Xôti Falá
    Início
    Diálogo
    Nossa Cidade
    Planeta
    Cena
    Gente
    Prosa
    Sobre nós
    Home/Gente
    mulheres negrasracismo

    Orgulho não é arrogância: a culpa que querem que mulheres negras sintam por vencer

    Quando mulheres negras vivem além da sobrevivência, a sociedade não celebra, ao contrário, questiona, vigia e, muitas vezes, pune.

    Lívia Teodoro

    Lívia Teodoro

    Colunista

    12 min4 de março de 2026
    Orgulho não é arrogância: a culpa que querem que mulheres negras sintam por vencer

    Foto: Marcos Gomes

    Compartilhar

    Demorei anos para entender que o incômodo que algumas pessoas sentem diante das minhas conquistas não tem a ver comigo. Tem a ver com o lugar que esperavam que eu continuasse ocupando.

    Fui a moça que contava moedinhas para pagar xerox na faculdade. A que pegava ônibus lotado pensando se o dinheiro dava até sexta. Eu era pobre, sim. E sobrevivi em um país que nunca facilitou o caminho para mulheres como eu, sendo criativa, esforçada e ambiciosa, palavra que quase sempre soa como defeito quando acompanha mulheres negras.

    Hoje ocupo espaços que antes pareciam distantes. Falo das minhas vitórias. Celebro escolhas que antes não eram possíveis. E isso, curiosamente, incomoda mais do que qualquer dificuldade que eu já tenha vivido.

    Descobri que há quem prefira a versão antiga de mim. A versão pequena, silenciosa, apertada. Porque quando uma mulher que veio do corre começa a falar das próprias conquistas, ela deixa de ser humilde e passa a ser vista como metida. Deixa de ser batalhadora e vira arrogante. Como se existir em expansão fosse uma afronta.

    Eu não fiquei rica, quem dera! Mas me formei, fiz pós-graduação, construí autonomia dentro das brechas que consegui acessar. E sei que muitas tão capazes quanto eu não tiveram as mesmas oportunidades. Não me permito mais sentir culpa por isso. Agradeço o convite para ser colunista neste espaço justamente por isso. Porque escrever também é uma forma de ocupar. E ocupar falando de vitória é um ato político. Este texto é para a Lívia do corre, que resistiu quando desistir parecia mais fácil. E é para o meu filho, Marcelo, que talvez possa caminhar em um terreno um pouco menos desigual do que aquele que encontrei.

    Se falar das minhas conquistas é aparecer, então, Xôtifalá: que eu apareça inteira.

    O preço social de ultrapassar o lugar que nos foi destinado

    A culpa que toma mulheres negras por viverem além do básico não nasce do nada, ela é construída. Uma sociedade, racializada ou não, está acostumada a enxergar pessoas negras, especialmente mulheres, no lugar da miserabilidade, da angústia, da falta e da ausência. Com isso, mulheres negras que ultrapassaram alguma barreira social tendem a se sentir culpadas por não ocuparem mais o lugar esperado para pessoas negras e por exaltarem suas conquistas.

    Estamos no século XXI, no Brasil polarizado politicamente e vivendo o momento histórico após um período em que algumas pessoas negras puderam, por meio dos estudos e programas de mobilidade social, melhorar de vida. Não se tornaram donas dos meios de produção, mas passaram a fazer escolhas básicas. E, ainda assim, isso já parece ser demais para alguns.

    Esse incômodo social se manifesta quando o ódio, declarado ou não, aparece. Há quem não suporte a ideia de que pessoas historicamente colocadas em locais de subalternidade vivam além do básico. Mais do que isso, consideram ofensivo que pessoas que conseguiram viver além de sobreviver demonstrem isso de maneira clara e feliz, seja nas redes sociais, nas rodas de amigos ou apenas vivendo suas vidas.

    Porque tradicionalmente mulheres negras precisam performar o estereótipo da escassez. Se fogem desse padrão, são tomadas pela culpa de não estarem cumprindo a expectativa gerada sobre elas. A expectativa de estar sempre no corre para sobreviver, nunca no lugar do conforto.

