Prioridades, né? Damião sanciona Dia Municipal do Dirigente Cristão de Empresas
Enquanto isso, BH segue precisando de um prefeito

Alícia Lanna
Jornalista

Foto: Reprodução
O prefeito de Belo Horizonte, Álvaro Damião (União Brasil) sancionou uma nova lei que cria o Dia Municipal do Dirigente Cristão de Empresas na capital mineira. A medida, oficializada em 16 de maio, passa a integrar o calendário oficial do município, com celebração anual prevista para 18 de junho.
Segundo o texto, a nova data busca reconhecer empresários e gestores cristãos por sua suposta contribuição ao desenvolvimento econômico e social de Belo Horizonte, valorizando modelos de liderança inspirados em princípios como ética, responsabilidade social e respeito à dignidade humana. A proposta, apresentada pelo vereador Bruno Miranda (PDT), foi aprovada e sancionada pela prefeitura sem dificuldades.
Isoladamente, a criação de mais uma data comemorativa pode parecer apenas mais um capricho para um público específico. Mas, observada em conjunto com outras movimentações na Câmara Municipal, a decisão chama atenção para um fenômeno que cresce na política belo-horizontina: o avanço de pautas religiosas cristãs no centro da agenda institucional da cidade.
Em julho do ano passado (2025), a Câmara Municipal de BH aprovou o Dia dos Legendários, movimento masculino cristão, e discutiu um programa municipal de combate à chamada “cristofobia” e também propostas ligadas à valorização de clubes de tiro. Em março deste ano, a Câmara de BH foi palco de um culto de adoração cristã dentro do Legislativo.
Enquanto pautas ligadas a grupos religiosos avançam com velocidade na Câmara, temas diretamente ligados ao cotidiano da população, como mobilidade, moradia e ampliação de serviços públicos, seguem enfrentando resistência, demora ou falta de prioridade política.
Quais têm sido as prioridades da prefeitura?
Em 2025, a Câmara Municipal de Belo Horizonte contou com um orçamento de R$ 492 milhões (via Lei Orçamentária Anual). Desse valor, aproximadamente R$ 440 milhões foram encaminhados para as atividades legislativas — salários, estrutura, gabinetes e a produção legislativa dos vereadores. Ainda assim, parte importante da energia política da Casa parece concentrada em pautas simbólicas e religiosas, enquanto moradores continuam enfrentando filas em postos de saúde, demora por exames e ônibus lotados diariamente.
O contraste fica ainda mais evidente quando se observa o debate sobre mobilidade urbana. O ônibus gratuito aos domingos e feriados nacionais, por exemplo, não surgiu de forma espontânea como prioridade da Prefeitura (apesar de estar sendo amplamente divulgado nas redes sociais de Damião como uma de suas entregas). A proposta enfrentou resistência e só avançou após forte pressão popular e mobilização de parlamentares, organizações e sociedade civil, sendo implementada com limitações e após longa disputa política.
Ao mesmo tempo, a gestão municipal também se vê cercada de debates sobre prioridades urbanísticas. O polêmico projeto do prédio de 50 andares no bairro Concórdia, questionado por moradores e urbanistas, tornou-se símbolo de um modelo de cidade que parece distante das necessidades reais da população. Afinal, enquanto bairros enfrentam problemas de infraestrutura, moradia e mobilidade, como exatamente esse tipo de empreendimento melhora a vida do belo-horizontino?
Em uma cidade onde o preço da passagem de ônibus passou de R$5,75 para R$6,25, e pesa diretamente no orçamento das famílias, ampliar o acesso ao transporte coletivo parece ter encontrado muito mais obstáculos do que fazer um prédio de 50 andares.
No fim das contas, a discussão é sobre isso: pra quem Damião trabalha? O que acontece quando o poder público investe mais energia em homenagens e em medidas que não impactam de fato na vida do cidadão de Belo Horizonte, do que em soluções concretas para quem passa horas esperando atendimento médico ou se espremendo no ônibus todos os dias? Em uma cidade cheia de urgências, é difícil acreditar que essas são as entregas que o prefeito quer fazer.
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