento, escassez de recursos públicos e alguns avanços conquistados “aos trancos e barrancos, o RecilcaBelô já alcançou o número de 40 toneladas de resíduos reciclados. Só no carnaval de 2025, o projeto atendeu mais de 500 trabalhadores da reciclagem.
A iniciativa veio a partir de um incômodo, em 2014, quando participantes da Praia da Estação foram fotografados durante o ato político. A imagem mostrava lixo espalhado por toda a praça, como plástico, latas de alumínio e vidro, e logo foi compartilhada nas redes sociais.
Os comentários na foto eram unânimes, todos criticavam quem participou do evento, afirmando que as pessoas deixam o local mal cuidado e cheio de lixo, em uma tentativa de associar o público da Praia da Estação à falta de cuidado com a limpeza urbana.
Na discussão, outras pessoas passaram a chamar atenção a apontar que o problema da Praça não estava nos participantes, mas na ausência de política pública capaz de atender eventos de grande porte em Belo Horizonte.
“Eu lembro que, na época, inverti a discussão e comentei na foto que estava vendo apenas material reciclável. Será que a culpa é das pessoas ou de um sistema de reciclagem que não funciona na nossa cidade? Será que a crítica é aos indivíduos ou ao sistema que não está nos atendendo com um serviço adequado?”, disse Juliana Gonçalves, integrante e uma das principais ativistas do ReciclaBelo.
Há cerca de 16 anos, Juliana se engajou no tema da sustentabilidade, trabalhando diretamente em defesa dos catadores. Segundo ela, o papo sobre o lixo espalhado na Praça da Estação, em 2014, chegou até a Prefeitura de BH. E assim, o tema deixou de ser assunto de redes sociais e passou a ser pensado como política pública e estratégias de reciclagem para o Carnaval. Quatro anos depois, o trabalho começou a receber um pouco mais de atenção, ainda que a passos lentos, com um pequeno grupo de catadores.
2018 – Ano da primeira experiência no Carnaval de Belo Horizonte, em uma ação realizada pela Associação de Catadores de Papel, Papelão e Materiais Reaproveitáveis (Asmare), em parceria com a marca Skol. O trabalho de reciclagem foi pequeno, e contou com poucos catadores, concentrados em regiões por onde passavam os principais blocos.
2019 – As cooperativas de reciclagem passaram a executar o serviço de coleta seletiva a partir de um contrato com a Prefeitura de BH. O acordo previa atuação em grandes blocos, principalmente na região da Savassi.
2020 – A Ambev criou um grande projeto de sustentabilidade em diversas capitais do Brasil, com investimento em reciclagem. Com o patrocínio da marca, a coleta no Carnaval foi ampliada e chegou a mais regiões por onde passavam os blocos.
2022 – O ReciclaBelo se estrutura de fato no Carnaval pós-pandemia. A organização projetou construir melhores condições de trabalho para os catadores que já atuavam nas ruas, garantindo renda, acesso a equipamentos de proteção e estrutura adequada para a coleta seletiva.
“Não estávamos reinventando a roda. Todo evento tem catadores — jogos, shows, festas. Isso já existe. O que fazemos é criar condições melhores para quem já realiza esse trabalho. O ReciclaBelô surge com essa concepção, e os que não estão vinculados a cooperativas são catadores autônomos”, explicou Juliana.
2023 – Apesar do “boom” de 2022, no ano seguinte a iniciativa não recebeu a mesma atenção. O ReciclaBelô operou os quatro dias de festa sem orçamento. Os catadores não receberam diária, e o principal apoio veio do bloco Abalô Caxi. Com o valor arrecadado, foi possível comprar sacolas para a coleta, enquanto a Prefeitura de Belo Horizonte ofereceu alimentação no Restaurante Popular. Diante da falta de recursos, cooperativas precisaram recorrer a empréstimos, já que os trabalhadores sequer tinham luvas de proteção.
“Os catadores disseram que não daria para operar. Expusemos a situação ao Governo de Minas, ao Ministério Público, à prefeitura e ao Ministério Público do Trabalho. Em 2023, consideramos que não realizamos o ReciclaBelo da forma que queríamos, mas ainda assim coletamos 12 toneladas de material reciclado e atendemos 150 catadores em condições extremamente precárias. Foi um terror”, relatou Juliana.
2024 – Após um ano de dificuldades, a Secretaria de Estado de Meio Ambiente e Desenvolvimento Sustentável entrou como apoiadora do projeto e articulou, junto à plataforma Sementes, do MPMG, o financiamento das estruturas dos centros de distribuição do ReciclaBelô. Esses espaços foram montados em diferentes regiões para entrega de kits aos trabalhadores da reciclagem.
Naquele ano, houve uma disputa maior entre o Governo de Minas e a Prefeitura de Belo Horizonte pelo protagonismo no Carnaval. Nesse cenário, a prefeitura contribuiu com água e tendas, enquanto a Companhia de Saneamento de Minas Gerais (Copasa) entrou como uma das principais investidoras. Com os recursos, o ReciclaBelô conseguiu fornecer uniformes, equipamentos de proteção, alimentação e tênis. Ao todo, foram coletadas 33 toneladas de materiais, e 300 catadores foram contemplados.
2025 – No ano passado, 40 toneladas de resíduos foram recolhidas, e 250 coletores foram às ruas para garantir um Carnaval minimamente sustentável. Ainda assim, um impasse com a prefeitura quase atrasou a execução da ação. Após prometer apoio, o Executivo municipal contratou uma empresa privada, de fora da cidade, para executar o ReciclaBelo. Cooperativas e organizadores precisaram pressionar o poder público para que o trabalho não fosse entregue à iniciativa privada. Às vésperas do Carnaval, a prefeitura voltou atrás e firmou acordo com as cooperativas locais.
“Mostramos a força política do projeto”, relembrou Juliana.
Para este ano, a organização afirmou que ainda têm dificuldades com a Prefeitura de Belo Horizonte, que não detalhou o contrato nem confirmou se disponibilizará o caminhão para melhorar o trabalho da coleta.
“Precisamos da reciclagem para que esse material vá para o lugar certo, e não para o aterro sanitário. Não se trata de limpar a rua e jogar tudo para debaixo do tapete. A reciclagem é uma solução tecnológica para o resíduo. O ReciclaBelô nunca recebeu recursos de marcas de cerveja ou bebidas, que por lei deveriam cumprir a logística reversa. Muitas empresas lucram no Carnaval e não apoiam o projeto que recolhe as embalagens delas das ruas”, afirmou a ativista.
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