Projetos barrados: jogos de poder travam política em BH, diz vereadora Juhlia Santos
A parlamentar fala sobre o esvaziamento de projetos, racismo estrutural e a importância de ampliar a presença de corpos periféricos.

Jô Andrade
Repórter

Vereadora Juhlia Santos (Psol). Foto: Tatiana Francisca/Câmara Municipal de BH
Preta, favelada e muito preocupada em fazer política para todo mundo, independente de lado político. A vereadora Juhlia Santos (PSOL) foi eleita para seu primeiro mandato em 2024, com mais de 6 mil votos. Sua trajetória é marcada por lutas em favor da cultura, pelas periferias e pela comunidade LGBT+.
Nesta semana, o Xôtifalá publica uma série de reportagens com algumas das mulheres que fazem, ou já fizeram, parte da política institucional de Belo Horizonte e Minas Gerais.
Entre as prioridades de seu mandato, estão a emergência climática, a defesa dos quilombos, o enfrentamento ao racismo e o fortalecimento da cultura. Além disso, luta pela preservação das serras e dos cursos d'água contra a exploração predatória, promovendo uma cidade mais justa e sustentável. Leia a seguir a entrevista ao Xôtifalá.
Qual projeto você mais se orgulha de ter criado ou ajudado a colocar em pauta?
Olha, eu não tenho um projeto específico, porque tem sido tão difícil, inclusive propor projetos aqui na casa. Todo projeto que a gente consegue pelo menos tramitar é muito importante, é uma vitória para a gente. Por isso que eu não consigo categorizar um só.
Quando eu me dispus a estar aqui nessa casa e a vocalizar as minhas e os meus, eu tinha uma ideia de que a gente fosse aqui propor ideias, fiscalizar, efetivar projetos que vão se tornar lei, e para mim o trabalho da vereadora é esse, de fiscalizar, propor e efetivar políticas públicas. E aí quando eu me dou conta que eu chego num lugar que tem uma disputa que não é da ordem da política pública efetiva para as pessoas de Belo Horizonte, vejo que é da ordem da disputa do poder.
E não é nem uma disputa política, são discussões e projetos apresentados que são disputas de uma narrativa pública, que é esse lugar de fomentar os espaços de poder. Então, eu entendo que a política é um espaço de poder, mas ele não pode ser um poder pelo poder. Tem que ser um poder que a gente consiga decidir diretamente na melhoria da condição de vida das pessoas. Independente do seu posicionamento político, independente da sua bandeira partidária, esse espaço deveria ser. Lá fora nós disputamos as nossas bandeiras políticas, as nossas pautas. Tinha que existir um trabalho conjunto, que é o bem da população de Belo Horizonte, só que isso não é feito.
Como você se sente ao ver projetos que iriam ajudar a população de BH serem esvaziados na câmara?
Ver o projeto que passou pelo desafio de sair de uma comissão terminativa, de tramitar em outras comissões, de chegar a plenário e ser derrubado pelo simples desejo de demonstração de força e poder, é muito ruim. Quando nós apresentamos o projeto que estende o horário das creches para as mães e pessoas responsáveis terem o direito de retomar suas vidas, de retomar suas atividades, a sua reinserção social, porque a gente sabe o quanto é desafiador ser uma mãe solo, ser uma pessoa responsável por uma criação não tendo uma rede de apoio, a gente entende o desafio que é.
E a gente vem desse lugar, a gente vem da quebrada, a gente vem da favela, a gente vem das pessoas que têm marcadores muito parecidos com os meus. E aí entendendo essa realidade, quando a gente propõe esse projeto, ele simplesmente é usado como uma moeda de troca para demonstração de poder, é cruel. Mas não é cruel comigo, Juhlia. Ele é cruel com essas pessoas que dependem de projetos dessa natureza para ter impacto social nas suas vidas. E ele só é barrado porque ele vem de onde vem, dessa travesti preta combativa, essa travesti preta quilombola, que se preocupa em pensar as mulheres pretas periféricas, por maioria, as pessoas responsáveis pela criação de outras pessoas nesse lugar.
Como você faz para recobrar a força e retomar algo que você está vendo que claramente está sendo, às vezes, boicotado por motivos de interesses de poder?
Eu me apoio no esperançar, principalmente depois que as pessoas começarem a ver o quanto é importante elas se enxergarem refletidas aqui dentro. E é sempre uma proposta que eu faço às pessoas de fazer esse exercício. As pessoas que estão aqui compondo esses cargos se parecem com você?
Essas pessoas que estão aqui ditando sobre a vida das outras pessoas, porque aqui é um espaço onde determina sobre a vida das pessoas, elas se parecem? Elas têm atravessamentos parecidos com os seus? Essas pessoas aqui representadas passaram, ou passam, por questões parecidas com as suas? Porque eu posso supor, eu posso imaginar, mas eu não posso sentir se em alguma medida esse sentimento não nos atravessa de forma parecida.