    Mas como essa culpa se forma?

    Para aprofundar a dimensão psicológica dessa culpa, conversei com a psicóloga Erica Machado (@psicologaericamachado), que atua na abordagem da Terapia Cognitivo-Comportamental (TCC). Segundo ela, compreender como crenças e padrões aprendidos ao longo da vida moldam emoções e comportamentos é fundamental para entender por que esse sentimento não é individual, mas construído coletivamente.

    “Na TCC, entendemos que a culpa nasce das crenças que a pessoa construiu ao longo da vida. Muitas mulheres negras cresceram ouvindo, de forma direta ou indireta, que o lugar delas era o da luta, da escassez, da sobrevivência”, explica.

    Para a profissional, esse sentimento retira dessas mulheres a legitimidade de suas próprias conquistas. “Quando elas rompem esse padrão e começam a acessar conforto, estudo e reconhecimento, surge um conflito interno. É como se uma parte dissesse: ‘eu conquistei’, e outra perguntasse: ‘mas será que eu podia?’”.

    Erica destaca que há um choque entre a realidade na qual essas mulheres foram socializadas e a nova vivência que passam a construir. Essa culpa vem muito desse choque entre a identidade que foi ensinada e a nova trajetória que está sendo conquistada.

    Ela também explica que essa culpa pode estar diretamente ligada à internalização do racismo estrutural, que opera no inconsciente e molda a forma como essas mulheres percebem a si mesmas e seus lugares no mundo.

    “O racismo estrutural não afeta só oportunidades, ele molda como a pessoa se enxerga. Quando você cresce num contexto que diz, mesmo que de forma sutil, que certos espaços não são pra você, isso vira crença interna. Às vezes não é algo consciente, mas aparece em pensamentos como: ‘Eu não pertenço aqui’, ‘Vão achar que eu estou me achando’, ‘Melhor não falar muito das minhas conquistas…’, é assim que o estrutural vira algo subjetivo”.

    Como disse Lélia Gonzales, em “Odara Dudu: Beleza Negra”, “Um dos modos mais eficazes de domesticação utilizados pelas classes dominantes brancas tem sido o de estabelecer uma relação direta do termo negro com tudo aquilo que é mau, indesejável, feio, sujo, sinistro, maldito e etc.”.

    Embora a autora esteja falando da beleza física, podemos aplicar esse discurso à necessidade constante que uma sociedade racista tem de impor às pessoas negras a permanência num lugar simbólico e social que é indesejado, sujo e marginal. Não basta excluir. É preciso convencer que aquele é o único lugar possível.

    Faz parte do racismo estrutural o senso comum de que pessoas negras presentes em espaços considerados elitizados estão ali para servir. É socialmente convencionado que pessoas negras teriam uma aptidão inata para ocupar esses lugares.

    Como exemplo recente disso no mundo pop, tivemos a cantora Luiza Sonza processada pela advogada Isabel Macedo, em 2023, por cometer racismo ao associar Isabel a uma garçonete apenas pela cor da pele.

    Conforme consta no processo, encerrado após acordo de indenização entre as partes, Isabel estava na Pousada Zé Maria, em Fernando de Noronha, assistindo ao show da própria artista quando teria sido abordada por ela, exigindo que lhe trouxesse um copo d’água. Ou seja, apenas por ocupar aquele espaço, sendo diferente das figuras com quem a cantora estava supostamente acostumada a esbarrar, a mulher só poderia ser considerada alguém presente para servir.

    Mas o controle não termina aí

    Quando mulheres negras ocupam espaços considerados elitizados e falam de suas conquistas, outro mecanismo entra em cena. Elas passam a ser chamadas de arrogantes, metidas e aparecidas.

    Para entender como essa rotulação opera, conversei também com a psicanalista Karina Sousa (@akasousan), que integra o Coletivo Ocupação Psicanalítica da UFMG e investiga os atravessamentos entre raça, gênero e subjetividade, partindo das memórias e experiências vividas como mulher negra periférica no espaço universitário. Segundo ela, o julgamento não é casual.

