Quem diria, né? Trabalhadores mineiros relatam primeiros impactos da venda da Copasa
Sindicatos denunciam remoções compulsórias e adoecimento.

Alícia Lanna
Jornalista

Foto: Alexandre Netto/ALMG
Pouco tempo após o fim do processo de privatização da Copasa, trabalhadores denunciam aquilo que sindicatos e servidores afirmavam que aconteceria desde o início: remoções compulsórias, adoecimento mental e pressão para pedidos de demissão.
As denúncias foram apresentadas em audiência pública da Comissão do Trabalho, da Previdência e da Assistência Social da Assembleia Legislativa de Minas Gerais (ALMG), realizada no início do mês (3/07) a pedido do deputado estadual Betão (PT). Segundo o Sindicato dos Trabalhadores nas Indústrias de Purificação e Distribuição de Água e em Serviços de Esgotos de Minas Gerais (Sindágua), cerca de 3 mil dos aproximadamente 9 mil empregados da companhia estão sendo obrigados a aceitar transferências para municípios distantes, em alguns casos a quase 900 quilômetros de onde vivem.
Segundo informações do sindicato, o que acontece é que trabalhadores que passaram décadas atuando na mesma cidade recebem um e-mail informando que deverão se apresentar em outra unidade, muitas vezes sem diálogo, planejamento ou condições financeiras para reorganizar suas vidas. Quando a nova lotação fica a até 75 quilômetros da cidade de origem, a Copasa não oferece qualquer ajuda de custo. Para deslocamentos entre 75 e 150 quilômetros, o auxílio é de R$ 1.621. Acima dessa distância, a indenização chega, no máximo, ao equivalente a um salário do trabalhador. Quem não consegue se mudar fica diante de um impasse: abandonar a família, reconstruir a vida em outra cidade ou pedir demissão.
Como os servidores têm estabilidade por 18 meses após a privatização e não podem ser demitidos sem justa causa, o sindicato acredita que as transferências acabam funcionando como uma forma indireta de reduzir o quadro de funcionários sem realizar demissões formais.
As denúncias vão além das mudanças de cidade. Durante a audiência, representantes do Sindágua afirmaram que o ambiente de trabalho piorou significativamente após a privatização e relataram o aumento dos casos de adoecimento psicológico entre os funcionários. Dados do sindicato já registram três suicídios de trabalhadores que podem estar relacionados ao agravamento das condições de trabalho.
Também foram denunciadas a ausência de diálogo com os trabalhadores, insuficiência das ajudas de custo para mudanças e o descumprimento de diretrizes da NR-1, norma reguladora do Ministério do Trabalho que determina que empregadores previnam riscos à saúde mental, como assédio, pressão abusiva e sobrecarga.
Para especialistas presentes na audiência, mudanças dessa dimensão exigiriam planejamento, acompanhamento psicológico e negociação com os trabalhadores, medidas que, segundo eles, não ocorreram.
A privatização da Copasa foi uma das principais bandeiras do ex-governador Romeu Zema. Sob o discurso de modernização, eficiência e redução da participação do Estado, o governo articulou mudanças na legislação mineira para viabilizar a venda da empresa.
Na época, sindicatos, movimentos sociais e parlamentares da oposição alertavam que a privatização poderia significar redução de direitos, enxugamento do quadro de funcionários e impactos negativos na prestação de um serviço essencial como o abastecimento de água. Além disso, uma pesquisa contratada pela Associação Mineira de Municípios (AMM) apontou que somente 31% dos mineiros aprovavam a venda da companhia. Mesmo assim, Zema foi adiante com a privatização. Poucos meses depois da conclusão do processo, as denúncias apresentadas na Assembleia alimentam justamente esse debate.
O que acontece em Minas não é um caso isolado. A maior parte da Copasa foi comprada pela Equatorial Energia, a mesma empresa que controla a Companhia de Saneamento Básico do Estado de São Paulo (Sabesp). Desde a venda da companhia em SP, sindicatos e moradores denunciaram falta de água, aumento das tarifas, demora no atendimento e inúmeras falhas técnicas.
Em nota, a Copasa afirma que as movimentações de pessoal fazem parte de um processo de reestruturação administrativa planejado desde 2024 e que as transferências não têm relação com a privatização da empresa. A companhia sustenta que as mudanças seguem critérios técnicos voltados à modernização da gestão.
Enquanto isso, trabalhadores seguem cobrando a suspensão das remoções e o Ministério do Trabalho informou que acompanhará as denúncias apresentadas na Assembleia.
Tags: