Quando a cultura mata: por quê o Brasil ainda falha em proteger suas mulheres?
Por quê ainda ensinamos meninas a se proteger, mas não ensinamos meninos a não matar?

Márcia Maria Cruz
Colunista

Violência contra a mulher não é caso isolado, é estrutural. Foto: Marcello Casal/Agência Brasil
Não há um dia sequer que não somos confrontados por uma notícia de assassinato de mulheres de forma brutal pelas mãos de homens pelo simples fato de serem mulheres.
No ano passado, o Brasil atingiu o número de 1.518 vítimas de feminicídios. Diante de recorde tão nefasto, nos perguntamos: as leis de proteção às mulheres são fundamentais, mas estão sendo eficazes?
A resposta passa pela compreensão de que o feminicídio não começa com a agressão. Começa com a cultura de inferiorização e dominação das mulheres.
Para combater o assassinato de mulheres é necessário construir o consenso na esfera pública sobre a urgência de políticas públicas que possam fazer com que os números de violência contra as mulheres e feminicídios recuem.
Esperamos um debate público informado e racionalmente estruturado - como Habermas nos mostrou em sua teoria, mas nem sempre ocorre. Habermas faleceu, mas a utopia de uma esfera pública democrática segue como horizonte.
Apesar da legislação vigente, as leis parecem brandas e insuficientes para por fim a essa epidemia.
É preciso criminalizar a cultura do ódio às mulheres, é preciso combater no ambiente digital e no off-line células misóginas, e isso passa por responsabilização de quem produz e monetiza conteúdos misóginos.
Também é necessário uma mudança cultural: passa pelo reconhecimento da mulher como detentora de direitos e sujeitos autônomas desde a infância. Algo que parece tão básico, mas não é, quando olhamos para a realidade das mulheres:
O debate público sobre a violência contra a mulher, no entanto, tem sido atravessado por controvérsias que desenham as políticas públicas mais ou menos diversas.
A conceituação do que é ser mulher - e também do que é ser homem - está em disputa. Não cabe essencialização quando entendemos que ser mulher se ampara em experiências do corpo físico e do corpo social.
Entender essas duas dimensões nos torna mais empáticos com as diferentes mulheridades. E que tal começarmos a ensinar meninas e meninas a respeitar de forma equivalente homens e mulheres como sujeitos autônomos e iguais em direitos e oportunidades?
Sou Márcia Maria Cruz jornalista, escritora e colunista do Xotifalá e ocuparei esse espaço com algumas reflexões.
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