    Karina recorre à filósofa Sueli Carneiro para explicar o fenômeno. No livro Racismo, sexismo e desigualdade no Brasil, a autora aponta que uma das características centrais do racismo é aprisionar pessoas não brancas em imagens fixas e estereotipadas. “Considerando o contexto histórico e social de formação da sociedade brasileira, nenhum comportamento pode ser isolado das heranças do período escravizatório. Por isso, mesmo uma leitura psicológica precisa ser também social”, explica.

    Ela ressalta que, socialmente, a categoria de sujeito, entendida como aquele dotado de subjetividade, identidade e agência sobre si, sempre foi atribuída prioritariamente ao homem branco. Os demais grupos, historicamente, precisam reivindicar diariamente sua condição de sujeitos.

    “Quando uma mulher negra se vê numa posição de ter algo que seja lido como conquista, o que por si só já não era esperado, e vai além, ousando nomear suas vitórias e dar a elas reconhecimento público, essa leitura é atravessada pelo racismo genderizado”, afirma. “Mulheres negras não são socialmente autorizadas a se comportar como sujeitos plenos, com identidade e agência. Por isso, a interpretação feita sobre elas difere da que recai sobre outros grupos. Elas desafiam as imagens fixas que foram construídas sobre o que deveriam ser.”

    Ela explica ainda que essa rotulação pode funcionar como um mecanismo de controle simbólico, um limite invisível que determina até onde mulheres negras podem ir sem sofrer punições sociais. Mas, segundo Karina, é possível avançar nessa leitura: “Podemos pensar também em um certo ressentimento daqueles que nunca precisaram reivindicar sua posição de sujeito, como homens brancos, europeus, cis-heterossexuais. Cada vez que integrantes de grupos historicamente minorizados, nesse caso as mulheres negras, fazem um movimento de reivindicar sua humanidade, isso tensiona posições hegemônicas e privilégios. E, de fato, coloca essas estruturas em risco”, afirma.

    Para a profissional, os impactos na autoestima e na liberdade de expressão precisam ser analisados caso a caso, já que a experiência das mulheres negras não é homogênea. Ainda assim, as profissionais ouvidas para esta coluna reforçam elementos que aparecem com frequência tanto em seus atendimentos quanto nas pesquisas acadêmicas: culpa, sensação de não merecimento, dificuldade de validar e reconhecer as próprias conquistas e uma constante sensação de deslocamento.

    O racismo é estrutural e faz com que, infelizmente, outras pessoas negras também reproduzam esse julgamento estereotipado. Seja diminuindo conquistas, estimulando o silenciamento ou taxando de “metidas e arrogantes” aquelas que falam de suas vitórias e possibilidades de ocupar outros lugares.

    Quando esse julgamento passa a ser reproduzido também por pessoas negras, o problema se aprofunda. Sobre isso, a psicanalista Karina Sousa aponta: “A gente sabe que o racismo opera de forma a estruturar a sociedade, assim, ele atravessa o nosso processo de subjetivação, ou seja, aquilo que aprendemos, acreditamos, a nossa lente para enxergar o mundo. Então, o nosso próprio repertório social é completamente manchado pelo racismo e o colonialismo.”

    Ela lembra que vivemos séculos sob essa lógica e que ainda estamos longe de diminuir seus efeitos. No cotidiano, muitas vezes subdimensionamos o impacto disso nas relações e na forma como interpretamos trajetórias de sucesso de mulheres negras.

    Para Karina, há também um descompasso entre as mudanças materiais e simbólicas em curso. “Estamos acompanhando, na contemporaneidade, processos de ascensão social e financeira de mulheres negras, mas a sociedade ainda não consegue ler isso como algo aceitável e esperado. É uma novidade.”

    Em “A juventude negra brasileira e a questão do desemprego”, Lélia Gonzales demonstra como o desenvolvimento desigual no capitalismo já coloca a juventude negra atrás na corrida. Pessoas negras, especialmente mulheres, são forjadas desde o período da escravidão a ocupar o lugar da subalternidade social.

