Os artistas locais que puxam multidão no Carnaval de BH
Nomes como Di Souza, Thanya Canella, Michelle Andreazzi, Aline Calixto, Nágela Rocha e Rafa Ventura são só alguns dos artistas.

Jô Andrade
Repórter

Foto: Reprodução/Redes Sociais
Artistas da cena local de Belo Horizonte, como músicos, DJs, percussionistas e cantores constroem durante um ano inteiro o show que vemos nas ruas durante o carnaval. São essas pessoas que ajudaram a modelar a identidade da festa, mesmo sem patrocínio robusto, investimento garantido e, em casos de blocos menores, sequer o cachê.
Enquanto grandes trios elétricos patrocinados por marcas milionárias anunciam nomes como Alok, Pedro Sampaio, Michel Teló e Xamã, a base que sustenta a folia também arrasta milhares de foliões nos mais de 600 blocos que desfilam este ano. No entanto, a visibilidade e divulgação desses nomes da cena local ainda é inferior aos grandes nomes de repercussão nacional. Uma disputa injusta com quem já fazia a festa acontecer antes mesmo dela ter todo este tamanho.
Nomes como Di Souza, Thanya Canella, Michelle Andreazzi, Aline Calixto, Nágela Rocha e Rafa Ventura são só alguns dos que sustentam horas de show no chão ou em cima dos trios, debaixo de chuva ou sol com glitter e sorriso no rosto.
E em um carnaval cada vez mais disputado por narrativas e interesses, valorizar quem faz a festa nascer nos bairros e nas periferias não é apenas uma escolha, mas um posicionamento político sobre que cidade se quer construir.
Na última terça-feira (3), vimos o cancelamento em forma desabafo do desfile de um dos blocos mais tradicionais do carnaval de BH, e que está há 16 anos na atividade. O Alcova Libertina não vai sair este ano após ser boicotado e cortado da programação oficial por falta de apoio do poder público. A administração do bloco contou que o cortejo foi retirado da Avenida dos Andradas, seu local histórico, não por inviabilidade técnica mas por opção política.
"O que está em curso em Belo Horizonte é um processo deliberado de esvaziamento político e cultura do carnaval de rua, substituindo quem faz a festa por quem lucra com ela. Enquanto isso, recursos públicos e privados continuam irrigando estruturas voltadas à exploração econômica da festa, grandes marcas, grandes eventos, grandes interesses que não constroem carnaval, apenas extraem valor dele".
O relato também veio de encontro com a Liga dos Blocos de Rua e de Luta, que denunciou as escolhas da gestão pública por priorizar e valorizar as grandes produtoras e iniciativas de fora de Minas Gerais enquanto a cultura e a cadeia produtiva local segue sem fortalecimento.
"Enquanto os cortejos de rua, diversificados e espalhados por todas as regionais, seguem com apoio escasso e sem políticas permanentes de fomento, assistimos ao anúncio de artistas de projeção nacional na programação oficial, a maioria sem qualquer ligação orgânica com a cena carnavalesca local. O Carnaval de Belo Horizonte se tornou o terceiro destino turístico do país porque foi erguido pelos seus artistas, artesãos, produtores, técnicos, ambulantes e foliões”, afirmou a Liga.
##BH é quem?
A atriz e cantora Thanya Canela, uma das vozes do bloco Tchanzinho Zona Norte, explicou que sempre se sentiu pertencente ao carnaval de Belo Horizonte e aos blocos de rua, mas que esse tratamento não é o mesmo vindo do poder público.
"Sempre me senti acolhida pelos blocos de rua de Belo Horizonte como um todo. Já cantei com outros blocos e o sentimento sempre foi de reconhecimento e pertencimento. Isso é bem diferente do que sinto em relação ao poder público. Quando falamos de prefeitura e governo do estado, a realidade muda. Nós, artistas e blocos de carnaval, somos sistematicamente desvalorizados. Todos os anos precisamos praticamente implorar pelo mínimo de apoio para realizar um trabalho que é construído ao longo de todo o ano, envolve muitos profissionais e exige uma estrutura enorme”, afirmou a artista.
Ainda segundo a artista, a construção do carnaval passa por pautas sociais que são caras para a população, e isso é um dos combustíveis para blocos permanecerem ativos e em luta, mesmo sem incentivo e recursos necessários.
"O que move o artista no carnaval é o amor. Amor pela arte, pela cultura da cidade, pela cena cultural que é extremamente potente. É acreditar nos artistas que temos, na nossa capacidade de construir uma festa de altíssima qualidade, mesmo sem apoio. Mas não é só isso. O carnaval também é um espaço de voz. Ele movimenta pautas importantes, políticas, sociais, reivindicações que dizem respeito à cidade e às pessoas. É uma festa democrática, gratuita, feita pelas pessoas e para as pessoas, onde arte, música, política e consciência caminham juntas".
Já a cantora e idealizadora do Bloco da Cíclica, Nágela Rocha, disse que o público também precisa olhar com mais carinho para os artistas da cidade, já que o poder público muitas vezes ignora todas as necessidades para um bloco de rua conseguir fazer o cortejo.
“Ano passado tivemos Duda Beat no Então, Brilha, e não somos contra, mas que isso seja incorporado ao carnaval de BH a partir da mesma forma que que já fazemos o carnaval acontecer. Dava para investir na gente. O carnaval de BH é feito por artistas incríveis, pessoas incríveis, tem para todos os gostos, a cena autoral é incrível. Falta esse olhar para dentro. Não somos contra artistas conhecidos nacionalmente, mas precisamos investir na gente”, disse a artista.
A cantora afirmou, também, que o carnaval de Belo Horizonte precisa resgatar ainda mais suas raízes fora da região central, onde desfilam os blocos de maior público, e também entregar uma festa de qualidade dos bairros mais distantes do Centro.
"Qualquer artista que vier aqui vai puxar centenas de milhares de pessoas, porque é conhecido, mas são poucas as pessoas que dão valor para o artista que bota o bloco na rua que suam tanto pra poder fazer isso".
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