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    Políticos apelam para pedidos de doações enquanto escolhem não fazer política de prevenção

    Deputados fazem palanque com "vakinha" e governador agradece doação do povo em tentativa de terceirizar a responsabilidade do problema.

    Jô Andrade

    Jô Andrade

    Repórter

    4 min6 de março de 2026
    Políticos apelam para pedidos de doações enquanto escolhem não fazer política de prevenção

    Foto: Reprodução/Redes Sociais

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    Enquanto a Zona da Mata e outras tantas regiões de Minas Gerais contam seus mortos e tentam desenterrar o que sobrou após as chuvas que atingiram o estado na última semana, tem deputado fazendo vakinha online e outros pedindo doações para os atingidos. A regra é clara, em casos de calamidade pública, sempre vai ter um oportunista fazendo da tragédia um case de sucesso sobre si mesmo.

    De um lado, o deputado Nikolas Ferreira (PL) corre para as redes sociais para bater meta com uma vakinha milionária, sim, o mesmo parlamentar que, quando vereador, comemorou o veto de R$1 bilhão que seriam destinados justamente para obras de drenagem e prevenção de enchentes em Belo Horizonte.

    Do outro, o governador Romeu Zema (Novo) surge agradecendo e exaltando a solidariedade dos mineiros que estão tirando dinheiro do próprio bolso para ajudar quem mais precisa. Mas vale lembrar que o governo de Minas cortou 96% nas verbas de combate a desastres nos últimos dois anos.

    Enquanto Zema fala de solidariedade de um povo que faz de tudo para ajudar os atingidos, o Governo Federal denuncia que o estado deixou de usar R$3,5 bilhões do PAC destinados especificamente para contenção de encostas e macrodrenagem por pura falta de apresentação de projetos.

    É o retrato de um Estado que escolheu o abandono como política pública e agora tenta terceirizar a solidariedade para esconder a própria incompetência. A população de Minas - que já paga tanto por um dos congressos mais caros do mundo - ainda tem condições de arcar com a falta de competência do poder público?

    A responsabilidade de cuidar e, principalmente, destinar recursos para evitar tragédias são dos nossos parlamentares. Os mesmos que fazem palanque em cima dos corpos e que aparecem de cara e roupa limpa no meio da lama que levou casas, prédios e vidas.

    Foto: Tânia Rego/Agência Brasil
    Foto: Tânia Rego/Agência Brasil

    Falta política habitacional

    Em junho de 2021, durante o governo Bolsonaro, a gestão de Romeu Zema foi acusada por servidores de sucatear a Companhia de Habitação do Estado (COHAB), uma empresa focada em combater o déficit habitacional e urbanização de vilas e favelas. Na época, a acusação era de que o governo Zema teria desligado o Cohab do programa de Regularização Fundiária e Melhoria Habitacional, para favorecer o mercado imobiliário.

    Em 2025, o valor que o governo de Minas projetou para investir no Cohab foi de apenas R$120 mil, conforme consta no relatório da Lei Orçamentária Anual (LOA 2025). Esse valor é previsto diretamente do orçamento do Estado. Vale lembrar que outros relatórios de execução financeira ou prestação de contas de Minas podem trazer outros números quando se somam todas as fontes de recursos utilizadas pela Cohab no ano, no entanto o valor definido na LOA é este conforme registro oficial.

    O que vemos acontecer em Minas Gerais não é acaso, é escolha política. Recorrer ao povo, que em sua maioria vive com uma média salarial precária, para resolver um problema que não foi sanado por mera opção, não é aplaudir a solidariedade, é tirar a responsabilidade dos próprios políticos.

    Convocar doações enquanto se comemora o veto ao investimento em obras de contenção de enchentes não é ato heróico, mas uma tentativa de esconder que tais parlamentares têm o poder político de mudar a realidade das várias famílias que foram afetadas. Mas enquanto a prioridade for saber se pessoas trans deveriam ou não usar o banheiro, ou monitorar como votou cada influenciador digital de outros estados do Brasil, Minas Gerais vai continuar chorando pelas vidas perdidas.

    "Podemos pensar que, por exemplo, um raio mata, mas a chuva em si, não. O que o poder público pode fazer antes? Isso vai continuar acontecendo enquanto chover, se a gente não remontar a cidade, repensar e reconstruir. Depois que morrer, não adianta falar em tragédia, deveríamos pensar na construção de moradias”, disse o pesquisador e geógrafo, Lucas Oliver.
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    Jô Andrade

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    Jornalista especialista em textos pela UFMG, com passagens pelos veículos g1, BHAZ e Sou BH. Experiência em jornalismo digital, reportagem e edição de conteúdo.

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