Não estou falando nem de forma igual, estou falando de forma parecida. A cidade de Belo Horizonte, por maioria, mais de 56%, é negra. A cidade de Belo Horizonte é constituída por mais de 60% de mulheres. Cadê essa representação aqui dentro? Cadê essas pessoas parecidas? Que têm marcadores próximos aos seus aqui dentro? Porque se minimamente essas pessoas são parecidas, a gente supõe que pelo menos elas terão uma sensibilidade às urgências e às necessidades da população de Belo Horizonte.
Será que essas pessoas que estão sentadas nessas cadeiras estão tendo as suas casas ou dos seus próximos, dos seus parentes ou dos seus amigos mais próximos sendo invadidas pelas enchentes, pelas águas? Estão tendo os seus carros levados na enxurrada? Será que essas pessoas aqui, elas convivem com pessoas que têm que enfrentar a fila de um posto de saúde sucateado, lotado? Será que essas pessoas aqui têm os seus parentes ou os seus próximos por anos em filas de espera para exames clínicos especializados? Será que essas pessoas que estão sentadas nessas cadeiras convivem diariamente com a insegurança alimentar na sua porta ou na porta dos seus e das suas? Porque por mais que hoje eu estou vereadora, eu não nasci nesse lugar, eu não fui parida nesta Casa Parlamentar. Eu não carrego um sobrenome de uma geração que perdura nesse espaço, eu não venho desse lugar.
Qual o caminho você segue para dialogar e fazer com que vozes parecidas com a sua também sejam ouvidas?
Em alguns momentos preciso fazer o exercício de dizer: eu vou falar alto e eu vou gritar porque da onde eu venho as mulheres falam alto, elas seguram no peito. Eu vou falar, você vai me chamar de raivosa, você vai reduzir as minhas dores ao que você chama de “mimimi”, você vai reduzir os meus anseios e vai banalizar as minhas violências.
Esse desafio que é posto aqui na casa cotidianamente e sistematicamente, porque a nossa presença aqui no nosso gabinete borra uma margem que foi imposta. É como se eles dissessem "vocês podem pertencer até aqui, mas daqui pra frente vocês não vêm. E se vocês ousarem, eu vou dizer como vocês vão pertencer”.
Isso foi um recado muito claro no sentido da brancura. Só que a gente tem provado que eles não tem esse poder, porque não vão barrar o nosso projeto político de redistribuição dos acessos, de redistribuição da condição de humanidade que a gente ainda não tem. Se a gente ainda está lutando por sobrevivência, a gente ainda faz parte de uma categoria que deveria ser de humanidade, mas que ainda é animalizada, porque o animal é o bicho que vive por sobrevivência, não é o ser humano. E aí a gente tem aí a nítida expressão de desumanização das nossas existências.
Vereadora, você foi a única mulher trans eleita nas últimas eleições municipais, o que você acha que o povo de Belo Horizonte espera de você?
Eu espero que essas pessoas comecem a se reconhecer nesse lugar. Às vezes estou pela cidade e vou a espaços que não são da minha bolha, e as pessoas falam: "nossa que trabalho massa que você tem feito”, eu entendo como reconhecimento, não só do trabalho mas também da possibilidade dessas pessoas estarem nesses espaços. Porque estando aqui, construímos um imaginário que historicamente é feito num outro lugar, historicamente foi imposto ou construído um imaginário social onde a política não é pra gente, não é para pessoas pretas, não é pra mulheres… e a gente vem provando que não. Esse lugar é sim onde a gente deve disputar e pertencer.
Quando a gente vê essa câmara que se reconhece enquanto negros e pardos, será que esse reconhecimento não parte apenas do lugar do benefício? Porque até hoje eu não encontrei nenhum benefício social no lugar das políticas públicas, eu não encontrei nenhum benefício em ser negra. O benefício que eu encontro em ser negra é de estar entre os meus e as minhas, é o benefício de ter essa pele que reluz, o benefício de ser descendente de reis e rainhas, de pessoas que desenvolveram tecnologias avançadas na medicina, na arquitetura, nas pessoas que detêm e que detiveram conhecimento, mas essas pessoas que tiveram todo esse conhecimento e a sua existência roubada.
Por que as pautas negras, de mulheres e de outros grupos marginalizados ainda são as primeiras a serem negociadas dentro dos espaços de poder, inclusive em campos progressistas?
Eles temem fortemente essa retomada negra do poder, da reivindicação das essências e dos fazeres. Porque é o que eu falo sempre, a gente ainda está se dispondo a dialogar, a gente ainda está se dispondo a construir junto, porque o dia que a gente reivindicar a nossa herança que foi roubada, essa reivindicação vai ser de forma libertária e emancipadora.
A gente precisa, inclusive, dos nossos e das nossas que ainda se encontram debaixo de um jugo da brancura, e que reflete aqui dentro desta casa. Para manter esses espaços, a gente até recua em alguns dos nossos discursos, porque a primeira moeda de troca, inclusive da própria esquerda, para se manter nos espaços de poder são as pautas das pessoas dissidentes. São as pautas racializadas, são as pautas das mulheres… todas elas são as primeiras a serem negociadas. A gente precisa rever isso, inclusive no nosso campo da esquerda hoje. O que eu sinto é que estamos sempre um segundo plano.
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