    Em “Quem tem um, não tem nenhum”, Laura Guimarães Correa e Mayra Bernardes discutem a baixa presença de pessoas negras na mídia brasileira. Quem cresceu nos anos 90, como eu, acostumou-se a ver pessoas negras em personagens caricatos ou ligados à criminalidade. Isso forma um imaginário que sustenta expectativa social. A sociedade construiu a imagem de que pessoas negras devem ocupar o lugar da pobreza ou o que chamo de “limite do corre pela sobrevivência”.

    Quando pessoas negras tentam quebrar esse ciclo, encontram mais do que barreiras estruturais. Se deparam com o recalque social por atravessarem essas barreiras. A vida, que já é suficientemente difícil, torna-se ainda mais penosa quando falar de conquistas vira algo a ser reprimido para não soar arrogante.

    Ao frequentar espaços antes exclusivos para a branquitude, pessoas negras sentem-se deslocadas. E, ao retornarem aos espaços onde cresceram, podem ser vistas como superiores apenas por conquistarem algo diferente. É nesse ponto que a síndrome do impostor ganha contornos ainda mais profundos. Sentir insegurança é humano. Mas a desumanização histórica torna esse sentimento mais intenso para mulheres negras.

    Sobre os impactos dessa culpa na saúde mental, a psicóloga Érica Machado explica que o processo pode gerar, além da síndrome do impostor, ansiedade, autossabotagem e uma sensação constante de precisar se diminuir. “Quando a mulher sente que precisa encolher as próprias conquistas para não incomodar, ela entra num estado de vigilância o tempo todo. Isso é muito desgastante”.

    Para a profissional, é fundamental compreender que essa culpa não é uma fragilidade individual, mas o efeito de uma história coletiva. “O trabalho terapêutico é justamente ajudar a separar o que é dela do que foi imposto e permitir que ela cresça sem sentir que está traindo suas raízes.”

    É preciso rejeitar o lugar de vergonha por vencer

    Vitórias individuais não resolvem o problema do racismo estrutural do Brasil. Mas isso não elimina o direito de mulheres negras celebrarem seus currículos, suas conquistas financeiras, emocionais, psicológicas e falarem disso com orgulho. Também é preciso que outras pessoas negras revisitem suas próprias dores e limites internalizados, para que o sucesso de uma não seja lido como ameaça à outra.

    Para a psicanalista Karina Sousa, a chave para mudar esse cenário passa por ampliar o imaginário coletivo. “Cabe a nós, coletivamente, seguir pautando realidades diversas de mulheres negras, para nutrir outros repertórios e tornar essas trajetórias não uma exceção, mas parte do que se entende como vida possível.”

    Será uma vitória coletiva quando mulheres negras que ascendem não forem penalizadas por isso. Quando orgulho não for confundido com arrogância. Quando o bem-viver para mulheres negras não for mais visto como afronta.

    *Entrevistas concedidas pelas psicólogas Érica Machado e Karina Sousa para esta coluna.

    Compartilhar:

    Tags:

    mulheres negrasracismo

    Sobre o autor

    Lívia Teodoro

    Lívia Teodoro

    Colunista

    Professora de História graduada pela UFMG, com formação transversal em História da África e Afro-brasileira, e relações étnico raciais. Possui MBA em Jornalismo Digital, criadora de conteúdo nos perfis 'Patroa Mesmo' e integra o time de influenciadores da Teia de Criadores. Mãe solo, lésbica e ativista digital, Lívia utiliza a internet como ferramenta de transformação social com humor e originalidade.

    Xotifala

    Jornalismo independente, acessível e comprometido com a verdade.

    Editorias

    • Diálogo
    • Nossa Cidade
    • Planeta
    • Cena
    • Gente
    • Prosa

    Institucional

    • Sobre nós
    • Política Editorial
    • Política de Privacidade
    • Termos de Uso
    • Teia de Criadores
    Xôtiscutá!

    Tem uma história importante? Queremos escutar você.

    Enviar email

    © 2026 Xotifala. Todos os direitos reservados.

    Feito por Buzz33